LITERATURA HOJE #01

O escritor, o leitor e a literatura na Itália

Fonte: Trentino | Texto original: Fausta Slanzi

No dia 28 de janeiro de 2016, quinta-feira, o escritor, professor e roteirista, autor de ficção e não-ficção, Alessandro Tamburini, convidado pela Associazione Culturale Rosmini, falou sobre “O leitor e o escritor diante da literatura hoje” (Il lettore e lo scrittore davanti alla letteratura oggi).

Alessandro Tamburini (Rovereto, 29 marzo 1954)

“Para a literatura de hoje, devemos fazer algumas distinções, - ele disse - o papel enquanto suporte da escrita está passando por uma crise muito grave, a competição online é assassina e está condicionando fortemente o impresso. A Era Gutenberg está em uma fase crítica, os jornais perderam cópias, as casas editoriais estão em crise, na Itália, as grandes estão absorvendo as pequenas. Esse panorama coloca em forte embaraço a figura do escritor, que tem uma vontade e uma necessidade expressiva que vão além do êxito final da obra e que escreve também com o intuito de publicar. Neste momento, a relação do escritor com o mundo editorial é difícil, o escritor vive um forte desconforto”.


Por quê?

Porque as editoras fazem uma “política” de emergência, estão sempre na busca frenética por best-sellers, não se importando muito com a qualidade, mas, principalmente, com a quantidade. Torna-se perceptível quando vamos a uma livraria. Frequentemente, há uma qualidade literária média-baixa nas prateleiras e os melhores livros devem ser encomendados. O escritor, atualmente, tem interlocutores difíceis. Nas editoras, há especialistas em marketing, pessoas destinadas a encontrar livros mais vendáveis e a tornar vendáveis alguns escritos que poderiam ter sucesso. Os editores não existem mais. Até os anos oitenta / noventa, - comecei a publicar livros na década de oitenta - as editoras tinham um certo número de livros para faturar e uma outra parte para fazer catálogo, obras de qualidade, apreciadas pela crítica. Essa segunda parte desapareceu. Os livros de qualidade, às vezes, são bem sucedidos, mas a busca dos editores já não é mais, em nenhuma medida, a busca de livros de qualidade: isso acontece quando as contas estão no vermelho. Por essa razão, o escritor está em crise, porque os critérios que ele usa para escrever não estão relacionados com os livros que vendem mais. É um fato que diz respeito em particular à Itália, o livro não navega em boas águas, porque o país tem uma situação cultural de base já gasta. A crise aqui é mais pesada, porque, no momento, metade dos italianos não leem um livro por ano e o escritor deve chegar a um acordo com essa realidade, continuando com o que é importante em uma obra literária e com o que os editores querem.


Não é uma situação nada confortável. E quanto aos marinheiros de primeira viagem?

Existem, obviamente, exceções. Carmine Abate, por exemplo, é uma delas. Para os novatos a situação é dramática, porque, se você não é conhecido, não é publicado, mas você não pode ser conhecido, a menos que seja publicado. Muitas vezes, publica-se livros de escritores que não são escritores, como: cantores, comediantes, jogadores de futebol e apresentadores. Estudiosos examinaram esse fenômeno com muito cuidado e descobriram que o “paratexto” conta sempre mais: tudo aquilo que está em torno do livro, que não tem nada a ver com o livro. Há casos muito claros que vão em detrimento dos escritores. É um ambiente sempre muito contaminado.


Um retrato do leitor de hoje?

O leitor está perdido pelo simples fato de ter perdido os pontos de referência que haviam antes. Entre os pontos de referência, estava a crítica. Hoje, a crítica não existe mais. Os prêmios literários sérios não existem mais. Eles são feitos pelas editoras, perderam credibilidade e também editores. Se antes alguém comprasse um livro, por exemplo, da Einaudi [editora], poderia ficar tranquilo quanto à qualidade, era garantia de boa leitura. Hoje, as editoras publicam qualquer coisa que dê garantia de venda. Como o leitor muitas vezes acaba se “decepcionando”, cada vez mais se afasta da literatura contemporânea. Não havendo mais uma garantia de qualidade, muitas vezes, o leitor prefere gastar de 7 a 8 euros com clássicos, em detrimento de autores novos. Só confia no que a historia já aprovou e este é um círculo vicioso, um gato mordendo o próprio rabo.


Literatura e redes sociais, qual a relação?

É um discurso interessante: há uma infinidade de formas de escrita que fazem uso da comunicação on-line, revistas e algumas coisas realmente interessantes como, por exemplo, a plataforma Wattpad, que está produzindo verdadeiros fenômenos. Há 40 milhões de membros no mundo inteiro, é uma plataforma onde as pessoas podem escrever histórias e publicá-las. Já existem mais de 600.000 histórias publicadas. Os autores são jovens. Desse extraordinário recipiente, saiu Anna Todd, uma garota texana que fez um grande sucesso com uma de suas histórias e, depois de milhões de leitores online, teve seus livros impressos em papel. A jovem italiana, Cristina Chiperi, 17 anos, nacida em Moldovia e paduana de adoção, também veio de lá. Seu livro vendeu 30.000 cópias. Se mesmo esses, que escrevem com o telefone, no final são descobertos e têm seu livro impresso, então podemos nutrir alguma esperança e dizer que a Era Gutenberg ainda não acabou.


Como a literatura é abordada nas escolas e nas universidades italianas?

A escola deveria ser o principal centro de formação de leitores, mas não exerce essa função. Firmando-se na metade do século passado, a maioria dos professores de letras não leem literatura contemporânea. Meus filhos leem pelo menos dois livros de literatura contemporânea por ano, porque deve ser assim, mas poucos são os que fazem isso. A escola não incentiva a leitura. Existe um movimento de livros gerado pela escola, especialmente no início do verão, focado em um certo número de títulos da literatura novecentista, mas ele para no meio do século XX. O último século da ficção contemporânea é desconhecido.

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EXTRA:

Não conhece Alessandro Tamburini?

Confira a livre adaptação feita por ele, em 2008, do texto de William Shakespeare, “Romeu e Julieta” (ato II). Foi um exercício realizado durante a oficina de Marco Bellocchio e Stefania de Santis, no Curso de Direção do Centro Sperimentale di Cinematografia.