A Importância dos Textos Incompartilháveis

Ao longe vejo alguém cavando a própria cova. Enquanto cava, esquece o motivo, o externo. Apenas continua, cada vez mais violentamente, de forma que já não importa a profundidade ou o formato, nem as roupas, as unhas, a garganta, a poeira nos olhos. Ao redor um enorme deserto, imensidão que oprime. Muito vento. Quando seus movimentos já não eram mais do que pancadas na areia e a cor de suas roupas tornara-se indistinguível, lançou a pá no ar, indiferente quanto ao local da queda. Engoliu e se deu conta da aridez da garganta. Seria confundido com uma estátua de areia, não fosse o movimento do peito denunciando sua humanidade.

Conforme cava, exorciza-se de si mesmo, daquela sua parte que sucumbe. E quando os músculos relaxam e o ritmo cardíaco se estabiliza, a excitação e a certeza dão lugar à dúvida e à ponderação. Encarou o buraco, sem decidir se o que sentia era vergonha ou êxtase – uma confusão psicológica típica de um ex-cristão que falha sucessivamente em reelaborar suas noções de moralidade. Passada a fúria, a cova nada mais é do que a carta de suicídio de quem nunca partiu; nada mais que um lembrete de todo aquele drama cujo motivo é apenas um borrão, uma lembrança vaga. “O que é mais ridículo”, ele se pergunta, “abrir a cova ou deixá-la para trás?” É possível que quando o próximo clímax se anuncie tudo aquilo volte a fazer sentido: o desespero, a certeza, o esgotamento, cada impacto da pá no solo… Ainda assim a cova permaneceria inútil. Porque nunca se tratou da cova. Foi sempre o ato – a necessidade! – de cavar.


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