Entre narizes e clitóris…

Ensaio pornotendencioso de Giorgia Conceição


Não vou mentir, gosto de pornografia. Assisto regularmente vídeos em sites pornôs, passeio por várias ‘categorias’, reassisto meus favoritos muitas vezes. E sim, também gosto de imaginar um mundo no qual seja possível apenas chegar num lugar qualquer, ter um tesão louco, tirar a roupa e simplesmente foder, sem maiores justificativas. Mas a vida é mais exigente conosco. Acho que principalmente com as mulheres e com todas as pessoas que saem do esqueminha fácil “homem é isso, mulher é aquilo, hétero é isso, homo é aquilo, trans é outra coisa” (e por aí vai…). E quando a gente assume gostar de sexo, quando assumimos nosso desejo, mil janelas se abrem, porém também existem protocolos para se chegar à almejada foda libertária. A questão, obviamente, também transborda para a arte, para a performance.

Como não pensar sobre categorizações? Interrracial. Big Tits. Blonde. Ebony. Oriental. Shemale. Readhead. Chubby. BBW. Mature. Milf. Latina. WTF? Fico pensando quantas dessas estampas eu carrego no meu corpo — e quem as forja.

Performance Lambe-Lambe Action. Companhia Silenciosa, 2011 (Foto: Alessandra Haro)

Primeira parte:

O meu corpo é um campo de batalha!

A primeira vez que fiquei nua diante de um público foi para poder me ver nua também. Pra ver meu corpo como ele era, para me ver no espelho. Eu me achava gorda (e sim, eu sou gorda, mas o que isso significa? Chubby, BBW?). Tinha uma grande dificuldade de me ver em performance (nua ou vestida). Então, chegou um momento que decidi trabalhar exatamente sobre esse ponto, problematizá-lo, relativizá-lo. Isso aconteceu na minha primeira performance solo — Salmon Nela, em fins de 2007.

Salmon Nela discute o tema da brasilidade como um problema existente no cruzamento entre fixação tanto do gênero feminino quanto da identidade cultural. Carne e mercadoria se confundem, mas se expandem para além da fixidez. A liberação de sentidos múltiplos ocorre justamente com o uso do fetiche na composição, num ponto onde, a despeito de qualquer moralidade, não é mais pertinente pensá-lo apenas dentro do sentido alienado (como em Marx) ou patológico (como em Freud). Quem me ajudou bastante a pensar sobre essa questão do fetiche foi a Sheila Ribeiro (artista da dança com quem eu tive um imenso prazer de trabalhar), e também através do que escreve o antropólogo Massimo Canevacci.

Dentro de minha pesquisa artística, a multiplicação de sentidos ocorrida pela ativação de fetiches seria, a partir de então, uma estratégia de descolonização do meu corpo. Esse também é um problema chave para os estudos da performance. O corpo colonizado é, como diz André Lepecki, “uma área ainda sombreada onde a dança me parece titubeante, incapaz de agir de forma plena”. Se a encenação do fetiche, seu evidenciamento através do corpo que se move pode se tornar um ato poético/político, isso ocorre porque o “fetichismo exaspera, leva às últimas consequências todas essas ambiguidades”, emergindo dessa intensificação “um fetichismo que não coincide totalmente com o domínio” (Massimo Canevacci).

Em Salmon Nela, a entidade/passista, a carne peixe/carne humana ativam dúvida, assombro, sedução. Estão colocadas em cena para problematizar a questão do pertencimento/não pertencimento de gênero e cultura, questionando fronteiras pré-estabelecidas, indo além de limitações que me enfraqueciam.

Quando estava compondo Salmon Nela, fui influenciada por algumas coisas que tinha visto, lido, ouvido naqueles tempos:

a) uma matéria sobre casas de prostituição nas quais existe uma “sushigirl” ou algo do tipo, que na verdade é uma garota nua que vem servida como base para os sushis. Os clientes comem o shushi e depois a mulher.

b) o funk de Deisy Tigrona, principalmente Dako é Bom. Eu realmente amava a Deisy.

c) eu soube que, tradicionalmente, o homem é que deve fazer o sashimi; então, no meu universo lúdico, eu estava fazendo uma puta transgressão ao cortar sashimi, peladona, e distribuir ao público.

Segunda parte:

lista de alguns fetiches, em ordem alfabética.

Age play; Bare Bottom Spanking; Big Black Cock; Blushing; Boss/Secretary; Braces; Breast Bondage; Breast whipping; Breastfeeding; Breasts; Bukkake; Butches; Caning; Casting; Catsuits; Cell Popping; Cock and Ball Torture; Cock worship; Cunnilinguis; Cyber sex; Emotional masochism; Erotic Photography; Fisting; Flashing; Fucking machines; Gags; Gagging/choked by cock; Geisha; Glasses; Hoods; Human Doll; Impregnation Fantasy; Lesbian domination; Making Home Movies; Massages; Mommy/boy dynamics; Objectification; Online Play; Oral Sex; Orgy; Outdoor sex; Paddling; Play Punishment; Porn; Public Humiliation; PVC; Religious Play; Role Play; Satin; Schoolgirl uniform; Service; Sex During Menstruation; Shoes; Small tits; Suspension Bondage; Talking Dirty; Tickling; Transgender; Transvestism; Triple Penetration; Urethral Sounds; Vampires; Violence; Voyeurism; Waterboarding; Watersports.

Giorgia Conceição em ilustração de Ramon de Castro

Terceira parte:

categoria: chubby + latina; fetishes: fucking machines + violence + voyerism.

Corpos femininos ora nus, ora vestidos à moda country, esgarçando os limites do estereótipo através da factibilidade da carne chacoalhada. Em Simpatia Full Time, (trabalho que realizei com as artistas Cândida Monte e Stéfany Mattanó, com colaboração de Sheila Ribeiro) estávamos experimentando o que somente corpos não magros e flácidos poderiam fazer: vibrar vigorosamente. Fizemos um videodança, no qual o chacoalhar era provocado pelo movimento de um touro mecânico (comum em rodeios e festivais country no Brasil, nos EUA e em grande parte da América Latina). A crítica ao mundo dos rodeios no qual animais e pessoas são objetificados, à carne barata das modelos, e, ao mesmo tempo, a realização de uma fantasia pessoal das performers de estar no lugar delas. Reversão da boiadeira-em-nós. O videodança Simpatia Full Time circulou por diversos festivais do Brasil e América Latina, e também em Madrid (onde obteve o Prémio a la Obra Más Innovadora del Festival MADATAC, no ano de 2010).

Quarta parte:

chacoalhando.

Depois de Simpatia Full Time, pensei de que maneira eu poderia me aproximar ainda mais do meu corpo, ou mesmo internalizar um equipamento que o fizesse vibrar? O touro mecânico, que exercera essa função no videodança, poderia ser agora algum outro objeto que estivesse ainda mais próximo do meu corpo, ou mesmo fazendo parte da minha carne? Como eu poderia vibrar? Que objeto, procedimento ou mecanismo (ou a combinação deles) poderia me ajudar a investir na peculiaridade do meu corpo, e na dança que apenas um corpo gordo pode obter pleno sucesso em seu desempenho? O estranhamento, a força, o vigor, a imagem disruptiva de um grande corpo que chacoalha. Esse seria, enfim, o mote de desenvolvimento de Technomaravilha.

O vibrar, em Technomaravilha, não é somente uma metáfora, é programa. A ação é literalizada pelo uso de um vibrador de sexshop. O uso do aparelho chacoalha a experiência entre o corpo da artista e o da audiência, borrando fronteiras. Pornografia? Retomando Massimo Canevacci, a experiência em Technomaravilha é potencializada pelo uso do fetiche, liberando-o das incrustações do domínio, pois seus sentidos são completamente chacoalhados. É uma situação que exaspera e leva a questão até um limite extremo: o orgasmo/exaustão. Um esgotamento das identidades.

O corpo pode ir além de suas configurações pré-codificadas, e ir ao encontro de espaços de atuação no mundo (frestas, buracos, cicatrizes, rompimentos), que colocam em jogo a estabilidade dos centros. A centralidade da verdade, assim como da identidade, tudo isso perde efeito ao ser chacoalhado. O estranhamento causado pela dissolução da fixidez das formas do “eu” é uma consequência desse movimento, e pode provocar diferentes sensações, inclusive aterrorizantes. Porém, acredito que o medo é fruto de uma certa propensão, na cultura de tradição ocidental cristã, para a seriedade e o sofrimento. Essa tendência pode ser revertida, se o comprometimento com a seriedade também for outro. Afinal, o que se entende por seriedade, não é mesmo?

Quinta parte:

“É pelo meio que as coisas crescem”.

Adoro literatura. Erótica, fantástica, pornográfica, e tudo mais que a escrita pode proporcionar como criação de mundo. A literatura fantástica é, para dar um exemplo, um campo no qual as desestabilizações do eu experimentam diapasões diversos. Se, durante o século XIX, a personagem do conto fantástico frequentemente entra em pânico como suas “projeções psicológicas” ou com “eventos sobrenaturais”, escritores atuais como Mia Couto propõem um olhar completamente derrisivo, irônico, descolonizador, bem humorado para esses lugares desconhecidos na ausência da fixidez do eu. A literatura fantástica do século XIX é repleta desse mundo de alucinações e toda sorte de coisas extraordinárias, como se houvesse uma segunda natureza além da realidade factível, uma natureza misteriosa, inquietante aterradora. Como se houvesse uma oscilação entre dois níveis de realidade inconciliáveis.

Provocação: qualquer semelhança entre o pornô e o fantástico seria mais do que mera coincidência? Fico pensando se o cinema pornô, que ganhou repercussão a partir de Garganta Profunda (1972), seria uma forma disruptiva do discurso? Ou não? E ainda, qual seria a diferença entre a garganta de Linda (personagem do filme em questão que possui o clitóris no fundo da garganta) e o nariz de Kovaliov (do conto de Nicolai Gogol, escrito em 1836)? Não seriam dois casos em que haveria uma natureza do corpo além do comum, e que por isso traz problemas, tanto para Linda quanto para Kovaliov?

Mas se permaneço no terreno da interpretação de projeções psicológicas, ainda sigo reforçando a fantasmagoria identitária. A imagem fantasmagórica das identidades permanece sendo investida dentro de um modelo político vigente, apesar de ultrapassada do ponto de vista teórico e filosófico. O tema da dissociação do eu é, na literatura (e por que não na pornografia?) um vasto campo para a experimentação efetiva, justamente porque ali podemos sair desse tipo de interpretação, sem hierarquizar a presença de um eu, que seria maior do que suas projeções. Afinal, por que só haveria tranquilidade plena na fixidez de uma identidade imóvel?

Por que não desejar, e mesmo praticar, a multiplicidade do eu em muitos? Por que essas cisões geram tanto pânico? Brinquemos com nossos clitóris e narizes, e deixemo-os livres para que atuem como quiserem. Para que tenham vida independente da nossa, se assim acontecer.

Technomaravilha, de Giorgia Conceição (Foto: Tiago Lima)

Lista de links e referências:

Salmon Nela

Veja o registro da performance em https://vimeo.com/86991797

Simpatia Full Time

Video disponível em https://vimeo.com/16910808.

Technomaravilha

Registro disponível em https://vimeo.com/40404372.

Lambe Lambe Action — El Gran Cabaret Porno

Vídeo disponível em https://vimeo.com/28422428.

Sobre fetiche

CANEVACCI, Massimo. Fetichismos visuais: corpos erópticos e metrópole comunicacional. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008.

Sobre o corpo colonizado

LEPECKI, André. O corpo colonizado. In: Revista Gesto. Rio de Janeiro: Centro Coreográfico do Rio de Janeiro; Instituto Municipal de Arte e Cultura, 2003.

Giorgia Conceição (Curitiba, 1981) é artista de performance (live art e cabaret new burlesque). Trabalha com linguagens contemporâneas diversas, mas que tem em comum o corpo e a produção de imagens como propulsores para a criação. Deste modo, as artes gráficas e a street art também são eventualmente utilizadas para composição de suas performances. Produz trabalhos solo e em colaboração com outros artistas. Durante dez anos integrou a Companhia Silenciosa (Curitiba, 2002/2012), da qual foi uma das fundadoras. Suas mais recentes pesquisas miram a performance como um campo potente para a produção de erótica. O viés político de seu trabalho surge a partir do corpo como um lugar privilegiado do pensamento, emancipação e proposição estética. O cruzamento entre os conceitos de Burla (a partir do burlesco) e antropofagia foram a base de investigação desenvolvida no seu Mestrado em Artes Cênicas (UFBA), intitulada A Burla do Corpo: estratégias e políticas de criação.

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