
A idealização de um filme que mostra a imagem dos valores da sociedade; a queda da questão humana nas mãos de um dos maiores diretores de todos os tempos. Um trabalho que começa sem pretensão, mas que, conforme cresce, intriga e mostra, com seu devido orgulho, toda a complexidade da degradação humana.
Em Se7en — Os Sete Crimes Capitais (Se7en, 1997), David Fincher conseguiu transformar uma história que poderia ser clichê ou até de fácil solução, dotando-a de uma atmosfera de certa forma acolhedora e, ao mesmo tempo, angustiante que nos mantêm alerta e reféns de um estado intenso de nervosismo. É como se o filme fosse uma auto-análise de quem o assiste, uma espécie de espelho que reflete nossos pecados mais severos. Além disso, é assustador por si só.
Tudo parte do conjunto da obra. Mas é claro: quando exploramos a visão de um filme, por mais ou menos complexo que ele seja, a análise de todo o material parte 50% do roteiro. Afinal de contas, temos que pensar de onde a história está surgindo; e então temos a outra parte, a forma como essa história será contada. É isso que importa ao se fazer uma análise, sendo o “interior” do que se vê pouco importante para esforços do tipo.
Vivemos uma Era de cinema roteirizado na qual boa parte das ideias surge visando degradar, de uma maneira irônica, a condição humana. Nesse sentido, é comum que apareça aquela conhecida esperança no fim do túnel que une os arcos da trama, transformando os personagens de maneira quase sempre oposta — de seres antes reais e brutais, passam a agir como humanos idílicos e com incrível potencial para notar a importância da vida. É a moda.
Parando pra pensar sobre a relação dos personagens vistos em Se7en, a ideia inicial de cada um deles não leva para uma análise tão profunda, já que partimos de um clichê. O policial veterano que ainda tem muito o que mostrar e o policial novato de bom caráter que ainda tem muito o que aprender. E aí aconteceria alguma coisa para que a relação deles entrasse em jogo e até mesmo para ajudar a solucionar o mistério. Por fim, tudo ficaria bem, certo?
Nem tanto. A mágica de Se7en é a poesia.
Todo o concept, afinal, parece uma declaração poética influenciada pelo mais profundo som de Edgar Allan Poe, que nos permite romantizar a escuridão sem perceber as trevas dentro de nós mesmos.
Não é algo assim tão simples de notar. Mais profunda, é uma mensagem que vai além do que um filme de suspense com algum psicopata louco ou mal entendido normalmente apresenta. É o silêncio. A mensagem é o silêncio da aceitação na qual transformamos nossas vidas; existindo aos sussurros, sorrindo e acenando, deixando tudo para lá, não dando a verdadeira importância para todas as coisas que existem ao nosso redor.
Tem algo errado e o filme vai mostrar isso, seja pelo roteiro, pela pouca iluminação ou pela atmosfera parada, tranquila da fotografia concebida por Darius Khondji, como se tudo estivesse de repente reaprendendo a se movimentar. É uma estranheza familiar que causa um certo enjoo por percebermos onde estamos errando.
Nos acostumamos com esses personagens, crescemos ao redor deles e vice-versa; não temos pressa em depositar confiança na figura de Somerset (Morgan Freeman), em compreender a insegurança de Mills (Brad Pitt) escondida sobre o orgulho do bom tira. Não temos pressa, pois somos apresentados a nós mesmos e tipos assim já conhecemos. A calma e suavidade de Morgan Freeman, responsável por ser o veterano, e a ousadia, o diamante bruto sob a pele de Brad Pitt. Ambos se relacionam muito bem com seus personagens. É tudo limpo e identificável.
Nesse sentido, há a visão de uma herança otimista empurrada na direção de uma juventude pessimista, obrigada a viver um desligamento de valores que se tornou algo completamente normal. Trata-se de uma condição sem tempo, sem idade e sem distinção de raça, cor ou gênero.
Eis um crescimento atemporal; a decrepitação liderada pela falta de vontade, matando tempo entre a morte da ideia até a aposentadoria. Somos todos assassinos, matamos nosso espírito com nossos pecados. Mesmo que a esperança de Somerset encante e seja de alguma forma sedutora, a aceitação e os suspiros cansados do jovem Mills são mais relacionados às facilidades de uma vida conformada.
Nas palavras de John Doe (Kevin Spacey):
“Nós vemos um pecado mortal em cada esquina, em cada lar, e o toleramos. Toleramos porque é comum, é trivial.”
John Doe, um ninguém que poderia ser qualquer um. Mais um em um milhão de mentes, de pensamentos que versam sobre cada tragédia, psicopatia e antipatia no que se refere à ideia de marasmo humano. Somos, afinal, uma geração sem empatia. A atmosfera em cores frias e neutras, com um simples pôr-do-sol como assinatura e sem grandes significados ou extravagâncias.
Um simples ato, um simples pecado, um simples encerramento.
Não precisamos saber o que irá acontecer com os personagens. O resultado da tragédia não é necessariamente interessante. O interessante é a forma como iremos encarar ou não o senso falso/prático da sociedade de nos fazer acreditar que estamos fazendo o bem apenas sorrindo, dizendo “obrigado”, “por favor” ou se carregarmos a bolsa de uma velhinha na rua. Tudo se torna inútil enquanto tivermos o pensamento de que essa é uma de nossas obrigações, um de nossos deveres, e não parte daquilo que nos torna humanos.
A verdade, dura, é também muito simples: contribuir será sempre um desconforto se aqueles que o fazem, enxergam o pecado do próximo enquanto esquecem dos próprios.
“I’m Jack’s wasted life…”

Em Garota Exemplar (Gone Girl, 2014), David Fincher e Gillian Flynn nos contam sobre o excruciante sentimento de vingança não completado, aquele que nos dá a sensação inquietante de desejo incapaz de ser realizado. Há no filme a concepção de que algo ruim irá acontecer a qualquer momento: ou ela será descoberta ou ele será destruído.
Ainda, há o elemento incompleto do sentimento dentro da relação. Parece fácil. Depois que se soluciona o mistério, parece incrivelmente fácil. Mas depois se percebe que a solução para o problema sempre esteve à nossa frente. Mas só enxergamos a merda quando já estamos profundamente afundados nela. Não é irônico?
O insuportável silêncio. O angustiante silêncio. De novo ele. A existência dela é vivida através de uma intelectualidade quieta e calma. O desespero só aparece na superfície quando é para administrar o outro lado do plano e isso a transforma na perfeita psicopata.
Ou deveria dizer “humana”?
Já que, afinal de contas, é apenas na hora do desespero que encontramos os mecanismos necessários para nos salvarmos, parece razoável pensar assim, certo?
Ela se viu sem amor, traída. Foram-se seus sonhos, esperanças e expectativas. E tudo moldado por uma realidade que ela escolheu enxergar, na qual foram depositadas como consequência de um relacionamento incapaz de alimentar por mais tempo o brilhante futuro planejado. E aí ela se viu perante o desespero e agiu, deixando-o no mesmo barco que ela. Ou seja, desesperado e respondendo com uma ação, a única ação possível: ficar com sua esposa.
Seria um pensamento aterrorizante dizer que o personagem com o qual nos identificamos não é o marido ingênuo traidor (e, ao final, traído pela vingança), mas sim a esposa? É ela o centro do casamento? A verdadeira chefe da casa que ministra, organiza e governa a vida daqueles que vivem sob seu teto?
Não dá pra negar o sorriso irônico que surge em nossos lábios no exato momento em que descobrimos a incrível forma de pensamento de Amy (Rosamund Pike). Sorrimos porque nos identificamos com ela. Ela o faz pagar pela traição, por obrigá-la — mesmo que o senso de obrigação aqui seja apenas ilusão — a criar expectativas, a alimentar sonhos que não existiram, a criar ideias que não se realizariam, a ter que se obrigar a agir em prol de seu casamento. De seu casamento, não dele, não deles, não da Amazing Amy, mas de seu casamento exclusivo. Aquele que é só seu, que é o seu projeto, sua distinção de vida perfeita.
Ela precisava salvar e ele a obrigou a isso, não?
Duas horas e meia de tique. Um tique que fica martelando na sua cabeça, lá dentro, no canto mais escuro e secreto do seu cérebro, cercando pouco a pouco cada reflexo de pensamento, sussurrando baixinho, em uma voz suave, calma e sem nunca perder o tom aquilo que se torna a grande aposta do filme:
Você faria isso.
Não que todos nós, seres humanos, sejamos psicopatas ou que tenhamos um monstro dentro de nós cavando uma saída, esperando o momento certo. Não, não é isso (ao menos, torço para que não). Está mais para uma aceitação da realidade. Uma realidade na qual somos e temos dentro de nós o instinto de sobrevivência.
Se essa sobrevivência está ligada especificamente à ideia de vida ou morte? Não necessariamente. Mas não dá pra definir o que seria a vida de alguém ou a morte de alguns num cenário assim. Então isso apenas deixa claro que
“We will do what we have to do, to survive.”
É a básica e primordial lei da vida, não importando por quais motivos ela se faça valer.
David Fincher conseguiu chegar ao topo da sua carreira com sucessos sobre serial killers e a base de muita pressão psicológica. Seus filmes, sempre dotados de finais mais que surpreendentes, nos acariciam com o melhor do suspense sobre a condição humana no que diz respeito a relacionamentos. Eis um diretor que honra a herança deixada por Hitchcock, que nos carrega nas costas e nos traz de volta à realidade — subjetiva ou não — cada vez que resolve focar sua câmera.
A Dandara escreve para o Cinema ATM, portal no qual o artigo acima foi originalmente publicado.
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