A culpa é toda sua!

As disputas políticas e a imaturidade do debate

Maya Falks
Sep 12 · 6 min read

Já está virando costume acordarmos todo dia com mais um ato de imaturidade crônica provinda de algum membro do atual governo, seja o Ministro da Educação escrevendo errado, a Ministra dos Direitos Humanos falando que meninas são estupradas por lhes faltam calcinhas ou o Presidente da República fazendo piada de membro pequeno pra japonês ou chamando a esposa alheia de feia.

Enfim, é notável que vivemos a era do enaltecimento do bullying juvenil, aquele que acreditávamos estar livres ao completarmos 14 anos. Mas ele não é privilégio da extrema- direita, como muita gente pensa. Embora do lado de fora do extremismo tenhamos muita gente que não defende a terra plana nem acredita que a Pepsi é adocicada com fetos humanos, ainda vemos um costume que começou a se consolidar por volta de 2014 e não larga o osso: “a culpa é do PT”.

Fui anti-petista convicta até quase o ano em questão. Para se ter uma ideia, tirei meu título eleitoral aos 16 anos só para poder votar na reeleição do Fernando Henrique Cardoso e votei no PT pela primeira vez na vida em 2014, quando restaram Dilma e Aécio na disputa. Não apenas pelas denúncias de agressão contra uma mulher, mas peguei ranço do mineiro por culpa da maior emissora do país, que dedicou segundos de seu telejornal para denunciar um helicóptero cheio de cocaína ligado ao candidato em plena corrida eleitoral enquanto passou a semana inteira em longas e chatíssimas matérias sobre pedalinhos e canoinhas de lata do ex-presidente Lula.

À época, já formada em comunicação e estudante de direito, me ficou óbvia a tentativa de manipulação eleitoral ao praticamente ignorar um crime hediondo que dá pena de morte em vários países possivelmente ligado a um dos candidatos enquanto tratava pedalinhos e canoinha de lata de um ex-presidente como algo terrivelmente criminoso. O dono das peças em questão não apenas tinha condições de adquirir os objetos por meios lícitos como comprovou com notas fiscais à época. Um escândalo fabricado para manipular o resultado da eleição, visto que o ex-presidente é do mesmo partido da candidata opositora do suspeito do verdadeiro crime — jamais apurado, leia-se.

Aparentemente não fui só eu que percebi a tentativa de manipulação ali, porque as super denúncias vazias que ocuparam uma semana de telejornal não conseguiram evitar a eleição da candidata do PT. Onça devidamente cutucada com vara curta.

Hoje sou jornalista também, mas não sou jornalista investigativa, então não posso ser leviana de afirmar a quem interessava derrubar o governo petista (embora, no fundo, todo mundo saiba, até os que não admitem), o causo é que se iniciou uma campanha massiva de ódio ao PT que transformou uma simples incompatibilidade ideológica em uma guerra, em uma patologia que, creio, ainda será analisada e estudada pela psiquiatria. Pessoas comuns, essas que conhecemos no dia-a-dia e que nunca fizeram mal a ninguém, passaram a defender as maiores atrocidades possíveis em nome do ódio ao PT.

A própria eleição de Bolsonaro foi um reflexo disso. Embora ele mesmo tenha dito, sem medo de ser prejudicado na corrida eleitoral, que era, de todos os candidatos, o menos preparado ou qualificado para o cargo, Bolsonaro conta com um pequeno eleitorado efetivamente entusiasta de seus pensamentos e ações, e uma horda gigantesca de pessoas que o assumiram como única alternativa para manter o PT longe do poder.

Em números brutos, uma rápida pesquisa mostra que, ao contrário dos bordões da grande imprensa e do senso comum, os 14 anos em que o PT esteve no poder, em especial nos 8 anos da era Lula, foram justamente alguns dos anos de maior prosperidade do país. Não que tivessem sido perfeitos — se eu tivesse achado perfeitos, não teria votado contra o PT durante todos esses anos — mas os dados e a própria realidade que o país vivia até a vitória da Dilma em 2014, comprovam que a teoria de que o PT quebrou o Brasil simplesmente não faz sentido. Qualquer das pessoas que se tornaram ferrenhas anti-petistas a partir dos escândalos de corrupção cuja mídia só deu destaque aos maus feitores petistas, praticamente ignorando demais partidos ou não se dando o trabalho de explicar o que aqueles escândalos significaram para fazê-los parecerem piores do que eram, se você perguntar o motivo do ódio, vão alegar que foi a corrupção, a roubalheira, etc, etc. Se você for mais fundo e perguntar o que, quanto, quando e onde foi roubado, ninguém sabe dizer uma resposta concreta ou surge uma ou outra fakenews espalhada na última eleição.

Veja bem — porque eu sei que interpretação de texto as vezes é complicada — não estou inocentando o PT de nada, o objetivo desse texto é analisar como o PT se tornou tão odiado ao mesmo tempo que chovem acusações (recheadas de provas) contra membros de outros partidos que não geram toda a comoção que a alegada roubalheira do PT gerou. Aliás, prova disso são os ataques contra qualquer um que denuncie algum membro do clã presidencial ou o juiz que meteu Lula na cadeia. Existem provas contundentes dos denunciantes, as pessoas não apenas não acreditam de jeito nenhum como odeiam e atacam quem denuncia.

Sim, a grande mídia, ao tentar colocar no poder os seus representantes de sempre, criou uma patologia. E o pior, seus candidatos tradicionais fizeram muito feio na eleição. A criação de uma aversão ao PT para tirar o partido do jogo político perdeu a mão e se tornou perigosa, quando não letal. E o mais fascinante: não funcionou. Enquanto parte da população, movida por esse ódio descontrolado pela sigla, escolheu o candidato mais distante dela no espectro político possível — ignorando todos os outros no caminho, outra parte manteve o partido no jogo colocando-o no segundo turno.

Mas se engana quem pensa que a patologia antipetista encontrou eco somente entre direitistas ou indiferentes à política; na própria esquerda a aversão virou motivos de disputas. Não é incomum ver pessoas de esquerda culpando o PT pela vitória de Bolsonaro alegando que somente o candidato de centro, Ciro Gomes, tinha chance de vencer Bolsonaro e, portanto, a entrada do PT na disputa teria atrapalhado a ascensão do candidato do PDT. Ora, se somente Ciro conseguiria bater Bolsonaro, por que ele não bateu Haddad, do odiado PT, primeiro?

Era direito do PT lançar candidatura própria, isso nem deveria estar sendo questionado, mas vi, entre meus contatos, pessoas que se dedicaram mais, nesses 9 desastrosos meses de nova gestão, a culpar o PT pela derrota de Ciro do que efetivamente denunciar e combater os desmontes do atual governo.

Ao gosto da extrema-direita, que, como todo regime totalitário (seja de qual lado do espectro político for), quer mandar sozinha no parquinho, a esquerda se dividiu entre os petistas convictos que apanham na rua mas não largam a bandeira, os ciristas ressentidos que estão a um passo de votar no Alckmin na próxima eleição só de birra e os desesperados que enxergam essa briguinha tosca como um grande atraso em qualquer ação de resistência e combate ao desmonte.

Virou modinha culpar o PT por absolutamente tudo. Lembro-me de um post de uma moça reclamando das más condições de um banheiro de shopping e culpando a Dilma por isso, ou o povo que hoje, setembro de 2019, culpa a Dilma por a gasolina estar acima de R$ 4 enquanto a ex-presidenta virou alvo de protestos quando a gasolina atingiu R$ 2,89 e foi deposta não muito depois disso.

Qualquer debate com entusiastas do atual governo vira, invariavelmente, culpa do PT, que não nos governa há 3 anos, ou culpa do Lula, que deixou de ser presidente em 2010. Já virou até motivo de piada entre pessoas de esquerda que mantém bolsonaristas entre seus contatos: criticou Bolsonaro pelo motivo que for, segundos depois surge algum comentário falando do PT.

Independente das culpas que o PT carrega — porque seria ingenuidade acreditar que um partido político não carregue suas culpas em um país que tem a corrupção como sua base de fundação desde 1500 — é notável que se criou um vício de atribuir ao partido todas as culpas de tudo, seja o que for. O próprio presidente, ao perceber sua baixíssima popularidade, usou o antipetismo patológico de escudo: “Se não acreditam em mim e continuar fazendo esse trabalho de não acreditar, eu caio mais cedo, mais cedo o PT volta”.

Ele sabe o poder que essa ameaça pode gerar. Imediatamente alguns decepcionados com a gestão bolsonarista voltaram a apoiar cegamente o presidente pelo medo de um possível retorno do PT ao poder. É quase como um bicho-papão na versão para adultos — ou nem tão adultos assim.

Atualmente, mesmo com o fracasso da estratégia da grande mídia que alimentou o antipetismo para assegurar a chegada do PSDB à presidência, o monstro de ódio partidário continua sendo alimentado. É difícil prever para onde isso tudo vai caminhar, o que é possível afirmar que onde se alimenta ódio, o resultado tende a ser extremamente desastroso e historicamente vergonhoso.

Revista Subjetiva

Tudo aquilo que você não encontra na grande mídia.

Maya Falks

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Escritora, publicitária, jornalista e caçadora de nuvens.

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