A censura de Crivella: o tiro saiu pela culatra?

O dia após a tentativa de censura do prefeito Marcelo Crivella na Bienal Livro Rio 2019

Revista Subjetiva
Sep 8 · 9 min read

Na última quinta-feira, 5, o Prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, pediu para recolher a revista em quadrinhos da Marvel “Vingadores: A Cruzada das Crianças” porquê nela continha um beijo entre dois personagens do sexo masculino. A organização da Bienal do Livro reagiu negativamente a investida de Marcelo Crivella, dizendo que a proposta do evento era dar “voz a todos os públicos”. Um dia depois, na sexta-feira, 6, o Prefeito da cidade do Rio de Janeiro enviou agentes da Ordem Pública do município para recolher qualquer conteúdo que se configurasse como pornográfico e ferisse os direitos da criança e do adolescente estabelecidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Livro dos Vingadores mostra beijo entre homens (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

Os agentes da Prefeitura que foram enviados ao evento não encontraram nada irregular, um dos fiscais, inclusive, disse que encontrou apenas “livros” no evento. Na própria sexta-feira, 6, a Bienal do Livro recorreu à Justiça para pedir o pleno funcionamento do evento no seu último final de semana de funcionamento, conseguindo uma liminar que impedia o recolhimento dos livros. Entretanto, no sábado, 7, o presidente do Tribunal de Justiça derrubou a liminar, autorizando os agentes da Ordem Pública a voltarem mais uma vez a Bienal do Livro para buscaram qualquer irregularidade.

Mais uma vez, e não surpreendentemente, eles não encontraram nada irregular. Apenas, como disse o agente na primeira vez, livros.

A censura de Marcelo Crivella na imprensa internacional

O mais renomado e qualificado jornal do mundo, o New York Times, disse em um artigo publicado no sábado, 7, que o “tiro” de Marcelo Crivella saiu pela culatra. O jornal reafirmou o papel do Prefeito enquanto Bispo que é, dizendo que o mesmo passa por cima de uma legislação que garante que a “família” não diz respeito apenas a um relacionamento entre homem, mulher e filhos, mas sim onde existem laços de afeto. Afinal, em um país onde 5.5 milhões de crianças são registradas sem pai na sua certidão de nascimento, impor esse modelo mostra um total desconhecimento do país em que vive por parte do Prefeito.

O artigo do New York Times expõe o ato do empresário e criador de conteúdo, Felipe Neto, que decidiu como resposta à Marcelo Crivella, comprar cerca de 14 mil livros que estavam sendo vendidos durante o evento para serem distribuídos de forma gratuita durante o último sábado, 7.

A distribuição dos livros

Foto: Revista Subjetiva

A partir das 12 horas do dia 7 de setembro, cerca de 14 mil livros de temática LGBT começaram a ser distribuídos de forma gratuita a todo o público da Bienal do Livro que quisesse. O livro foi embalado em um saco preto e havia uma notificação dizendo “Este livro é impróprio para pessoas atrasadas, retrógradas e preconceituosas”. A embalagem e a notificação foram uma direta resposta à Marcelo Crivella, que em suas declarações disse que os livros com tal conteúdo deveriam estar embalados e com uma notificação para menores de idade.

Foto: Revista Subjetiva

Às 18 horas do mesmo dia, a organização do evento soube que os agentes de Marcelo Crivella voltariam ao evento para recolher e fiscalizar livros, isto fez com que a organização e os participantes da feira se mobilizassem o mais rápido possível para que conseguissem distribuir todos os exemplares antes que eles pudessem ser recolhidos pela Prefeitura.

Foto: Revista Subjetiva

A resposta da Bienal do Livro

Durante todo o sábado, 7, cerca de três mesas de debate ocorreram e abordaram a polêmica dos dias anteriores. Das três, estivemos em duas delas.

A primeira possui o título de “Sobre autoritarismos e democracias” e teve a presença de Steven Levistsky, autor de “Como morrem as democracias” e Lilia Schwarcz, famosa historiadora brasileira. O debate ocorreu sob a mediação do jornalista da Globo News, Marcelo Lins.

Steven Levistsky, Marcelo Lins e Lilia Schwarcz Foto: Revista Subjetiva

A historiadora da USP começa sua fala voltando à independência do Brasil, onde se optou por um regime monárquico e muito elitista. O pacto que ocorreu entre as elites portuguesas e brasileiras não foi em prol da liberdade da população, mas em prol de um não desmembramento do país, de não acabar com a escravidão. O grande problema do brasil, diz Lilia, “é que no Brasil todo mundo é de casa e ninguém é de república”.

O professor de Harvard, Steven Levistsky, afirma que não é mais necessário ter o comando de um exercito para poder produzir regimes democráticos, pelo contrário, é justamente através do regime democrático que o autoritarismo de hoje se faz. Os fascistas do nosso tempo são eleitos democraticamente, utilizam as leis para impor as suas ideias e, além disso, utilizam o terror para manter a polarização que atinge tanto os Estados Unidos quanto o Brasil e o resto do mundo para se manterem em uma eterna campanha, atacando seus adversários e adotando um discurso panfletário.

A professora da USP se encontra com o discurso de Steven que o Brasil precisa resolver a sua questão com o passado para olhar o futuro. O racismo é um dos nós que impedem nossa democracia avançar, pois enquanto não admitirmos o papel das elites no regime escravocrata e nos efeitos da não inserção do negro na sociedade de classes, continuaremos a dar um passo e a voltar dois logo após. Schwarcz finaliza dizendo que “nenhuma democracia é perfeita, democracia e cidadania se conquista todos os dias”. O segundo nó que impede o avançar da democracia do Brasil é a desigualdade e a educação foi, durante os últimos 30 anos, o principal motor para resolver o problema da desigualdade econômica no país, entretanto, o que se pode perceber, segundo a autora, é um total desmantelamento da educação e da pesquisa no Brasil.

O autor de “Como as democracias morrem” retoma dizendo que os países que se encontram em regimes autoritários democraticamente eleitos geralmente demoram muito tempo para perceber que estão nesse tipo de regime. Dando o exemplo do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff como uma forma de utilizar as leis para fazer com que a legislação haja ao seu favor. Lilian, logo após, relembra o vergonhoso dia da votação do impeachment em Brasília, onde Deputados e Deputadas votaram a favor do processo pelas suas famílias, suas cidades, sua religião e não por nenhum tipo de embasamento político, científico ou social, apenas juízos de valor. A professora da USP finaliza dizendo que devemos atuar a partir da vigilância democrática e que pornografia, em resposta à Crivella, é o descaso com a saúde e a educação como se vê não apenas no Rio de Janeiro, mas em todo o Brasil.

A segunda mesa do dia “Diversidade, substantivo plural” teve a mediação de Paula Cesarino e a participação dos escritores João Silvério Trevisan, Tobias Carvalho e a psicóloga e escritora Jaqueline Gomes.

Ao serem perguntados sobre o obscurantismo e a antidemocracia presente nos atos do Prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Jaqueline começa respondendo que a tentativa de apagamento da história já ocorre há muitos séculos com os povos que são marginalizados pelo Estado, como é o caso dos negros e dos LGBT. Segundo a psicóloga, “nossos ancestrais já enfrentaram muitos apocalipses nesse sentido”; não há no país uma política que valorize, por exemplo, as travestis como seres humanos. O que se enfrenta, segundo a ex-candidata do PT, não é novidade para quem já é visto à margem da sociedade.

Jaqueline Gomes (Foto: Revista Subjetiva)

O autor que possui 3 prêmios Jabuti, João Silvério Trevisan, crítica em sua fala o comparativo com a ditadura, pois durante o regime não haviam as conquistas democráticas que temos hoje. Assim, quando as pessoas entram em pânico elas estão entrando no jogo do Bolsonaro. O autor continua dizendo que “se nós perdemos a confiança na nossa história, qualquer ‘zé mané’ vai poder se intrometer, inclusive, na nossa agenda emocional”. Para Trevisan, Bolsonaro é:

“um cara movido a pulsão de morte, é um cara que cultiva a morte e a autodestruição”.

O premiado autor brasileira reitera que o amor deve ser o motor das lutas históricas dos LGBT pelo país, mas não apenas destes, mas de todos aqueles que possuem apreço pela democracia, não se deixando levar pela “epidemia do medo” propagada pelo governo e seus apoiadores.

João Silvério Trevisan (Foto: Revista Subjetiva)

Ao ser perguntado sobre o papel da literatura no fortalecimento da realidade, João retoma dizendo que toda criação poética é uma forma de resistência, citando como exemplo o regime nazista e o stalinista, onde ambos foram marcados pela caça à artistas, cada qual no seu modo particular. Os artistas, assim, são perigosos, pois eles possuem a capacidade de virar a mesa. Segundo o autor, a literatura provoca um desequilíbrio e busca um novo equilíbrio. A literatura, portanto, seguindo o raciocínio e a fala de Trevisan, é produto do desequilíbrio.

Nós não temos o direito de ter medo porque estamos diante de uma pessoa desequilibrada.

João Paulo Trevisan

Mediação de Paula Cesarino e a participação de Tobias Carvalho, Jaqueline Gomes e João Silvério Trevisan (Foto: Revista Subjetiva)

Ao mesmo tempo em que ocorria uma mesa sobre resistência LGBT na Arena Sem Filtro, os agentes voltaram a Bienal por volta das 18 horas, onde ficaram reunidos negociando com a organização do evento durante cerca de 2 horas e meia e, após decidirem ficar a paisana no evento para evitar tumulto, seguiram para os pavilhões realizar a fiscalização em busca dos livros julgados como impróprios pelo prefeito Marcelo Crivella.

Aqueles que estavam presentes na Arena Sem Filtro, com livros em mãos caminharam até a entrada da Bienal do Livro, onde se encontravam os agentes, assim reagindo com gritos de “Fora, Censura!”, “Fora, Crivella!”. O vídeo abaixo mostra como foi a recepção do evento aos agentes de Ordem Pública da Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro.

Opinião

A ação de Crivella, que se mostra enquanto um reacionarismo panfletário, mostra o desespero do Prefeito que possui a aprovação de apenas um digito. Ele é um reflexo de um movimento mundial, explorado por Steven Levistsky em seu livro “Como as democracias morrem”, de como os representantes políticos do nosso mundo (pós) moderno utilizam a legislação para atuarem em uma agenda identitária e ideológica, acreditando estarem em uma constante campanha para as próximas eleições. O Prefeito da cidade do Rio de Janeiro busca a manutenção da polarização que o elegeu em 2016, mostrando que a campanha do mesmo começou antes de dada a largada, mostrando a inexistência do teto do mesmo. O bispo quer, no fim das contas, surfar na onda conservadora que toma o país, fazendo com que qualquer situação se transforme em uma tempestade no copo d’água. Felizmente o tiro de Crivella saiu pela culatra, mais uma vez não apenas a mídia nacional, mas também a internacional se posicionou contra o ato do bispo, mostrando, inclusive, pontos em que sua competência deve servir, que são, obviamente, longe da vida privada de qualquer cidadão brasileiro.

A Bienal manteve sua posição e mostrou que o evento por mais que possua algumas limitações é um local de todos. A sociedade brasileira continua resistindo as tentativas autoritárias do governo, se mobilizando e organizando para as tentativas de censura que estão presentes não apenas no Rio de Janeiro, mas em São Paulo e em outros estados.

(Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo)

A Revista Subjetiva esteve no presente na Bienal do Livro Rio no ano de 2019. Todos os fatos documentados e citados acima foram registrados e vistos. A matéria foi produzida pelos editores, Mayra Chomski e Lucas Machado, durante o evento. Todos os demais registros possuem seus devidos créditos. Reiteramos nosso papel para com o regime democrático ainda presente em nosso país.

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