Minas do hip hop: MC Uni-KA, a resistência de Nova Iguaçu

3ª parte da série de entrevistas com mulheres que compõem a cena hip hop do Rio de Janeiro

“A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da cultura, então temos que mudar nossa cultura.”(Sejamos todas feministas, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie).

Marcia de Siqueira Martins, 34 anos, profissão rapper. Moradora de Lagoinha, bairro do município de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense. O rap chegou até ela por meio da educação. Aos 16 anos, durante as aulas de artes cênicas e breakdance, ela se identificou com a declamação de poemas: “Escrevia e falava poemas sobre racismo, e sobre o preconceito que sofria por ser gorda. Sempre dava muito certo, a turma gostava e passaram a me chamar de Mano Bronw de saia. Até que, um professor falou para eu começar a cantar”. Entre a década de 90 a 2000, Marcia Uni-KA foi integrante dos grupos, Liberdade de Expressão e o NRC. Com o hip hop, MC Uni-KA que na época se chamava Marcia 2pac, participou de campanhas de conscientização contra o tabaco do Ministério da Saúde; cantou no Hutuz Rap Festival, o maior festival de cultura hip hop no Brasil, e participou do documentário Rap de Saia.

As referências do rap dos anos 90 eram homens, tais como: o grupo Planet Hemp, Tupac, Marcelo D2 e MV Bill, “Mas tem uma mina que eu me identifiquei muito no início, a Rúbia do RPW”, conta a MC. RPW é um grupo dos anos 90, que tem uma vocalista mulher, e ficou famoso por trazer o estilo “bate cabeça” , e também misturar rock e hardcore com rap.

Depois da morte do seu pai, Marcia não tinha mais dinheiro para pagar o aluguel de sua casa, foi morar com a vó materna que, depois de um tempo a colocou na rua. Em 2013, Uni-KA morou por oito meses na Avenida Dom Hélder Câmara, umas das principais avenidas da Zona Norte do Rio de Janeiro. Perdeu os documentos. Passou fome. Morou de favor no barracão do seu pai de santo. Sua família hoje é a irmã e o sobrinho, moram juntos. Ainda desempregada e sem documentos, a música é uma esperança para se reerguer, “A internet facilitou muito a vida de quem faz rap. As mídias digitais facilitam na divulgação, a quantidade de beatmakers aumentou, agora não precisamos mais usar beat gringo para gravar nossas músicas, porém, a falta do dinheiro dificulta muito”, conta.

O retorno

Quando não se tem comida na mesa a criatividade vai embora pela janela. Diante das dificuldades ela ficou muitos anos sem escrever, “o que me deu forçar para escrever de novo foi a entidade 7 encruzilhadas. Num dia no barracão disse a ela minha vontade de voltar a cantar rap, e ela pediu para eu escrever algo e presenteá-la. Naquela noite eu não consegui dormir e escrevi uma letra.”

Seu novo single é o “Afrontah”, uma letra sarcástica que, segundo a MC, não fala de tristeza. Com referências do candomblé, a composição fala de Cainana, associada à entidade Exu cainana. Outra referência é a música “Jibóia”, do sambista Almir Guineto. “O discurso não muda, desde que o mundo é mundo, é muita dor e tristeza, por isso, eu gosto de incomodar, afrontar mesmo, com uma boa batida e levada”, explica. Hoje ela faz parte de uma banca de MCs chamada Kzarão, cujo o objetivo é criar um estúdio próprio para gravações das músicas.

Gravar, masterizar o beat, fazer um lyric vídeo, criar uma identidade visual, a MC conseguiu fazer com a ajuda de uma rede, pessoas até de outros estados se solidarizaram com a história e acreditaram no trabalho dela. “O rap é muito difícil para nós mulheres. A mulher para se sobressair não tem que ter só talento, tem que ter um talento diferenciado. É uma cobrança maior. Temos que estudar mais, nos aprimorar”, acredita.

Like what you read? Give Clara Sthel a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.