“Ó, O Globo!”: memória afetiva de uma cidade

Foto: Carol Vidal

O Biscoito Globo é algo tão presente na minha memória, que é como se ele sempre tivesse existido. Lembro das idas à praia quando criança, e lá estava ele, chegando aos consumidores pelas mãos dos ambulantes. Depois de mais velha, veio o mate com limão, par perfeito desse que é um dos símbolos mais marcantes do Rio de Janeiro.

Quem mora na cidade ou a conhece, certamente já viu esse saquinho branco com desenho de fundo verde ou vermelho. O Biscoito Globo é símbolo do modo de vida carioca e tem como pontos de venda principais os lugares mais a cara da cidade: as praias, o Maracanã e as ruas engarrafadas.

Mas vocês sabiam que o Biscoito Globo nasceu em São Paulo e veio para o Rio pelas mãos de um jovem empreendedor que enxergou na cidade uma oportunidade de negócios? Mas, calma, cariocas: a gênese do biscoito pode ter sido São Paulo, mas ele só ganhou esse nome e se tornou o que é até hoje quando desembarcou no Rio de Janeiro. Essas e outras curiosidades são contadas por Ana Beatriz Manier no livro “Ó, O Globo! — A história de um biscoito”, lançado pela Editora Valentina.

“Escrever sobre um biscoito que se tornou ícone de uma cidade não é escrever apenas sobre um produto, mas, principalmente, sobre as pessoas que o tornaram possível: sobre a família que o idealizou, os vendedores que lhe abriram mercado, os rapazes que lhe deram vida, o povo que acolheu e os ambulantes que há mais de 50 anos o distribuem.”

E é mesclando fatos históricos e a vida da família de imigrantes espanhóis que desembarcou em São Paulo no início do século XX que a autora vai construindo essa biografia inusitada. A obra é, sobretudo, sobre as pessoas, que são o que sustenta um negócio, especialmente uma empresa familiar como essa.

A leitura é fluida e o estilo de narrativa é quase romancesco. Da forma que Manier nos apresenta a história, sentimo-nos parte da família Ponce, ao sabermos como desembarcaram no Brasil e acompanharmos a evolução do jovem Milton, de ajudante na padaria do primo a dono do próprio negócio junto com o português Francisco Torrão, seu sócio durante todos esses anos. O livro também é ricamente ilustrado, trazendo registros não só das famílias, mas também de documentos históricos, como o anúncio que atraiu imigrantes espanhóis para o Brasil e a propaganda do 36º Congresso Eucarístico Internacional, no Rio de Janeiro, o evento que fez com que os antigos biscoitos Felippe chegassem à Cidade Maravilhosa e se transformassem no Biscoito Globo como conhecemos. Outra parte interessante da biografia é o depoimento de diversas personalidades contando sua relação com o biscoito.

Como carioca que não mora mais na cidade, ter a oportunidade de ler esse livro serviu como uma sessão de nostalgia. O Biscoito Globo é tão parte de quem eu sou que nem percebi há quanto tempo não como um. Ao virar a última página, veio a súbita vontade de correr para a primeira praia e pedir meu biscoito salgado com mate. Biscoito Globo, me aguarde: na próxima visita ao Rio, nós vamos nos reencontrar.