Guia de pornochanchadas com iniciativas de resistências (?)

por Maria Eduarda Ramos


Saudade de corpos com muitos pelos pubianos? De cenas eróticas com corpos não-sarados? De cenas de sexo sem gemidos estridentes? Do sexo sem sequências aeróbicas iguais: boquete, anal, penetração? Cansade da pornografia ao estilo gonzo norte-americano? Que tal revisitar as pornochanchadas? Será que é possível “resgatar” algo interessante?

Cenário político brasileiro: 1964, golpe militar no Brasil. O país passa a viver sobre o regime autoritário de ditadura militar até 1985. Período de perda de direitos políticos e humanos, repressão, censura.

Cinema nacional: Pornochanchadas eram a maioria da produção nacional dos anos 1960 até 1980. Gênero que unia uma influência de filmes italianos, erotismo e humor. A pornografia era censurada no país, sendo censuradas até 1980 imagens de nu frontal e/ou completo e o sexo explícito.

Assim, o que se pode apontar como iniciativas de resistências nas pornochanchadas (seja de comportamentos, de sexualidade, de corpos, etc.)?

Estrela Nua (1985)

A pornochanchada ganhou força no país como um gênero do cinema com muitas produções anuais (consideradas de baixa qualidade) e numerosos expectadores. Por um lado fazia parte de uma “revolução sexual” brasileira (influência da “revolução sexual” dos anos 1970 internacional), por outro lado, se fazia isso com muitos preconceitos machistas, heteronormativos, homofóbicos, transfóbicos, explorando a imagem das mulheres como objetos sexuais, enfatizando o casamento com mulheres virgens, etc. Personagens homossexuais e travestis eram frequentes nas pornochanchadas, porém, representades quase sempre com estereotipia e chacotas. Entretanto, tudo pode se transgredir, subverter, fazer mover outros fluxos.

A liberdade sexual das mulheres é uma das características das pornochanchadas, recurso que não serve como forma de resistências às hegemonias, moralidades sexuais da época, já que frequentemente caía na imagem de mulheres como objetos sexuais dos homens. O racismo também estava presente nesses tipos de filmes — um exemplo são as personagens negras retratadas (por homens brancos em sua maioria) como promíscuas, sensuais, fogosas, provocantes, sendo objetificadas e estereotipadas de forma simbolicamente violenta. Somente retratar a liberdade sexual das mulheres não era o suficiente para fazer oposição. Além do quê, nesses filmes são comuns os matrimônios com mulheres brancas e virgens, reforçando uma dualidade estereotipada de mulheres santas X putas. Dama da Lotação (1978) de Neville de Almeida, baseado na obra de Nelson Rodrigues, conta a história de uma esposa de camada abastada, infeliz, que descobre sua felicidade em manter relações sexuais com desconhecidos que encontra na lotação/ônibus. O desejo sexual e a vontade de não estar em seu espaço de esposa representam uma luta por uma liberdade sexual contra a sociedade burguesa católica. Contudo, é contida e explicada através da psicanálise e dos traumas individuais e não de uma resistência à sociedade machista. Quando o marido descobre a vida que sua esposa leva, morre em vida, passa a viver deitado como morto, mostrando o peso de não ter a esposa fiel, recatada e caseira que deveria ter. Ainda sim, esse filme permanece em uma narrativa heteronormativa e aproveita as cenas de sexo da personagem para exibir o corpo da atriz Sônia Braga.

Estas são questões muito comuns nas pornochanchadas: falar livremente sobre sexo, as personagens são quase que sem culpa (algumas trazem explicações psicanalíticas para seus comportamentos liberados, traumas da infância, neurose, etc.). Tudo dentro do contexto da época de “Revolução sexual” e emergências de teorias psicanalíticas que apoiavam essa revolução. Entretanto, acabam regulamentando a sexualidade, criando modelos e ainda reforçando preconceitos de gênero, raça, identidades e sexualidades. Quase que uma regulamentação da liberdade sexual num contexto de censura da ditadura militar.

Alguns filmes podem ser citados com elementos subversivos para uma pornochanchada: Ariella; Tessa, a Gata; Onda Nova, Vereda Tropical, A quinta dimensão do sexo, Sexo dos anormais e Ele, ela, quem? (alguns deles são da época em que já era liberada a pornografia no Brasil).

Ariella de John Herbet (1980), adaptação do livro “A paranóica” de Cassandra Rios, é a história de uma jovem que se vinga de sua família adotiva seduzindo pai, irmãos, cunhadas e amigos próximos. Ela descobre que seus pais e irmãos, na verdade, são seus tios e primos. Ela havia sido adotada depois que seus pais morreram, porque seus parentes tinham a intenção de ficar com sua herança. Cassandra Rios, escritora considerada pornógrafa e lésbica, foi uma das autores de mais sucesso na década de 1970, chegando a vender 300 mil exemplares por ano e a adaptação de uma de suas obras para o cinema teve o mesmo sucesso. No filme, Ariella tem relações sexuais com um amigo da família e também com a namorada do irmão, é uma jovem experimentando sua sexualidade. A personagem não assume identidades fixas como heterossexual, homossexual, apenas vai experimentando.

Tessa, a Gata (1982), que também é uma adaptação de uma obra de Cassandra Rios, dirigida por John Herbet, é a história de Tessa, que é casada com Gustavo, mas tem como amante Débora. Tessa e Débora rompem o relacionamento. Débora vai para a cidade grande trabalhar na empresa de Raul que é sócio de Gustavo e é casado com Roberta, irmã de Tessa. Raul gosta de relações sexuais sádicas, principalmente dominar física e psiquicamente sua esposa. Roberta, cansada da dominação do marido, tem um caso com Salvador (funcionário de Raul). Roberta se aproxima de Débora para eliminar Raul. Tessa, então, arma um plano diabólico. E assim a história se desenvolve com o triângulo entre Tessa, Débora e Roberta.

Dos diretores de José Antônio Garcia e Ícaro Martíns, a trilogia composta pelos filmes: O olho mágico do amor (1981), Estrela Nua (1985) e Onda Nova (1983), em que esse último se destaca por algumas questões. O filme Onda Nova traz a história de um time de futebol feminino chamado “Gaivota Futebol Clube”, possivelmente fazendo uma crítica à proibição do esporte para mulheres no Brasil dos anos de 1942 até 1975. Além disso, muitas das personagens do filme usam cabelos curtos, pois quando houve a liberação do futebol para as mulheres, havia restrição de que não podiam usar cabelos curtos. O filme aborda temáticas sobre diversidade sexual com cenas de sexo entre mulheres, entre homens e entre homens e mulheres; relações poligâmicas; masculinidades e feminilidades diversas; AIDS; aborto. Há várias referências no filme que brincam com estereótipos de gênero, como por exemplo, a mãe de uma das jogadoras do time é interpretada por um ator e o personagem de pai faz tricô por recomendações médicas; ou o início do filme que aparece um jogo de futebol em que homens se vestem com roupas femininas e algumas mulheres com roupas masculinas, entre outras cenas.

Vereda Tropical é um curta-metragem de Joaquim Pedro de Andrade que faz parte do filme Contos Eróticos (1977), apesar de ter sido censurado e retirado do filme na época. Esse curta narra a história de um professor que tem relações sexuais com melancias e outras frutas e verduras. Ele conta suas experiências para uma amiga que ao final também quer experimentar uma relação sexual com frutas e verduras. Em muitas cenas a sexualidade do personagem principal é ambígua, a melancia é tratada no feminino, mas na feira apalpa bananas, aipim fazendo alusão ao pênis. Além de uma cena que o personagem e a amiga conversam sobre a pesquisa de um deles com trabalhadores da construção civil deixa entender que o personagem tem desejo sexuais por homens. É um curta-metragem crítico, muito subversivo e que causaria espanto em alguns espectadores atualmente. Esse filme poderia ser considerado como um “passado” do pós-pornô, não somente por sua estética, mas também por seu caráter político por refletir as diversidade de desejo, experiências e relações sexuais.

A quinta dimensão do sexo de José Mojica Marins (mais conhecido como Zé do Caixão) de 1984 apresenta um relacionamento entre dois homens sem estereótipos gays comuns nas pornochanchadas. A história é sobre universitários que inventam um elixir em que as mulheres se sentem atraídas sexualmente por eles e que curou o problema de impotência que tinham. Mas elas vão morrendo depois de terem tomado o elixir. Quando ficam frustrados e infelizes, mesmo curados da impotência e tendo tantas mulheres (apesar de tamanha consequência), percebem estarem atraídos um pelo outro. Há cenas de sexo explícito somente entre homens e mulheres, dois homens e uma mulher. Apesar de não ter cenas de sexo explícito entre os dois personagens homens, apenas beijos, há uma cena de sexo entre eles que é filmada em close de partes se tocando, ou objetos que dão a entender a cena de sexo. Segundo Mojica, seu planejamento era ter cenas de sexo explícito entre os dois homens, porém, foi censurado pelos produtores do filme. Portanto, o diretor opta por um desfecho do filme com os personagens morrendo.

Sexo dos anormais do diretor Alfredo Sternheim (1984) conta a história de personagens com sexualidades, sexo, gêneros considerados diferentes dos “normais”: ninfomaníaca, transexual, sexo grupal etc. A personagem principal é interpretada por Claudia Wonder, importante trans e intersexual artista e ativista brasileira. Essa personagem conta sua trajetória de vida de como passou de Zezinho à Jéssica. As personagens fazem um tratamento em uma clínica com um médico que ao final do filme recomenda a elas que não se preocupem com rótulos, que não há normalidade e anormalidade e o importante é que cada uma seja autêntica. O filme é de sexo explícito, com cenas entre mulheres e homens, homens e homens, trans e homens e sexo grupal (homens, mulheres, trans).

Ele, ela, quem? (gravado em 1977, mas por conta de censura é lançado apenas em 1980) do diretor Luiz de Barros é a narrativa da história de Elvira, uma adolescente de 19 anos que vai morar em um pensionato, já que o pai viúvo foi trabalhar na construção da Transamazônica. A jovem é vista como esquisita porque gosta de ler, praticar esportes violentos e usa uma camisola longa que cobre seu corpo todo. No pensionato, Elvira se relaciona com sua colega de quarto, Carmem. Essa se preocupa muito por ter um envolvimento afetivo com uma mulher, assim, procura ajuda médica, (o profissional fala que os seres humanos são assim e que é preciso esperar como o relacionamento vai ser para ter um diagnóstico). Elvira também procura ajuda de profissionais da saúde e descobre que é intersexual, tendo recomendações para uso de hormônios, já que tem uma predominância masculina. Ao final, Carmem e Elvira se casam e têm filhes.

Longe de ser uma lista completa ou dos filmes serem um exemplo de subversão (já que muitos contêm elementos de violência, preconceito etc.), é possível pensar sobre os discursos lésbicos, gays, transexuais e feministas nas pornochanchadas brasileiras, já que esse gênero do cinema tomou conta de boa parte das produções nacionais por um período de três décadas. Mesmo em linguagens hegemônicas, há movimentos que trouxeram fluxos diferentes. São como vírus no sistema.

Maria Eduarda Ramos é feminista, estuda pornografia, pós-pornô, arte/política feminista e ativismos para gozar.

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