Última Festa

Leia ao som de A Vítima — Racionais MC’s.

Andrew Gook | Unsplash

Não fui convidado para a minha última festa.

Me sentia grogue, sem saber onde estava. Parecia um salão amplo, mas a iluminação fraca não me ajudava a enxergar.

Círculos esbranquiçados pontilhavam o ambiente.

Como fui parar ali? Seria um sonho? Lembro-me de nunca lembrar como cheguei nos curiosos lugares a que ia em meus sonhos. Esperava não morrer no final do sonho, sempre fora uma sensação horrível. Quando criança, caí de uma ponte. Acordei encharcado de suor, gritando por minha mãe.

Estaria ela ali? Não conseguia enxergar mais do que formas. Todas de preto. Tudo era preto.

E branco.

As formas rodeavam algo. Não escutava bem. Na verdade, não sei o que escutava. O som do universo. Ou de uma concha de mar no ouvido. Definitivamente um sonho estranho. Seria uma seita? Sempre brinquei de ser o agente 007 na infância.

De repente, as formas rumaram para outro ambiente. Decidi acompanhar.

O dia era cinza. Ao menos não chovia. Eu seria capaz de sentir a chuva, mesmo em um sonho, não seria? Se eu sentisse, será que estaria com vontade de ir ao banheiro?

Vi que à frente das formas, ia um grande objeto. Por algum motivo o ambiente estava denso. A visão começava a clarear um pouco. Bom, definitivamente as formas eram pessoas. Será que conhecia alguém?

A moça à frente não era estranha. Me esforcei para lembrar. Clarinha, estudei com ela. Já faz tanto tempo, por que ela apareceria em meu sonho? Talvez esse não fosse um simples sonho. Fosse uma memória. Continuei andando.

Tentei olhar para baixo e não consegui. Bom, eu não teria muita escolha do que olharia em uma memória.

Comecei a encontrar pessoas mais próximas. Colegas de trabalho, de faculdade, amizades. Minha esposa, minha família. Eles choravam.

Eles choravam. Por quê?

Olhei de volta para Clarinha. Eu não a via há algum tempo. Por que não a reconheci de imediato?

Ela não era a mesma. Estava… mais velha.

Foi então que distingui o ambiente. Um cemitério. Não era um sonho, era a minha última festa, e não fui convidado. Nem poderia ser.


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