A condição humana, por David Fincher

Indo além do que há dentro da caixa

Dandara Aryadne
Jul 10, 2017 · 7 min read

A idealização de um filme que mostra a imagem dos valores da sociedade; a queda da questão humana nas mãos de um dos maiores diretores de todos os tempos. Um trabalho que começa sem pretensão, mas que, conforme cresce, intriga e mostra, com seu devido orgulho, toda a complexidade da degradação humana.

Em Se7en — Os Sete Crimes Capitais (Se7en, 1997), David Fincher conseguiu transformar uma história que poderia ser clichê ou até de fácil solução, dotando-a de uma atmosfera de certa forma acolhedora e, ao mesmo tempo, angustiante que nos mantêm alerta e reféns de um estado intenso de nervosismo. É como se o filme fosse uma auto-análise de quem o assiste, uma espécie de espelho que reflete nossos pecados mais severos. Além disso, é assustador por si só.

Tudo parte do conjunto da obra. Mas é claro: quando exploramos a visão de um filme, por mais ou menos complexo que ele seja, a análise de todo o material parte 50% do roteiro. Afinal de contas, temos que pensar de onde a história está surgindo; e então temos a outra parte, a forma como essa história será contada. É isso que importa ao se fazer uma análise, sendo o “interior” do que se vê pouco importante para esforços do tipo.

Vivemos uma Era de cinema roteirizado na qual boa parte das ideias surge visando degradar, de uma maneira irônica, a condição humana. Nesse sentido, é comum que apareça aquela conhecida esperança no fim do túnel que une os arcos da trama, transformando os personagens de maneira quase sempre oposta — de seres antes reais e brutais, passam a agir como humanos idílicos e com incrível potencial para notar a importância da vida. É a moda.

Parando pra pensar sobre a relação dos personagens vistos em Se7en, a ideia inicial de cada um deles não leva para uma análise tão profunda, já que partimos de um clichê. O policial veterano que ainda tem muito o que mostrar e o policial novato de bom caráter que ainda tem muito o que aprender. E aí aconteceria alguma coisa para que a relação deles entrasse em jogo e até mesmo para ajudar a solucionar o mistério. Por fim, tudo ficaria bem, certo?

Nem tanto. A mágica de Se7en é a poesia.

Todo o concept, afinal, parece uma declaração poética influenciada pelo mais profundo som de Edgar Allan Poe, que nos permite romantizar a escuridão sem perceber as trevas dentro de nós mesmos.

Tem algo errado e o filme vai mostrar isso, seja pelo roteiro, pela pouca iluminação ou pela atmosfera parada, tranquila da fotografia concebida por Darius Khondji, como se tudo estivesse de repente reaprendendo a se movimentar. É uma estranheza familiar que causa um certo enjoo por percebermos onde estamos errando.

Nos acostumamos com esses personagens, crescemos ao redor deles e vice-versa; não temos pressa em depositar confiança na figura de Somerset (Morgan Freeman), em compreender a insegurança de Mills (Brad Pitt) escondida sobre o orgulho do bom tira. Não temos pressa, pois somos apresentados a nós mesmos e tipos assim já conhecemos. A calma e suavidade de Morgan Freeman, responsável por ser o veterano, e a ousadia, o diamante bruto sob a pele de Brad Pitt. Ambos se relacionam muito bem com seus personagens. É tudo limpo e identificável.

Nesse sentido, há a visão de uma herança otimista empurrada na direção de uma juventude pessimista, obrigada a viver um desligamento de valores que se tornou algo completamente normal. Trata-se de uma condição sem tempo, sem idade e sem distinção de raça, cor ou gênero.

Eis um crescimento atemporal; a decrepitação liderada pela falta de vontade, matando tempo entre a morte da ideia até a aposentadoria. Somos todos assassinos, matamos nosso espírito com nossos pecados. Mesmo que a esperança de Somerset encante e seja de alguma forma sedutora, a aceitação e os suspiros cansados do jovem Mills são mais relacionados às facilidades de uma vida conformada.

Nas palavras de John Doe (Kevin Spacey):

“Nós vemos um pecado mortal em cada esquina, em cada lar, e o toleramos. Toleramos porque é comum, é trivial.”

Um simples ato, um simples pecado, um simples encerramento.

Não precisamos saber o que irá acontecer com os personagens. O resultado da tragédia não é necessariamente interessante. O interessante é a forma como iremos encarar ou não o senso falso/prático da sociedade de nos fazer acreditar que estamos fazendo o bem apenas sorrindo, dizendo “obrigado”, “por favor” ou se carregarmos a bolsa de uma velhinha na rua. Tudo se torna inútil enquanto tivermos o pensamento de que essa é uma de nossas obrigações, um de nossos deveres, e não parte daquilo que nos torna humanos.

A verdade, dura, é também muito simples: contribuir será sempre um desconforto se aqueles que o fazem, enxergam o pecado do próximo enquanto esquecem dos próprios.


“I’m Jack’s wasted life…”

Em Garota Exemplar (Gone Girl, 2014), David Fincher e Gillian Flynn nos contam sobre o excruciante sentimento de vingança não completado, aquele que nos dá a sensação inquietante de desejo incapaz de ser realizado. Há no filme a concepção de que algo ruim irá acontecer a qualquer momento: ou ela será descoberta ou ele será destruído.

Ainda, há o elemento incompleto do sentimento dentro da relação. Parece fácil. Depois que se soluciona o mistério, parece incrivelmente fácil. Mas depois se percebe que a solução para o problema sempre esteve à nossa frente. Mas só enxergamos a merda quando já estamos profundamente afundados nela. Não é irônico?

O insuportável silêncio. O angustiante silêncio. De novo ele. A existência dela é vivida através de uma intelectualidade quieta e calma. O desespero só aparece na superfície quando é para administrar o outro lado do plano e isso a transforma na perfeita psicopata.

Ou deveria dizer “humana”?

Já que, afinal de contas, é apenas na hora do desespero que encontramos os mecanismos necessários para nos salvarmos, parece razoável pensar assim, certo?

Ela se viu sem amor, traída. Foram-se seus sonhos, esperanças e expectativas. E tudo moldado por uma realidade que ela escolheu enxergar, na qual foram depositadas como consequência de um relacionamento incapaz de alimentar por mais tempo o brilhante futuro planejado. E aí ela se viu perante o desespero e agiu, deixando-o no mesmo barco que ela. Ou seja, desesperado e respondendo com uma ação, a única ação possível: ficar com sua esposa.

Seria um pensamento aterrorizante dizer que o personagem com o qual nos identificamos não é o marido ingênuo traidor (e, ao final, traído pela vingança), mas sim a esposa? É ela o centro do casamento? A verdadeira chefe da casa que ministra, organiza e governa a vida daqueles que vivem sob seu teto?

Não dá pra negar o sorriso irônico que surge em nossos lábios no exato momento em que descobrimos a incrível forma de pensamento de Amy (Rosamund Pike). Sorrimos porque nos identificamos com ela. Ela o faz pagar pela traição, por obrigá-la — mesmo que o senso de obrigação aqui seja apenas ilusão — a criar expectativas, a alimentar sonhos que não existiram, a criar ideias que não se realizariam, a ter que se obrigar a agir em prol de seu casamento. De seu casamento, não dele, não deles, não da Amazing Amy, mas de seu casamento exclusivo. Aquele que é só seu, que é o seu projeto, sua distinção de vida perfeita.

Ela precisava salvar e ele a obrigou a isso, não?

Duas horas e meia de tique. Um tique que fica martelando na sua cabeça, lá dentro, no canto mais escuro e secreto do seu cérebro, cercando pouco a pouco cada reflexo de pensamento, sussurrando baixinho, em uma voz suave, calma e sem nunca perder o tom aquilo que se torna a grande aposta do filme:

Você faria isso.

Se essa sobrevivência está ligada especificamente à ideia de vida ou morte? Não necessariamente. Mas não dá pra definir o que seria a vida de alguém ou a morte de alguns num cenário assim. Então isso apenas deixa claro que

“We will do what we have to do, to survive.”

David Fincher conseguiu chegar ao topo da sua carreira com sucessos sobre serial killers e a base de muita pressão psicológica. Seus filmes, sempre dotados de finais mais que surpreendentes, nos acariciam com o melhor do suspense sobre a condição humana no que diz respeito a relacionamentos. Eis um diretor que honra a herança deixada por Hitchcock, que nos carrega nas costas e nos traz de volta à realidade — subjetiva ou não — cada vez que resolve focar sua câmera.


A Dandara escreve para o Cinema ATM, portal no qual o artigo acima foi originalmente publicado.


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Criadora e Editora Chefe do Cinema ATM, autora de “Five Flowers”, artista plástica, ilustradora freelancer e apreciadora de uma boa praia e cerveja.

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