A importância da amizade em “Serafina e a capa preta”

Carol Vidal
Aug 31, 2018 · 4 min read
Foto: Carol Vidal

As relações humanas são parte fundamental da nossa formação enquanto indivíduos. Toda a nossa organização social nos leva a ter contato com outras pessoas, sejam elas afins ou não com nossa visão de mundo. Em “Serafina e a capa preta” (Editora Valentina; tradução de Maria Carmelita Dias), Robert Beatty apresenta ao leitor as descobertas, pelo olhar inocente da jovem protagonista, do manancial de complexidade que envolve a convivência.

Serafina tem 12 anos e mora com o pai no porão de uma grande mansão, onde ele trabalha como responsável pela manutenção das máquinas. Sem saber os motivos, a menina vive isolada do mundo e ninguém sabe da sua existência, nem mesmo que ela e o pai moram naquele local. Como a menina cresceu tendo apenas o pai para se relacionar, ela não tem prática e pouco entende como funcionam as trocas entre as pessoas. Todo o conhecimento que adquiriu vem da observação dos habitantes da mansão e dos livros que pega escondido na biblioteca.

Por meio da peregrinação da menina pela propriedade, o leitor acompanha o dia a dia de uma pequena sociedade abastada composta pelos donos da casa e seus hóspedes. A todo momento, é mostrado como Serafina está fora desse meio, mesmo dividindo o mesmo espaço físico que todas aquelas pessoas. Ela tenta aprender gestos e comportamentos, sonhando em um dia fazer parte daquele mundo de maneira direta e não precisar mais inventar amigos para aplacar a solidão.

Serafina traz em si uma inocência quase selvagem, e para dar ainda mais dimensão a essa natureza da protagonista, ela possui habilidades que outras crianças (ou mesmo adultos) não têm, como boa visão noturna e a capacidade de se esconder e passar despercebida. Serafina vê, mas não é vista. Seu maior sonho é ter um amigo.

A protagonista, mesmo se vendo como diferente dos demais, uma pária, tem em si um desejo comum a todos: pertencer. E ela vê essa oportunidade quando conhece Braeden Vanderbilt, o jovem sobrinho dos donos da mansão, e juntos vão investigar o misterioso desaparecimento de crianças, filhos de hóspedes e funcionários da mansão Biltmore. Essa missão dá a Serafina a oportunidade de se sentir útil, para além do trabalho de Caçadora Oficial de Ratos, atividade que ninguém sabe que existe.

Em relação à ambientação da obra, o ponto forte é a floresta que cerca a mansão, um local cheio de mistérios que têm a ver com a trama principal. As cenas de ação mais bem construídas do livro são as que se passam nesse cenário, que serve ao propósito da história dando o caráter sobrenatural na medida certa.

O mistério que move a trama — as crianças desaparecidas — que deveria ser o ponto alto, é onde moram os maiores problemas do livro. Especialmente nos primeiros capítulos, quando o conflito está sendo apresentado e Serafina testemunha o desaparecimento de uma das crianças, a narrativa é quebrada diversas vezes para serem inseridos parágrafos explicativos sobre algum elemento anterior ao início da história. As informações em si são importantes, mas da forma como são colocadas, quebrando o ritmo de tensão que está sendo criado, enfraquece a sensação de urgência que se tenta passar ao leitor.

Passado esse momento inicial, a trama ganha mais fôlego e segue de maneira mais fluida, especialmente quando investe na construção da relação entre Serafina e Braeden. Nesse sentido, é interessante a forma como o autor aborda a questão da diferença entre as pessoas, não necessariamente como algo ruim, mas o que faz cada um ser único. Essa constatação é um importante passo para a formação da autoestima de Serafina, a partir do momento em que a menina passar a aceitar suas particularidades como parte de quem ela é, e certamente tocará os leitores que estiverem também passando por essa fase.

Além do mais, é reforçada a importância das escolhas que se faz na vida, uma vez que não se nasce bom ou mal. E esse é um conflito que Serafina enfrenta ao longo do livro conforme vai descobrindo fatos sobre o seu passado e entendendo as ações que o pai tomou, mesmo que não concorde com elas. Enquanto a história avança, ela vai ganhando a confiança de escolher quem ela quer ser, independente das circunstâncias que envolvam seu presente ou seu passado.

“Serafina e a capa preta”, apesar de ser o primeiro livro de uma trilogia, funciona como uma história fechada. Alguns pontos ficam em aberto para servirem de gancho para as continuações, e outros foram abandonados pelo meio do livro, restando esperar pelos próximos para saber se serão retomados. Apesar de pecar no ritmo em algumas partes, o livro traz uma bonita mensagem da importância da amizade e do respeito às diferenças, temas essenciais para pessoas de todas as idades.


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Carol Vidal

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Escritora fã das artes que tocam a alma e resenhista da Revista Subjetiva. Newsletter: tinyletter.com/carolvidal_

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