A imposição da heteronormatividade na vida de uma mulher

Eu demorei a aceitar que sentia atração por mulheres. Demorei a ficar com uma mulher, e hoje, quando comento com amigos que vejo de vez em quando, escuto um alto e claro “pô, eu já sabia guria”. Eu dou risada, mas penso que se era tão óbvio, porque eu demorei a aceitar isso? A resposta é bem simples. Eu cresci dentro de uma heteronormatividade pesada.

Eu fui criada para gostar de homens. Para me imaginar em um relacionamento hétero. Para condicionar meu amor e atração a um ser do sexo masculino. Para sonhar com um casamento, um marido amoroso, filhos e uma casa bonita. Eu fui condicionada a ter uma vida dentro dos padrões sociais estabelecidos a uma mulher.

Mas pulei para fora desse barco patriarcal no qual as pessoas ainda tentam enfiar a nós, mulheres. E de muitas maneiras, eu me libertei.

Mas a minha sexualidade só foi algo que eu passei a tentar libertar há menos de dois anos. Passei a tentar me entender, do que eu gostava, o que eu queria. E descobri gostar de mulheres. Mas eu também gosto de homens. Eu sei que não sou uma bi 50/50. Eu gosto mais de homens do que de mulheres. E talvez, para muitos, eu não passe de uma hétero com curiosidade. Mas eu não estou confusa, passando por uma fase ou buscando experiências. Eu gosto de homens e gosto de mulheres, e por definição, eu sou bissexual.

Mas eu simplesmente não me vejo tendo uma relação com uma mulher. Nas vezes em que eu realmente fiquei a fim de uma garota e pensei que poderia dar certo, eu fugi. Fugi porque eu não acreditava que pudesse ir para frente. Eu não conseguiria. Porque todo o meu consciente foi moldado para rejeitar uma relação com uma mulher.

Eu ainda não consegui destruir a heteronormatividade no qual a minha criação foi moldada. Meus amigos aceitariam. Minha mãe aceitaria. Meu pai estranharia, mas eu acredito que não teria muitos problemas. Minha família não seria um problema. Nada a minha volta me traria problemas se eu entrasse em uma relação com uma mulher.

Porque na minha cabeça, eu só conseguiria ter uma relação séria com um homem. Porque é isso que a sociedade espera de mim. Foi para isso que meus pais me criaram: para namorar homens. Casar com homens. Amar homens.

E o simples fato de eu também gostar de mulheres, aceitar isso e me amar assim, já é uma quebra dessa imposição. Eu não deixo de ficar com mulheres e conhecer romanticamente mulheres. Mas eu não consigo me ver em um relacionamento com uma mulher.

Eu sou uma romântica e admito isso. E há muito tempo eu não tenho um relacionamento legal. Então eu espero e crio esperanças com isso. Mas todas essas expectativas são baseadas em um relacionamento com um homem. Porque eu ainda não consegui me libertar da imposição heteronormativa na qual eu fui criada.

E eu não me sinto hipócrita por pregar discursos de libertação e não ter conseguido libertar a mim mesma. Porque eu sei que a culpa não é minha. Por mais que eu tente destruir essas barreiras, uma a uma, com muito esforço, eu não posso conter as imposições que me foram, e ainda são, enfiadas garganta abaixo, todos os dias.

Esse texto, infelizmente, não trata da minha maravilhosa jornada e conquista da destruição das normas patriarcais nas quais eu fui criada. Não trata da minha maravilhosa libertação. Se trata do entendimento daquilo que ainda me prende. Minha sexualidade ainda é refém, e só cabe a mim buscar as chaves para a minha libertação.

E no fim, não importa se eu vou acabar tendo relações com homens ou mulheres. O que vai importar mesmo é se eu vou estar feliz comigo mesma. Se vou me aceitar e me amar do jeito que eu sou. E por ora, eu estou fazendo isso.


P.S: esse texto é mais um desabafo do que qualquer outra coisa. E talvez ele não faça sentido em algumas partes e não me importo. Foi um alívio colocar isso para fora.



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