[+18] Nina: Amores nos tempos de condomínio

Não era de hoje que o síndico estava incomodado com a movimentação na casa de Nina. Uma amiga morou naquele prédio alguns anos antes dela e já a havia alertado sobre as implicâncias do síndico com as festas que fazia com o pessoal da faculdade. Nina não considerou muito porque era sempre muito caseira e não gostava de festas barulhentas. “O síndico já nem era mais o mesmo; não será um problema”, pensou.

Nos dois anos em que já morava lá, conhecia apenas uma vizinha que tinha um cachorrinho com quem sempre trocava ideias gerais sobre qual a melhor ração ou o período ideal para fazer a tosa do pelo. De resto, conversava somente com o zelador, pessoa de coração leve com quem falava sobre música. Rogério queria ser DJ em algum bar cult da cidade. Sempre trocavam algumas ideias sobre os clássicos da MPB. Naquela semana a grande novidade era a música nova de Chico Buarque. “Essa música já nasceu um clássico, Nina”.

Foi ele que numa noite de terça-feira, visivelmente sem graça, chegou perto do carro de Nina na garagem, mal ela havia estacionado. Falou:

- Nina… (pigarro de nervoso)

- Oi, Rogério, como vai? Chegou encomenda pra mim?

- Não, não chegou nada… É que preciso perguntar se você vai à reunião de condomínio no sábado.

- Parece que não me conhece, Rogério. Desde quando eu vou a reuniões de condomínio? São Paulo é uma cidade engraçada mesmo. Tem gente que adora som das buzinas da Avenida Paulista mas reclama das risadas das crianças no parquinho do prédio.

- Acho melhor você ir, Nina.

- Por quê? O que houve? Não tem nada de mais na pauta que mandaram por e-mail.

- Parece que querem limitar a quantidade de pessoas que cada morador traz e, pelo que ouvi… não me leve a mal… não estou aqui para fazer julgamentos a seu respeito, mas…

- Rogério, fala logo que já está me preocupando. Controlar a quantidade de pessoas? Isso é legal? Qual o propósito?

Constrangido, ele conclui com a voz em decrescente de volume a ponto de a última palavra só ser compreendida acompanhada de leitura labial.

- Ouvi o síndico falar que você traz muitos homens.

Como uma boa administradora, ela prezava pela precisão e aquela afirmação estava correta. Ela recebia muitos homens, é verdade. Podia ser um pouco mais precisa até: ela recebia muitos homens isoladamente ou muitas vezes os mesmos homens. Assim, estaria perfeito! Bruno e Guto eram seus preferidos… e um garoto de quem não lembrava o nome naquele momento mas que transava muito bem. Aliás, ela precisava encontrar um jeito de lembrar o nome dele. Alguém que sabe dosar a língua num clitóris merece ser lembrado pelo nome.

Nina fica alguns minutos ainda no carro tentando entender a situação. Ficou aliviada em algum momento. Que bom que tinha aprendido em terapia que as reclamações dos outros têm mais a ver com eles mesmos do que com quem é reclamado… Mas agora faziam sentido alguns comentários em tom de indiretas que ouviu algumas vezes no elevador e corredores.

Quase não dormiu naquela noite. Precisou se masturbar por mais tempo de que o normal para poder finalmente relaxar e cair no sono. Fez bem; parece que pensou ainda mais durante a madrugada. Acordou ainda incomodada, mas não sabia de certo o motivo: se pela restrição gritantemente ilegal que estava sendo proposta; se pela hipocrisia do síndico que a comia com os olhos todas as vezes que a encontrava no corredor; ou… talvez… pela decisão, adiada há mais de ano, que precisava ser tomada agora.

Parece que era isso. Não podia negar que ficou decepcionada com São Paulo. De onde ela vinha, São Paulo parecia uma cidade libertária, aberta ao novo. Os anfitriões da maior parada gay do mundo pareciam também campeões em preconceitos nos pequenos atos do cotidiano. Bernardo! Lembrou do nome do cara da língua leve… Se desligou da tristeza.

Há uns dois anos, terminou o namoro de oito com um cara bem legal, que ao fim tinha virado mais amigo que namorado. Desde então, Nina tinha se dedicado ao trabalho e às leituras do doutorado. Só gostava de sair para um pub no meio da cidade. Lugar apertadinho, decoração underground, onde se tocava jazz e blues a noite inteira. Frequentadora assídua, tinha um carinho especial por uma banda de uma drag que tocava toda quinta. Todos afinados, sempre em sintonia.

Brincavam e se olhavam nos solos, em cumplicidade. Nina adorava. Terminavam sempre com uma mesma música: Dream a Little Dream of Me. Era certeiro que alguém encostava na mesa de Nina, com um comentário sempre derivado da música. Clichê, mas ela aproveitava. Era aí que Nina arregimentava sua próxima companhia para casa. Então uma coisa era certa: o síndico devia ficar acordado até tarde nas quintas.

Todos estes, no entanto, eram passageiros. Poder conhecer gente nova toda semana era sempre instigante para Nina. Estava cansada de compromisso, de dever explicações, de precisar avisar se vai voltar tarde do trabalho, de ter que negociar para onde viajar no fim de semana. Estava bem decidia a ser solteira, ao menos nestes próximos anos.

Mas, como é de costume nas boas histórias, sempre acontece algo para tirar a heroína do caminho inicialmente traçado. Foi numa das noites de jazz, no pub. Nina chegou mais cedo que de costume porque a aula do professor chato foi cancelada. Evitou enquanto pode a disciplina, mas aquela era obrigatória e o professor era o titular da cadeira. Passou dois semestres pensando que talvez ele cansasse, mas parecia ainda mais animado a cada ano. No início deste ano, resolveu que não podia mais adiar. Pensou que talvez este seja o ano em que as deusas queiram ensinar a ela que não se pode adiar resoluções importantes por muito tempo. Naquele dia, porém, os céus deram uma trégua e adoeceram o professor.

Por sorte, Nina sempre leva na bolsa algum livro de Anïs Nin para ler quando precisa esperar. Ir em casa e voltar ao centro podia dar espaço para a preguiça agir. Foi direto para o pub. Os garçons ainda chegavam para seu turno, a meia luz ainda estava completa e os lugares, vazios. Sentou na mesa de sempre. Pediu o dry martini de sempre. Mas desta vez aprumou os óculos no rosto e pegou o livro. Tentava retomar na memória o último episódio importante de Henry & June, quando percebeu aquele homem de olhos negros e cachos como uma coroa sentado também sozinho numa mesa próxima.

Bruno havia chegado antes ainda que Nina e estava com a concentração dividida entre o relógio e o celular. Nina pensou que aquela angústia tinha cara de amores perdidos e riu sozinha. Ops. Riu mais alto do que esperava. Talvez não mais alto do que de costume, mas sem som ambiente naquele pequeno salão em que tudo ecoava com mais firmeza.

Corou um pouco quando alguns garçons olharam… e Bruno. Não teve saída e fingiu que era algo naquele livro que desajeitadamente tentou equilibrar em posição de leitura. Bruno riu de volta, fazendo um sinal que ela não entendia. Movimentava as mãos como que girando um volante. Ela concentrou, mas nada. Sua cabeça arqueou para frente e inclinou como quem tenta entender um som distante. Ele então gritou de lá: “Está de cabeça para baixo… o livro”. Nina abriu a boca tentando inventar uma desculpa, que, claro, naquele momento só pioraria a cena. A voz falhou.

Ela até hoje não sabe se foi sorte ou não, porque naquele momento mais pessoas começaram a chegar e, na movimentação seguinte, um grupo logo sentou à mesa de Bruno. Ficaram ali se entreolhando a noite inteira. Ela por três vezes pensou ter encontrado a desculpa certa para explicar a risada e a posição do livro.

Bruno passou a noite observando Nina cantar as músicas degustando dry martini. Ela não podia evitar, estava menos solta. Entre uma música e outra, Bruno levantou. Ela estremeceu quando ele foi em sua direção. Os olhos se cruzaram. Ele sorriu ao deixar um guardanapo sobre a mesa de Nina. Ela pegou, surpresa, desdobrou e leu: “Fiquei curioso com o que poderia deixar uma mulher linda tão atrapalhada a ponto de ler um livro de cabeça para baixo”, seguido por um número de celular.

Naquela mesma noite começaram as mensagens. Em duas semanas trocaram nudes e em dois meses Bruno já tinha dito o primeiro ‘eu te amo’. Era preciso ficar ela atenta à escova de dente no box do chuveiro, à cueca embaixo do sofá e ao relógio, óculos ou qualquer outra coisa que Bruno deixava para ter uma desculpa e voltar a ver Nina. Talvez uma forma de demarcar território também… Mas não precisava tanto. Nina adorava o jeito engraçado dele de homem certinho que tenta ser descolado. No início era meio caricato, mas depois ele foi se soltando. Especialmente no sexo. Até arriscaram dogging, numa noite. Voltaram excitadíssimos para casa.

E aos poucos, naquele último ano, Nina se pegou várias vezes pensando em acordar com ele ao lado. Andar de bicicleta no parque. Ir ao cinema e andar de mãos dadas nas exposições de arte. Só se desfazia desse devaneio quando pensava em ter que terminar com Guto.

Guto era outro crush fixo que conheceu quase na mesma época em que encontrou Bruno. Foi uma daquelas curtidas do Tinder. Ou Happn. Ou Feeld. Como ele sempre chegava pegando ela pela cintura e saia logo depois que transavam, Nina nunca se lembrava de confirmar com ele.

Magro, com pernas firmes e mãos fortes. Cabelo ondulado que às vezes deixava crescer. Só tirou a barba naqueles meses em que foi moda. Gostava de transar em pé, para o que nem sempre ela tinha disposição física. E adorava assistir a filmes pornôs; por isso, era inevitável, o local em que mais transaram era o sofá. Por duas vezes, Nina tem quase certeza de que Guto viu as cuecas ‘esquecidas’ por Bruno perto do tapete da sala. Isso ou ele acreditou no inesperado movimento de contorcionista que Nina precisou fazer para esconder.

Guto, sim, era um aventureiro nato. Ciclista, vegetariano e defensor de causas humanitárias. Nina já o havia acompanhado em algumas ações voluntárias para conseguir dinheiro para algum projeto social. Isso a encantava. O ruim é que ele passava dias viajando de mochila e demorou para Nina entender que ele não era muito de ficar atento a carinhos. Ele já tinha dado indiretas sobre a quantidade de mensagens que ela mandava. Por isso, Nina ficou sem palavras quando, duas semanas atrás, ele disse que queria casar com ela. E foi desse jeito. Não disse que queria namorar ou morar com ela. Queria casar. Ela respirou fundo na hora, aproveitou que o celular dele tocou, se arrumou e saiu da casa dele. Passou a evitar encontra-lo a sós desde então.

Agora vejam a situação de Nina. Dois homens lindos e instigantes, cada um com bons motivos pessoais e sexuais para se estar juntos. Duas boas histórias de amor. Duas gostosas histórias de sexo. Justamente quando que Nina não queria relacionamento sério. Aliás, ela foi bastante habilidosa na agenda com estes e outros homens nos últimos anos. Era preciso organização, é verdade; mas quem melhor do que uma quase doutora em administração para fazer isso?

Com eles, já fazia alguns meses que sentia algo diferente. Resistiu por um tempo em dizer com estas palavras, mas era amor. Só não sabia qual amava mais. Lembrava sempre do jeito elegante de Bruno ao escolher um bom vinho no restaurante e de seus carinhos depois de fazerem amor. E na mesma medida lembrava das piadas bobas de Guto que a faziam gargalhar alto e o jeito com que ele puxava seu cabelo quando transavam na sala.

Sabia que precisava tomar uma decisão em breve, mas resolveu que tinha o direito de pensar por alguns dias mais. Passou a semana sem responder a nenhum deles. Ia do trabalho direto para a universidade, voltava, lia e dormia. Semana pesada. Que bom que já estava acabando. Droga, lembrou da reunião de condomínio na manhã seguinte. Assim que chegasse em casa, organizaria os argumentos para se defender se fosse o caso.

Foi surpreendida mais uma vez por Rogério assim que tentou estacionar na vaga de garagem. “Isso como hábito é de se assustar”, pensou.

- Oi, Rogério. O que o síndico aprontou desta vez?

- Nada, Nina. Com o síndico nada. Não sei de novidades para amanhã.

- E então porque está com essa cara?

- Tem aquele rapaz de black power e aquele outro de barbicha.

- Que tem eles?

- Eles estão te esperando lá no hall de entrada. Um há mais de meia hora e o outro chegou há uns 10 minutos. Quando os vi conversando, tentei despistar ao menos um, mas aí eles viram teu carro e acho que não será fácil dizer que não era você.

Num primeiro impulso, Nina pensou em fugir e dormir na casa de uma amiga, mas eles já tinham falado. Talvez desse mais motivo para conversa entre os dois. Viu que não tinha mais jeito. Nada de passar mais uns dias pensando; precisava decidir hoje. Acompanhou Rogério até a entrada. Bruno e Guto abriram sorrisos quase sincronizados quando a viram. Ela aproximou. Guto, como sempre, foi rápido ao segurá-la pela cintura e dar um beijo cinematográfico. Bruno ficou surpreso, mas não se intimidou. Segurou Nina no pescoço, induziu a inclinação de sua cabeça e a beijou. Fora Nina que estava convencida de que uma competição pode ser salutar nas relações porque estes tinham sido os melhores beijos de ambos, todos estavam tensos, inclusive Rogério, que já traçava uma trilha sonora para um triângulo amoroso.

Aqueles dois homens entraram afobados pela porta da casa dela. Nina não conseguiu ouvir nada entre as rápidas palavras de um e outro e seus próprios pensamentos. Passaram algo como dez minutos falando alto. Até que Nina levantou as mãos pedindo silêncio para os dois. Sentou no sofá. Convidou os dois a sentarem um de cada lado e resumiu: “Desculpem, não posso escolher. Eu amo os dois”. E a solução veio rápido como se sempre estivesse ali. “Quero casar com os dois!”.

Houve silêncio em um raio de aproximadamente três quarteirões. Anos depois, Guto dizia ter certeza de que ficaram assim quase meia hora, mas Nina jurava que foram dois segundos até ela completar. “O mais constrangedor é que eu estou excitada com tudo isso. Desde lá debaixo… com aqueles beijos, eu fiquei molhada de uma forma que não tinha acontecido antes na minha vida”. Olhou para Guto, colocou a mão no rosto dele e o beijou. Virou para Bruno, colocou a outra mão no rosto dele e o beijou.

Guto levantou e caminhou em direção à porta. Nina virou-se entendendo que talvez ele tivesse decidido no lugar dela. Bruno não se mexeu. Guto conferiu se a porta estava trancada e voltou a sentar no sofá. Guto sorriu para Bruno. Bruno retribuiu o sorriso confidente. Nina, ainda no sofá, tirou a camiseta… e o sutiã… Passaram juntos aquela noite. No dia seguinte, chegaram os três de mãos dadas à reunião de condomínio. Anos depois, Bruno dizia ter quase certeza de que ouviu a música que Rogério colocou para tocar na portaria: Paula e Bebeto, de Milton Nascimento.

Os sonhadores (2003), de Bernardo Bertolucci.

Texto também disponível no site Mulheres Transeiras.


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