A França campeã mundial é a de Mbappé, não a de Le Pen

Carlos Massari
Jul 16, 2018 · 5 min read
Reprodução: Google

Kylian Mbappé e Jean-Marie Le Pen são dois dos 67 milhões de franceses. Eles representam países completamente opostos, com ideias e trajetórias que parecem ter um abismo entre si. O segundo traz a França do ódio, da xenofobia, da intolerância e das tradições que não parecem mais caber no mundo moderno. O primeiro representa todo um multiculturalismo que ferve em suas cores, em suas crenças, em seus sonhos — e um bicampeonato mundial de futebol.

Le Pen nasceu La Trinité sur-Mer em 1928 e viu seu pai morrer na Segunda Guerra Mundial em 1942. Enquanto estudava direito em Paris, começou a vender nas ruas um jornal monarquista chamado “Action Française”. Desde sempre, esteve ligado às ideias de extrema-direita, buscando restaurar um país que já naquela época não existia. Em 1965, dirigiu a campanha para presidente de Jean-Louis Tixier-Vignancour, que defendia o período colaboracionista da guerra e tinha sérias inclinações nazistas.

Mbappé é fruto de outra época. Sua mãe é argelina e seu pai é camaronês. Ele nasceu, sim, na França. Mais precisamente, em Bondy, um subúrbio parisiense cheio de imigrantes e de negros, onde nem mesmo o metrô chega (apenas um outro tipo de trem) e o crime é uma das principais formas de sobrevivência. Dificilmente ele teria grandes oportunidades para vencer na vida se não possuísse um talento muito diferenciado com a bola dos pés.

Mas quem teve passagens pela polícia foi Le Pen, condenado por agressão ainda na juventude — costumava se envolver em brigas de rua contra membros da esquerda. Mais tarde, passou a ser figura carimbada nas eleições presidenciais como uma figura caricata que tinha como principal discurso o ódio aos imigrantes, aos homossexuais e a todos os setores da sociedade que não são “tradicionalmente franceses”. Seu maior sucesso foi uma ida ao segundo turno em 2002, quando sofreu uma esmagadora derrota para Jacques Chirac — 18% dos votos válidos diante de 82% do adversário.

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Quatro anos antes disso, a França vencia a Copa do Mundo pela primeira vez. O principal jogador daquele time era Zinedine Zidane, um dos maiores jogadores de futebol da história. Branco, mas filho de argelinos, nascido em um subúrbio de Marseille tão complicado como Bondy. Aquele elenco de 1998 dos Les Bleus chegou a ser apelidado de “brancos, pretos e árabes”, já trazendo uma enorme diversidade cultural e étnica. Havia no elenco desde franceses vistos como “puros”, como Didier Deschamps, a africanos como Marcel Desailly, nascido em Gana. Ah, mais uma coisa acontecia em 1998 — a chegada ao mundo de Kylian Mbappé.

O político Le Pen já fazia de seu discurso de ódio uma metralhadora na época e declarou que “aquela seleção não representa a França. Não são franceses, alguns parecem nem saber cantar o hino. Eles não são um retrato desse país”. Mais polêmicas surgiriam como falas homofóbicas e negações do holocausto, mas seu partido, o National Front, continua até hoje alcançando votações expressivas. Hoje, ele é encabeçado pela filha de Jean-Marie, Marine Le Pen — que nas últimas eleições, em 2017, repetiu o feito do pai e chegou ao segundo turno — mais uma vez perdendo por ampla margem.

É verdade que Marine tem posicionamentos mais liberais que Jean-Marie: já se disse a favor da união civil homossexual e do aborto em alguns casos. Ainda assim, sua principal bandeira continua sendo o combate à imigração (especialmente de países islâmicos). O National Front vive de xenofobia e a França é um país que tem dificuldades com estrangeiros. Se você já visitou o país, provavelmente sabe da dificuldade para se comunicar em inglês nas ruas — muitos acreditam que é sua obrigação saber falar francês.

Em qualquer lugar do planeta, o futebol é responsável por unir a população, por alegrar todas as camadas da sociedade, por dar esperanças para os mais pobres. Em 2018, mais uma vez a seleção francesa chegou à Copa do Mundo sendo multicultural, como já falei nesse outro texto. Do goleiro Hugo Lloris, filho de um rico banqueiro de Monte Carlo, a Mbappé, esse panorama social do país é representado perfeitamente. Com as engrenagens também sendo movidas pelos filhos dos imigrantes.

O pulmão do meio-campo francês é formado por N’Golo Kanté, que aos sete anos de idade catava lixo nas ruas com seu pai, um imigrante de Mali, enquanto acontecia a final de 1998, e Paul Pogba, filho de guineenses. Desse time titular, apenas um atleta não é nascido na França — Samuel Umtiti, camaronês, autor do gol da vitória sobre a Bélgica na semi-final.

Pouco depois do gol de Umtiti, Marine Le Pen usou o Twitter para parabenizar a seleção francesa pela vitória. Mais uma vez, tentando amenizar o discurso de seu pai. Sofreu uma enxurrada de críticas — essa França campeã não é o país que ela quer. Se fosse pelas suas ideias, haveria apenas Lloris, Pavard, Giroud e talvez Griezmann (de ascendência portuguesa e alemã) do time campeão. Não haveria Umtiti, com certeza. Nem Mbappé, nem Kanté, nem Pogba. A festa desse domingo aconteceria em outro lugar do mundo.

A França venceu a sua segunda Copa do Mundo e Mbappé, um jovem de 19 anos, quebrou diversas marcas. Igualou-se a Pelé como o único menor de 20 anos a marcar dois gols em um jogo de mundial e, mais tarde, a marcar em uma final. Os Le Pen tem um título sendo esfregado em suas caras. A extrema direita xenófoba vê a periferia comemorar, os lugares onde o metrô não chega entrarem em festa — a mesma festa da Champs Elysèes. Negros e brancos, católicos e muçulmanos carregam a bandeira francesa. Essa glória é dos franceses, mas de todos os franceses, não só aqueles que uma parcela constantemente derrotada da população julga ser digna de receber esse gentílico.

Lá em Moscou, Yeo Moriba, uma mulher nascida em Guiné, mãe de Paul Pogba, levanta a taça do mundo. Dizem que só os campeões e os chefes de estado tem esse direito, mas ela representa toda a força do sangue imigrante que ergueu a França ao quebrar as regras. Enquanto isso, na festa de Paris, muitas crianças negras de sete anos devem estar catando lixo nas ruas e sonhando um dia ser N’Golo Kanté — a desigualdade ainda é imensa, mas nesse domingo a França de Mbappé goleou a França de Le Pen.

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Carlos Massari

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Jornalista, roteirista, escritor. Falo aqui sobre cinema e os esportes que não falo em outros lugares.

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