A história do Rio e as suas histórias

Um outro lado da historiografia do Rio de Janeiro através do olhar literário de Nei Lopes, Alberto Mussa e Luiz Antônio Simas

Revista Subjetiva
Sep 2 · 4 min read
Luis Antonio Simas, Rosa Maria Barboza de Araújo, Alberto Mussa e Nei Lopes / Foto: Revista Subjetiva.

A literatura brasileira escrita pela elite tem a sua importância porque a mesma capta o ethos da dominação de uma perspectiva que só quem possui privilégios pode acessar. Entretanto, mais importante do que a literatura escrita pela elite, é justamente a que é escrita pelas classes que resistem a dominação há séculos a fio. O encontro entre o trio de ouro da literatura, como os nomeia Rosa Barboza de Araújo, composto por Nei Lopes, Luiz Antônio Simas e Alberto Mussa ocorreu na XIX Bienal Internacional do Livro que ocorre no Rio de Janeiro entre os dias 31 de agosto e 8 de setembro do ano corrente.

A proposta da mesa que recebe o mesmo título desta matéria foi mais do que revisitar obras já conhecidas do grande público, mas sim buscar construir um olhar em comum sobre aqueles que foram omitidos, embranquecidos ou até violentados pela história. O ditado popular diz que a história é sempre contada e ditada pelos vencedores, entretanto, aqueles cujo estigma de vencidos recai sobre eles contrasta a versão oficial trazendo uma perspectiva mais fidedigna aos fatos históricos.

“Porque o mito?”, pergunta Rosa de Araújo para o autor Alberto Mussa, que responde rapidamente que o mito “é a forma mais perfeita de expressão literária que existe”. O autor reitera dizendo que o mito é uma linguagem universal pois todo grupo cultural possui seus mitos. O autor data a criação do mito entre 200 e 150 a.C.

Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas, no Bar Banda da Praça Afonso Pena, na Tijuca Foto: Agência O Globo

Ainda sobre mitos, a mediadora pergunta a Luiz Antônio Simas sobre seu livro escrito com Nei Lopes, cujo título é “Dicionário da história social do samba”. O autor responde que o seu companheiro de escrita, Nei Lopes, é o verdadeiro dicionário do samba e que possui as três características fundamentais para ocupar este cargo: a vivência do samba por ser um sambista; a reflexão dessa vivência; e a produção sobre essa vivência. Para Simas, o samba “é um complexo cultural, enquanto samba existem modos de vida. Dentro do samba existem formas de se relacionar com a vida e com a morte”.

O autor de “O corpo encantado das ruas” conta sobre o dia em que perguntaram ao gênio do samba, Cartola, de onde o mesmo vinha, que respondeu sabiamente dizendo que vinha da Mangueira — uma escola de samba tradicional do Rio de Janeiro. Para Simas, Cartola ao responder que vinha da sua escola de samba estaria dizendo que “Mangueira representa para cartola a reconstrução do laço de sociabilidade… como você consegue criar beleza num lugar precário”.

Após a potente resposta de Simas sobre o livro escrito em conjunto com Nei Lopes, a mediadora Rosa de Araújo pede para Nei falar sobre seu mais recente livro: “O preto que falava iídiche”, publicado pela Editora Record. O autor conta que o olhar que recai sobre a Praça XV é apenas através da perspectiva dos afro brasileiros ali presentes, entretanto, ele [Nei Lopes] conta que havia uma forte aglomeração de judeus no local, e que havia o encontro dos judeus, geralmente comerciantes, com os afro-brasileiros, trabalhadores, ali naquele local. A história de “O preto que falava iídiche” retrata a história de um jovem rapaz que trabalhou durante muito tempo com alguns comerciantes judeus ali na Praça XV e que aprendeu, com estes, a falar iídiche, um dialeto judeu. A história, segundo Nei Lopes, é divertida e salpicada de elementos de realidade, se passando em uma saga de 20/30 anos e que mostra um lado importante da história do Brasil, da comunidade afro-brasileira e judaica.

O autor de “Nas águas desta baía há muito tempo” conta que está criando uma literatura que tem uma característica fundamental: dar protagonismo a cultura afrodescendente. Ele [Nei Lopes] conta que é filho de um homem do Século XIX que nasceu antes da abolição da escravatura e de uma mãe que nasceu no último ano do Século XIX, 1899. Para ele, escrever literatura sobre esta perspectiva é reverenciar a ancestralidade de seus pais que o dá “muita força e muita alegria”.

Nei Lopes, autor de ‘Nas águas desta baía há muito tempo’ Foto: Ana Branco / O Globo

Rosa Maria Barboza de Araújo volta a Simas e o pergunta porque o mesmo é considerado o branco mais preto do Rio de Janeiro e o autor de “Coisas nossas” responde rapidamente dizendo que o branco nunca vai ter a experiência do brasileiro, pois o Rio de Janeiro é uma cidade que foi civilizada por negros. Segundo Simas, existe um racismo estrutural que sempre deu a ele a proteção da cor da pele, colocando-o em um lugar de privilégio, sendo que “o que me cabe é pensar o racismo a partir do meu privilégio de branquitude”.

O Rio de Janeiro, para o autor de “Pedrinhas Miudinhas”, é uma cidade que não existe sem a presença africana, tornando-se uma cidade vazia. O autor finaliza com a potente fala:

Eu não sou o branco mais negro do Rio de Janeiro. Eu sou o branco que vivo o privilégio de ser branco e penso esse privilégio para repensar o complexo criado que é senso de superioridade.

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