A cozinha profissional e o machismo

Os casos de machismo reproduzidos na cozinha exibidos no programa MasterChef

Matheus Ribs — facebook.com/matheusribsoficial

Mulheres de todas as idades, crenças, etnias e culturas se deparam diariamente com frases de cunho machista. Uma rápida pesquisa na rede social Facebook e no comunicador WhatsApp indagando mulheres a responderem sobre frases que lhes vem a cabeça quando a palavra “machismo” é pronunciada. “As respostas obtidas foram inúmeras, dentre elas; “Mas olha a roupa que ela estava”, “Quem pariu o Mateus, que o embale”, “Engravidou porque quis”, ‘‘Ela é maluca”, “Ela deu brecha”, “Minha ex é maluca”, “Você não pode fazer isso, porque é coisa de homem”, “Senta que nem mocinha”, “Seu irmão pode, porque ele é homem”, “Mulher de night é tudo puta”, “Toda mulher é ruim de roda”. As frases que chamam atenção são as que repensam o lugar da mulher na hierarquia social, onde seu campus no sentido bourdiano se resume à cozinha, não a rua ou a qualquer tipo de lugar que se desvincula da tutela do patriarca.

O fato é que, o patriarcado parte da premissa de que a mulher tem obrigação de estar em casa, subservente ao patriarca. No renomado programa intitulado ’MasterChef’, onde houve essa reprodução social em inúmeros capítulos dessa competição que já é transmitida em diversos países, a edição que se popularizou no Brasil, foi a de Chefs amadores, além da edição que reunia crianças que, aliás, receberam inúmeras mensagens relacionadas a assédio sexual na rede social Twitter, caso que foi debatido amplamente na sociedade ao longo do tempo. A nova edição que chega ao Brasil traz profissionais as famigeradas competições, são, ao todo, 14 participantes, entre eles 7 homens e 7 mulheres, respeitando a equidade entre gêneros.

O principal objetivo desse artigo é relatar os principais casos de machismo evidenciados durante a competição, logo, pretendo não entrar em detalhes quanto a parte culinária, mas sim analisar e expor diversos casos que foram transmitidos em rede nacional ao longo dos meses. A primeira eliminada foi Izadora, candidata que, segundo seus companheiros de competição, era inexperiente e emocional, sendo que eles nem a conheciam direito, pois estavam no primeiro episodio do programa, nisso observamos o primeiro acontecimento de um típico machismo, onde quando uma mulher é estigmatizada de ser instável emocionalmente. Durante a primeira prova, a Chef e jurada do programa, Paola Carrosela, chama Ivo e Dário, que foram melhores da prova anterior, para ajudar os colegas na prova de eliminação. Ivo, sem pensar duas vezes, chega praticamente ofendendo Izadora e ordena-a cumprir diversas tarefas como cortar cebola, descascar beterraba e pegar as panelas para ele cozinhar, e a ignora, como se ela não soubesse fazer absolutamente nada, como se ela fosse apenas ajudante de cozinha.

O segundo caso relatado foi o da candidata e Chef, Izabela Dolabela, onde na sua eliminação quando conversava com Ana Paula Padrão, mostra o incomodo causado pelas frases machistas de seus companheiros de competição e dispara: “A cozinha ainda é muito machista. É aquela coisa de que homem é Chef, e mulher é cozinheira”. O terceiro caso é o da Chef e candidata, Priscylla Luswarghi, onde na primeira prova em grupo da temporada, João chega para Ivo, que era o líder na prova, e comenta “Priscylla precisaria ouvir mais alguns gritos para aprender”. O quarto caso veio com a penúltima eliminada, Fádia Cheiado, onde quando Ana Paula Padrão pergunta: “É mais difícil para mulher?” e Fádia responde: “Muito mais, porque tem uns machistas da vida aí na cozinha”. Na mesma hora das palavras de Fádia, a câmera corta para Ivo e Dário, responsáveis por um dos episódios que mais gerou indignação nas redes, no qual mandam Dayse “varrer o chão” em vez de cozinhar, e no mesmo episodio, Dayse avisa aos companheiros de equipe, Dario e Ivo, o que era necessário preparar, que alem dos outros cortes pedidos também tinha um pernil, mas os dois a ignoram ate um dos jurados cobrar do time o corte que Dayse estava falando desde o inicio da prova.

Infelizmente os episódios de machismo não pararam, e agora com mais ainda com o foco na Dayse, por ser a única mulher que continua na competição. No último episodio exibido em uma terça-feira (29/12/2016), todos os três candidatos homens, no começo do programa fazem comentários parecidos com o do Ivo que “Dayse não é uma competidora à minha altura”, mas as atitudes machistas não param por ai, porque Marcelo ganha a primeira prova do dia e se salva da eliminação, e tem o poder nessa prova escolher a primeira iguaria que Dario, Dayse e Ivo iriam cozinhar. O curioso é que bem para Dayse, ele escolhe o mais difícil — segundo os próprios jurados — o que podia parecer normal, como coisa do jogo, mas infelizmente não é, e isso fica evidente nos depoimentos de Marcelo durante o programa, todo esse repertório faz parte de seu machismo enraizado que veio a tona em rede nacional, denunciando todas as atitudes responsáveis pelas violências sofridas pelas mulheres de todo Brasil diariamente. Na verdade, Marcelo tem medo de chegar numa possível final com uma mulher e perder, e como a própria Dayse expressou: ‘’A possibilidade [para eles] de perder para uma mulher, fica meio vergonhosa’’ e o que ela quis dizer é que, na visão de um homem machista, perder para uma mulher seria algo digno de vergonha, na cabeça dele, uma final digna de respeito seria contra outro homem, pois se ele perder, não perderia pra alguém, na sua visão, ‘’fraca’’ como uma mulher. Infelizmente, a onda de machismo de Marcelo não para, durante o resto do programa ele ficava sussurrando que não era possível ela continuar, que ela era fraca, que seu prato estava horrível — sendo que nem tinha experimentado o prato, até a Chef Paola chamar. No final da historia, o prato da Dayse foi o melhor da prova, ela conseguiu superar todas as dúvidas pelo segundo programa seguido em que a diminuem, foi elogiada pelos jurados e que seu prato era, segundo o Chef Jacquin, ‘’O melhor do melhor’’. Com elogios, Dayse sobe no mezanino — bancada que ficam os que permanecem no programa — confiante e revigorante, todos os três homens que estavam ali tiveram que aceitar.

O mundo ainda é muito regulado pelo patriarcado que Gilberto Freyre já denunciara em Sobrados e Mucambos, o que não é novidade e a cozinha profissional, como vista no MasterChef, é seu modelo reproduzido e, neste modelo, podemos encontrar um ponto muito importante, a questão da tutela versus autonomia, onde a mulher, em pleno século XXI, muitas vezes não tem a autonomia de fazer o que deseja, como sair de casa e cozinhar fora. Se observarmos, a mulher é sempre à cozinheira e quase nunca a Chef, nada contra a palavra ‘’cozinheira’’, mas a utilizam de modo pejorativo, como se a mulher não merecesse ocupar este espaço que também pode ser seu por direito. A mulher é, na visão patriarca, a cozinheira para ficar dentro de casa sendo subservente de seu marido, cozinhando para sua família e não para estranhos, seja onde for. A cozinha de casa sempre foi julgada como lugar feminino, onde é dever da mulher estar, já a cozinha profissional é julgada como o lugar de direito masculino. Para esses Chefs, o lugar da mulher na cozinha profissional é no máximo de ajudante, nunca como sua Chef, como representado no caso entre Dayse e Ivo, onde ele já havia sido chefe da mesma em uma cozinha profissional. Esses homens julgam a cozinha profissional como um lugar duro que não combinam com as mulheres que, na visão deles, são frágeis, que são choronas e de temperamento difícil.

As mulheres, principalmente dessa edição do Masterchef, por se tratar do mundo profissional da cozinha, denunciam na TV aberta como um pequeno mundo da cozinha exemplifica perfeitamente como é a nossa sociedade regida pelo patriarcado até os dias atuais, mesmo em sociedades ditas como economicamente desenvolvidas. A mulher sempre será mais julgada que um homem em qualquer ocasião, pelo simples fato de ser mulher. O lugar de mulher é onde ela quiser, e se Dayse e todas as outras Chefs do mundo quiserem estar na cozinha profissional, e tem competência para, será isso que elas serão.


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