13 ANOS

Quando eu tinha treze anos, era uma menina que vivia na parte considerada rica do Rio de Janeiro, que por si só já é um grande privilégio. Estudei em escola particular a vida inteira, meus pais sempre incentivando a fazer línguas, esportes, danças e, principalmente, a sonhar.

Nessa idade, meu sonho era ser advogada especializada em direitos humanos e trabalhar em alguma organização mundial para poder defender todas as minorias no mundo. No dia 31 de março de 2017, essa menina foi morta. Essa garota branca, de classe média, cheia de sonhos, foi morta.

Senti o sangue deixando meu corpo a medida em que lia a matéria sobre a EXECUÇÃO de uma criança de treze anos chamada Maria Eduarda da Alves da Conceição. Maria foi assassinada em sua escola, onde era atleta, onde tinha sonhos. Nesse dia, ela virou estatística antes mesmo de se entender no mundo. Antes de saber o que ser uma mulher negra e favelada significa no Brasil, ela virou mais um número da polícia que mais mata no mundo.

A cidade, chamada de “maravilhosa”, registrou 182 mortes causadas por intervenção policial só em janeiro e fevereiro, 78,4% a mais que o registrado nos dois primeiros meses de 2016. Essa intervenção policial que mata não qualquer um, mas preto, pobre e favelado. Essa "segurança pública", que só protege quem mora nas áreas ricas da cidade, em sua maioria pessoas brancas de classe média e ricas, faz parte do genocídio da população negra desse país.

Maria tinha conseguido bolsa numa escola particular, tinha chances de alcançar um grande futuro, foi ensinada a sonhar, mas a mataram. Isso não passará em branco! Para os pobres, há revolta; para os favelados, indignação; para os negros, tristeza por mais um deles no quadro de estatísticas. Para mim, que chorei fazendo esse texto e lendo aquela notícia, por ter usufruído de privilégios socialmente construídos, houve o questionamento e a raiva.

Ela não teve culpa do tráfico negreiro, do estupro de índias e escravas, da Lei Áurea que só é aplaudida por tolos já que esta não trouxe nenhum tipo de inserção social para aqueles que viviam em condições de trabalho bruto, trabalho escravo. Do Império, que deu "liberdade" mas não não deu condições de aprender a ler e ascender socialmente e mantém até hoje os negros nas camadas mais pobres em todo o país, sem oportunidades e sem chances de sonhar.

No último dia de março deste ano não mataram apenas Maria, tiraram um pedaço de todos nós. Contudo, esse acontecimento terá repercussão e transformará a revolta, a indignação, a tristeza, a reflexão e o questionamento de privilégios em LUTA. Porque, caros leitores, ou nós mudamos isso ou nos conformamos, e a segunda não é uma opção.


Idoso de 71 anos é morto por bala perdida: “Tava demorando morrer um inocente. Quase todo dia tem tiros. Tô cansado de passar e ficar na mira de pistola e fuzil. É pedir a Deus que dê tempo de chegar em casa sem sair um tiro. Só Deus no Mandela mesmo”.

NÃO a intervenção policial nas comunidades.


Gostou do texto? Clique no ❤ para ajudar na divulgação

Deixe seu comentário, ele é importante para nós. Caso deseje algo mais privado, nos mande um e-mail para rsubjetiva@gmail.com

Não deixe de nos seguir e curtir nas redes sociais:

Não perca nenhum texto, assine a nossa Newsletter: