A evolução da moralidade: empatia e reciprocidade

O Jardim das Delícias Terrenas — den Bosch

O quadro acima é conhecido como “O Jardim das Delícias Terrenas” e é atribuído ao pintor holandês den Bosch. O quadro mostra no painel esquerdo o Jardim do Éden, enquanto no painel direito é retratado o inferno. Entre eles, no painel central, há o jardim das delícias terrenas, representando todos os pecados capitais. Há muitas interpretações para a pintura. Uma delas diz que o painel central representa o tipo de moralidade que teríamos se não houvesse a religião.

Somos seres fundamentalmente sociais. A capacidade de raciocinar e se relacionar com o próximo estão entre os principais fatores para que o Homo sapiens tenha dominado o mundo. Colocamos as capacidades humanas em um pedestal, julgando que somos melhores. Como somos seres sencientes, temos ética e moralidade no nosso cardápio diário, o que nos faz seres superiores.

Nós não nascemos com moral. O psicólogo Jean Piaget mostrou que as crianças progridem a partir de uma compreensão muito limitada da moralidade para uma compreensão mais sofisticada — que envolvem, por exemplo, a consideração dos motivos e intenções por trás de determinados atos. Moralidade normalmente possui dois pilares mínimos: empatia e reciprocidade. Tendemos a pensar que estas características são exclusividades dos seres humanos. Será mesmo?

Sabe quando você vê um filme e “entra” na pele do personagem? Quando você sente o sofrimento, a dor, a paixão? Isso é empatia. A empatia provavelmente evoluiu nos mamíferos, relacionada principalmente ao cuidado parental e também é importante na cooperação, já que esta exige estar em sintonia com outros membros do grupo.

Já se colocou na pele deste cara? Talvez você veja que ele não é tão ruim assim… Ou sua empatia não é tanta?

Normalmente, pensamos que os animais sobrevivem com base na “lei da selva” lá na “natureza selvagem”. Você já deve ter visto muitos filmes que comparam nosso comportamento com o de animais, como “O lobo de Wall Street”, o que é uma injustiça com o lobo. Se você tem um cachorro em casa sabe como eles, que evoluíram a partir dos lobos, são sociais e empáticos.

Quando você faz um favor para um amigo, normalmente ele fica “te devendo uma”. Você até pode falar que não precisa, mas fica implícito. Isso é reciprocidade, que é uma característica essencial na amizade e nos relacionamentos amorosos.

Muitos pesquisadores resolveram explorar o conceito de empatia e reciprocidade em animais para determinar se são mesmo qualidades exclusivamente humanas. Entre os animais preferidos para as pesquisas estão os que apresentam comportamento social, como macacos e elefantes.

Empatia

Um experimento famoso de Jules Masserman em 1964 funcionava da seguinte forma: eles colocavam um macaco com fome na frente de uma caixa de comida, mas para trazer a caixa para a grade o macaco deveria puxá-la. Ao puxar, ele dava um choque no seu amigo da jaula ao lado (a comissão de ética animal era mais “flexível” na época…). Um macaco parou de puxar a corrente por 12 dias depois de testemunhar o outro macaco receber um choque. Ele estava literalmente disposto a morrer de fome.

Aí você deve estar pensando: mas isso são estudos em laboratório… Na natureza não acontece desse jeito.

Observando macacos na natureza, o holandês Frans de Waal notou comportamentos empáticos e sociáveis. Após uma briga os macacos faziam as pazes e se beijavam. Se a “lei da selva” impera e competição e agressão é tudo que eles conhecem, porque fazer as pazes? Se são “irracionais” era só esperar um tempo que aquilo seria esquecido. Parece um comportamento humano: você tem um relacionamento valioso que é prejudicado por uma briga. Fazer as pazes é algo importante. O consolo é outra característica empática que macacos apresentam.

Consolo e fazer as pazes após uma briga (com beijinho!): comportamentos humanos?

Uma das características da empatia é a sincronicidade. Isso pode ser avaliado por algo simples, como o bocejo. Já viu alguém bocejar e, logo em seguida, começou a bocejar também? Isso tem a ver com a empatia. Pessoas que tem o “contágio do bocejo” são mais empáticas que outras que não tem. Algumas pessoas que tem dificuldade de construir relacionamentos, como autistas, não apresentam o contágio do bocejo. Macacos também possuem esta característica. Talvez só de imaginar você já esteja bocejando agora.

Reciprocidade

Jules Masserman ataca novamente, desta vez sem choques: dois macacos tinham que puxar uma caixa para trazer a comida para perto. Como a caixa era pesada, apenas um não conseguiria puxar sozinho. Eles trabalhavam juntos com um objetivo em comum… Mais do que isso, puxavam a corda de forma sincronizada. No dia seguinte, um dos macacos era alimentado antes do experimento, enquanto o outro não era. Não havia nenhum motivo para o macaco alimentado colaborar, mas vendo o desejo de seu companheiro de experimento o ajudava a puxar a caixa. Ao fim desta rodada o macaco alimentado ignorava a comida da caixa, enquanto seu amigo faminto comia tudo. Porque isso acontece? Provavelmente tem a ver com reciprocidade e uma “troca de favores, já que havia um rodízio entre quem era alimentado antes do experimento.

Justiça

Frans de Waal ficou famoso com um experimento que viralizou na internet. Em um estudo de 2008, ele colocou dois macacos-capuchinhos lado a lado e lhes deu uma tarefa simples para receber uma recompensa: dar uma pedra para o pesquisador. Eles receberam pepino (que é ruim... Convenhamos…) para executar a tarefa. Apesar do pepino, ambos estavam felizes. Depois de algumas rodadas, um macaco recebeu uvas (que é muito melhor) enquanto o outro continuou a receber pepinos. Depois de receber o primeiro pedaço de pepino e ver que o outro macaco recebeu uvas, o macaco capuchinho joga fora o pepino e fica revoltado, batendo na grade. A grande surpresa é que em algumas situações o macaco que estava se dando bem começa a recusar as uvas até que seja dada a mesma recompensa para ambos. Justiça entre macacos? Mas essa não é uma característica essencialmente humana?

Já vi esta reação do macaco que ganha o pepino, vendo o outro ganhar outra coisa melhor em algum lugar…

Experimentos também foram realizados em elefantes, lobos, roedores e morcegos, com resultados semelhantes. Empatia, reciprocidade e até mesmo um senso de justiça sendo mostrado por animais? Alguns cientistas relutam em chamar um macaco de um “ser moral”, enquanto outros afirmam que esta é a moralidade sendo construída “de baixo para cima” na evolução, sem a necessidade de Deus ou de religião.

Qual então nossa diferença?

O psicólogo Michael Tomasello afirma que somos “ultra-sociais” de uma maneira que os grandes macacos não são. Assim, temos uma maior capacidade de cooperação que surgiu em algum lugar ao longo do caminho evolutivo da nossa espécie. Em um estudo publicado em 2007, ele concluiu que crianças humanas, chipanzés e orangotangos executaram tarefas físicas de formas iguais, mas nos testes sociais os bebês humanos foram duas vezes melhores que os macacos.

Uma das teorias para explicar a nossa ultra-sociabilidade é a alimentação. Humanos e macacos tomaram diferentes estratégias: macacos se alimentam principalmente de frutas, que podem ser colhidas sozinhas, enquanto nós nos tornamos onívoros, nos alimentando basicamente de tudo. Para caçar animais maiores precisamos de estratégias em conjunto. Essa colaboração acabou se extendendo para além da caça e assim teria surgido a moralidade.

Será que den Bosh pintou um quadro pessimista da moralidade humana? Talvez a moralidade tenha surgido antes da religião na nossa evolução, assim, a religião seria consequência, não causa, da moralidade. Seja qual for sua opinião, acho as conclusões destes experimentos servem para que tratemos os animais com mais respeito. Acho que é hora de repensarmos nosso lugar no reino animal e mostrar um pouco mais de humildade.

Somos o resultado de 3,8 bilhões de anos de evolução. Está na hora de começar a agir de acordo com isso.


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