Minas do hip hop: MC Dall Farra, a palavra que vem da Baixada

4º parte da série de entrevistas com mulheres que compõem a cena hip hop do Rio de Janeiro

Em 1960 foi lançado o livro O quarto de despejo: diário de uma favelada, escrito por Carolina Maria de Jesus, uma observadora crítica que denunciava o abandono social dos mais necessitados em seus diários. O livro é considerado um marco da literatura feminina do Brasil. MC Dall Farra, 21 anos, carrega parte do nome de umas das escritoras mais importantes do país: Carolina. Ela também, como mulher negra, tem a mesma vontade de dizer que é silenciada todos os dias.

Nascida em 1995 com o nome de Ana Carolina Barbosa e criada no Jardim Primavera, bairro do município de Duque de Caxias, onde passou a adolescência não tão distante, ela e o irmão mais velho ouviam Racionais, Sabotage e Projota. Andava com os meninos do bairro que iam para as rodas de rima, mas algo ali não pertencia a ela. Era a única menina do “bonde”. Solta na rua, mas sempre acompanhada dos irmãos, a menina cresceu. Aos 15 anos foi para São Paulo estudar, fazer um curso financiado pelas amigas da mãe adotiva. Na terra de arranha-céu fez aula de canto em uma ONG. “Na aula de canto sempre tínhamos que subir mais o tom e eu não me identificava com aquilo, era um canto muito tradicional”, conta.

Seguia ouvindo rap e, tentando achar algo que a representasse, encontrou as vozes de Karol Conká, Flora Matos, Erykah Badu e Lauryn Hill. Com isso, começou a rascunhar as primeiras composições e decidiu em qual tom cantaria. Cantou na semana de cultura da escola em que estudava. Deu certo. Seis meses depois a MC volta ao Rio de Janeiro.

Escrevia toda as coisas que estava sentindo. Pensava nos beats e deixava tudo anotado na esperança de um dia poder gravar. Envolvida com o social começou a trabalhar como voluntária em uma ONG no morro do Alemão. Do Jardim Primavera ao morro do Alemão, de trem, o trajeto dura em média uma hora e meia. Esse era o percurso que ela fazia para estagiar numa oficina de audiovisual. Dessa vivência surgiu a ideia de reorganizar o Sarau do Alemão, conectando pessoas, no final de 2015. “Eu, Jéssica e MC Martina organizamos o evento, foi algo mágico”, conta. A repercussão do Sarau abriu convites para a MC cantar em ONGs, escolas públicas e na Casa do Menor. O tom das letras de suas músicas é de denúncia, como pode-se observar em “Periferia” e “Senzala Urbana”. A MC, que é estudante de geografia na Universidade Federal do Rio de Janeiro, não simplifica suas músicas. “Algumas discussões que levanto nas minhas músicas é porque eu tenho a oportunidade de estar no espaço acadêmico”, conta.

Em tempos de redes, o Facebook e o Youtube foram as ferramentas usadas por ela para começar a atingir outros públicos: “Minha página tinha umas 300 curtidas. Uma semana após a divulgação dos vídeos feitos pelo Estúdio Abaeté, a página pulou para 1.175 curtidas. Foi aí que eu comecei a entender que, por mais que eu estivesse ativa no mundo real, era importante estar no meio virtual também”, diz.

MC Dall Farra é expressiva. Criada a partir de suas próprias experiências e observações do cotidiano ela transforma suas letras em algo visceral e não raro toca exatamente no ponto nevrálgico do racismo. A questão de gênero também não passa despercebida, “O trabalho artístico da mulher negra não é divulgado, as pessoas buscam uma MC negra quando querem algo com recorte racial, por exemplo, uma pesquisa sobre ‘cantoras negras” e não só sobre cantoras”, observa.

Tem ferida que ninguém fecha/Tem alma que ninguém vê/Tem sorriso que não ilumina/mas foi porte pra crescer/Tem coração trancafiado/Tem gente que viu morrer/A parcela que mata a” pampa” é a que finge viver”,

O HIP HOP E A VISIBILIDADE FEMININA

Quantas mulheres MCs você conhece que se sustentam apenas fazendo música? Agora pensem em quantos homens estão ganhando dinheiro com a mesma atividade. “Para sermos percebidas não temos que ser somente boas, temos que ser boas para caralho e mesmo assim não é garantia de nada. É um tipo de percepção bem injusta, sabe? Porque nós, mulheres, negras e rappers, sabemos que há várias mulheres incríveis entre nós”, reflete Carolina. Desconstruir a fala masculina parece ser umas das táticas para , “O cara que escuta rap tem como referências músicas com letras machistas, até porque, quem canta essas músicas são os mesmos cantores que fazem a “música da balada”. Logo, o ouvinte já tem uma visão construída da mulher a partir das músicas que ele escuta. Se eu quiser chegar até esse público tenho que ficar atenta à minha letra, ao meu discurso. Se eu chegar com o mesmo discurso, nada muda”, acrescenta.

Existem muitas mulheres MCs produzindo às margens, de forma independente e divulgando pela internet, mas a pauta feminista chegou na outra ponta, nos grandes veículos de comunicação: “Há um “tapeamento” por parte da mídia. Agora colocam uma mulher cantora, rapper e negra em todos os veículos de comunicação de forma massiva. Ótimo, já temos uma lá, mas e as outras?”, questiona.

Letras grandes, com começo, meio e fim. Assim são as composições de MC Dall Farra: “Confesso que tenho uma certa dificuldade de desassociar a parte do contar uma história, com o cantar uma música. Lembro da primeira letra, era enorme, era muita história calada e oprimida”.