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Latuff, 2013

Era mais uma segunda-feira tipicamente ensolarada, apesar dos problemas ao redor da casa de Roberto, nada poderia interromper o momento sagrado que começava as 04h20min da tarde. Pega o dichavador, a seda, o fogo, o verde. Tudo normal, tranquilo até demais no nosso famigerado QG. Dividíamos nosso nada bem bolado baseado de mão em mão, boca e boca, dedo em dedo, alma em alma. Um barulho estrondoso nos assusta, a paz de Jah não era mais uma realidade local, os pais de Roberto resolveram chegar mais cedo. “Algo de errado não pode estar certo”, disse um de nós que não pude identificar, os sentidos não funcionavam mais, foco era algo que não podia mais pensar em ter. A mãe de Roberto, Dona Efigênia nos olha, funga como um Pastor Alemão da DEA Norte Americana atrás do Pablo Escobar, faz uma cara a qual nunca vou esquecer. O pai de Roberto, Seu Carlos, chega no recinto, como o próprio diz, pergunta o motivo de fazermos aquilo sabendo que Dona Efigênia tem medo de maconheiros. Sim, MEDO DE MACONHEIRO. “Algo de errado não pode estar certo”. Gargalhadas, risos, corpos no chão. O tempo parou e imagens nos vieram a cabeça quase que em sincronia, de que modo um maconheiro poderia causar tanto pânico em mais uma dondoca da Zona Sul?

Opção A: comendo seu feijão gelado em pote de sorvete.

Opção B: pedindo para dormir na casa do cachorro.

Opção C: tentar focar durante horas num ponto qualquer da dimensão interplanetária.

Na realidade, o maior medo mesmo era ver seu mundo de hipocrisias se quebrar, desmanchar no ar, juntamente como todo moralismo enraizado dessa sociedade de fracassos. “A maconha é a porta de entrada para as outras drogas”, eles dizem, mas estamos cercados delas desde a pitada de açúcar no leite materno inserido na mamadeira do bebê, aquele Dorflex após a dor de cabeça, o próprio prato de comida em cima da mesa. Afinal, o que é droga e o que é apenas uma sobremesa?


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