jacuzzi/tarântula/boyfriend

por Antonio LaCarne


jacuzzi

no meu aquário você é um revólver cinematográfico. uma dose de veneno na prateleira. o cristal de espinhos pendurado no pescoço mais lindo. anos de pedra sobre pedra no globo central da mente que não gira. a mente que não é um rio, você que não tem repulsa ao sexo. eu que me desestimulo subindo a montanha, lavando a bunda no chuveiro. klauss cada vez mais depressivo, ausente nas paredes da varanda. ele é o dilema que ainda não encontrei no dicionário. ele dançou, caiu, perdeu a chance. é um boi sem nome no pasto. um boy sem sinestesia. já imaginou o desespero? no meu aquário ele é também uma espingarda cinematográfica, talvez uma escopeta. anjo negro num corpo de samambaia. mas você só me pediu um espaço no mundo & eu nada respondi. mas você só me pediu um abrigo no mundo & respondi que eu queria a mesma coisa. a fome é tão grande que eu comeria uma borboleta, um rinoceronte, uma girafa, um texugo &, inclusive, você. as florestas se dispersam mas você não esquece o passado. nem eu com o meu cabelo bagunçado segurando um dicionário húngaro & imaginando o teu pau na minha boca.

tarântula

uma espécie de luz/coração de moça na estrada. o precioso amante dando cambalhotas contra o tempo, redecorando sem esmero as supostas facadas no peito, enquanto o sangue é lama & deus vira de costas.

na tv um loop de águias desvairadas nos céus-voos-rasantes, suas mordidas salientes, as nódoas no lençol da cama, a claridade do abajur que torna clássica nossa silhueta de monstro.

preciso ser puta, mamãe. os homens não me entendem, dezenas devoram minhas calcinhas. se me pergunto o que me provoca umidade na xoxota, eles respondem com seus paus em riste.

meus olhos que politizam os dedões de seus pés, & abro a boca numa sucessão de equívocos, lágrimas, truques.

em 2013 o meu sopro é uma mordida no ouvido. imaginei a infância numa distância de mil dias longe das barbies, tão louras & obscuras, como se eu fosse a imagem de homem ou mulher, ambos possuídos inadvertidamente a favor dos sonhos.

a esposa, que nada espera além de um buquê de rosas & chocolates, jamais sucumbiria à solidão de noites tão longas, de mesas sem talheres, de guardanapos inadvertidos às sujeiras das mãos.

ela que te come com o dedo nas entranhas, te explorando os bagos na terrível discordância dos gêneros.

eu que me perco em rosários, pois também sou rato de igreja aos domingos diante dos padres. cubro a imagem das santas com um manto de causas frívolas, tão pessoais quanto a escolha dos esmaltes.

penso unicórnios & uma puta salvação na mesinha de centro.

pois me perfumei com desdém ao me negarem companhia na cidade que não é fofa, nem clean. de uns tempos pra cá, dei prioridade ao silêncio, congelei o mundo, segreguei os desafetos, pus a cabeça no forno, quis imitar sylvia com o maior respeito possível.

boyfriend

carinho, me resgatou do buraco, das barras, das putas mágoas de bêbado apaixonado — sou um bruxo antes dos trinta & não te absolvo por me abandonar antes do segundo beijo, como se eu fosse uma cadela esfomeada, doida por pau, segredo & literatura.
penso nos trópicos, na meia dúzia de bananas: um pingo de sensibilidade longe da tua zona de conforto — olhar de pantera mascarado por fluxos de escuridão, quando dei adeus às sleeping pills & enchi a cara numa compensação difícil.
nem porra, nem puta — você criou asas enquanto eu despencava do meu próprio andar de um metro & oitenta, então resolvi escrever um livro sobre a pós- modernidade que oprime, deprime & que não manda flores no dia seguinte.
amei você quando não havia sol ou pudor.
espinhos, cristais escondidos, falésias: coração comparado às andorinhas da paixão universal.
mantive os diários sob o poder das gavetas. mutilação das linhas de expressão quando sonhei com o ator pornô húngaro a me livrar da frigidez numa cama chinfrim de motel pago com o limite do meu cartão de crédito. escolhemos a suíte pole dance com hidro & demarquei cada centímetro com a língua, olhos, nádegas em profusão — depois fui embora com um sorriso de viúva alegre estampado nas fuças.
o lado b do amor tão obscuro, vendendo meu próprio peixe para que você me ame, ou na pior das hipóteses, desmembrar as vértebras do meu prazer em ambientes dominados por cães na sarjeta & dignidade na estratosfera.
mas pago o preço, encaro as duas faces da moeda & planejo cada passo na alcova.
os quadriláteros do abandono estão aqui representados, dançamos ao som do jazz diante dos canteiros centrais & das vias expressas não plastificadas.
resta-me rasgar as tuas pernas, queixo, memória & afeto aos frangalhos: tiro de espingarda no coração. aí o clima esquenta & sou obrigado a me desfazer das histórias onde interpretei megeras, datilógrafas ninfomaníacas, divas abandonadas.
me livro do luxo, da intelectualidade & do frio.
telefono para dr. salomão que me atende entorpecido de recusa. ele diz que já fomos longe demais no tratamento, não há cura possível. ele então prescreve doses cavalares de um medicamento cujo rótulo exibe fogo ao redor da boca, boca ao redor do fogo. tomo dois comprimidos sem pestanejar.
dr. salomão sorri, glamouroso — segurando a bengala importada do egito.
como pagamento, ele me estapeia a bunda.
& pairo num terceiro andar de um corredor às quatro & trinta & sete no calor insustentável do brasil.
(você precisa abrir os olhos).
mas você me observa reticente & o combustível do momento é o pensamento claustrofóbico & oscilante naquele quarto úmido de motel.
pole dance com hidro, lembra?
as fomes que não se descosturam.
busco fôlego para materializar o livro.
arbustos, jarros, sombra & coração impecável para as consequências. você que me culpa & que não me explora os olhos, os ossos do ofício, os gatos abandonados, o gato por lebre.
tudo em vão como um lábio superior desenhado sem esmero na pintura.
& diante do ex-amante proponho um batuque, um samba, uma pausa na coreografia. tomo mais um gole do perigo que eu mesmo interpretei.
da janela, fotografo as luzes esparsas do centro da cidade.
projeto: obsessão, terror & glória.
25 de fevereiro de um ano qualquer:
a vida é um fist fucking cravejado de diamantes pontiagudos.

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