“A internet democratizou a poesia e aproximou um e outro [autor e o leitor]”

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Saulo Pessato é professor de Língua Portuguesa, formado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas; escritor e fundador do projeto Poesia Reclamada; autor do livro “Poesia Reclamada no Jardim das Borboletas”.


Redação Subjetiva: Você aposta na Internet como uma forma de divulgar o seu trabalho. Você acredita que é possível criar um vínculo significativo com um autor sem ele [o vínculo] ter sido estabelecido pessoalmente?

Saulo Pessato: Certamente. Não apenas por meio das redes sociais, fanpages,etc. mas mesmo as revistas online, ainda que não apresente o rosto e o cotidiano do autor, aproxima-o de seu público. Basta que este aprecie seu trabalho, seu estilo e se interesse por acompanhar suas publicações.

Você acredita que a divulgação de grandes poetas em redes sociais e seus milhares de seguidores faz com que o mercado editorial, que antes negava a poesia, hoje abra as portas para a mesma? Até que ponto você acredita que as redes sociais ajudam aos poetas e ao mercado editorial de poesia, especificamente?

É uma questão abrangente. A própria palavra “mercado” implica certos conceitos que me parecem preocupantes quando o assunto é arte. Por um lado, temos grande editoras e livrarias interessadas predominantemente no que vende, isto é, no lucro. Este lado da moeda acaba escolhendo vender quem faz sucesso, quem está em alta, o que acaba não favorecendo muito um artista que tenha um trabalho de qualidade, mas não tenha muitos seguidores. Além disso, no mesmo momento em que a internet trouxe para as editoras um novo nicho de vendas, o do autor virtual, multiplicou-se o interesse pelo gênero das biografias, desta vez alcançando um novo tipo de celebridade, como os youtubers, por exemplo. Isso significa que a oferta de produtos editoriais também aumentou, o que pode não ser uma coisa ruim para o mercado, mas também não tornou as coisas tão fáceis para o autor.

Por outro lado, a aproximação entre o leitor e escritor abriu novas portas para a realização de um livro, como o financiamento coletivo, por exemplo, que viabiliza a publicação independente com o apoio dos próprios leitores. Além disso, há as editoras menores, também, que se utilizam das redes sociais para ampliar seu alcance e ganhar visibilidade. São elas que acabam absorvendo outros poetas. Portanto, acho que podemos ver a relação entre redes sociais e poetas com saldo positivo quando falamos em mercado editorial.

Ano passado, em dezembro, perdemos Ferreira Gullar. Muitos dizem que este foi o último grande poeta brasileiro. Para você, ainda haverá novos grandes poetas brasileiros?

Sem dúvidas! O epíteto é um epitáfio da mídia para celebrar a morte de um poeta grandioso, mas ainda temos, vivos, muitos grandes poetas, algum deles tão importantes quanto Gullar. Como Augusto de Campos, que é um dos pais do concretismo e teve inclusive algumas contendas literárias com ele, mas não está tão na mídia atualmente. A arte não para. Ainda veremos grandes nomes, muitos deles certamente já germinam por aí internet adentro e afora.

Você acredita que hoje, com a popularização da Internet, o público que lê poesia mudou?

O que mudou foi a relação entre o autor e o leitor. A internet democratizou a poesia e aproximou um e outro. Acredito, sim, que a internet contribuiu muito com o gosto pela leitura. Não tenho a menor dúvida de que muita gente que estava longe das livrarias e bibliotecas provavelmente passou a entrar nelas depois de se interessar por alguém que postava seus poemas nas redes sociais.

Você já lançou um livro. Conte-nos como foi o processo de lançamento, desde a ideia da publicação, ao surgimento do projeto do livro, até o lançamento oficial.

Não estava correndo atrás de publicar naquele momento. Estava satisfeito com o alcance dos textos online e com o feedback que as redes sociais me proporcionavam. Não que não desejasse. É claro que todo autor que escreve deseja ter seu livro. Entretanto, estava de mudança para a Itália e não pretendia voltar tão logo, portanto não poderia me envolver com esse compromisso naquele momento. Acontece que uma agente literária, hoje grande amiga, que aprecia meus escritos, queria muito me publicar. Ela trabalhava numa editora e estava intermediando a negociação de meu primeiro livro, mas a proprietária da empresa faleceu e a editora fechou. Então, partimos para a publicação independente. Fizemos um crowdfunding e os meus leitores se engajaram nas doações. Em pouco tempo o livro estava pronto.

Vimos também que você está elaborando o segundo livro, de poesia erótica. Já existe previsão para o lançamento? O que você pode nos contar sobre essa segunda publicação?

Por incrível que pareça, o tema foi escolhido por votação na minha página. Digo “por incrível que pareça” porque o erotismo ainda é um tabu na poesia. Toda vez que dedico um dia para publicar poemas deste teor, percebo que muitos seguidores descurtem a página e deixam de me seguir. Fiquei surpreso com o resultado da enquete, mas votação vencida é assunto decidido. O livro terá cerca de 150 poemas eróticos e pornoeróticos de assuntos variados, focados na pluralidade de gêneros e sexualidades, mas ao contrário do primeiro livro, terá pelo menos 20 poemas completamente inéditos não publicados nas redes sociais. Do ponto de vista formal, sigo o modelo do primeiro livro, com estruturas variadas, formas fixas e livres, clássicas e modernas, que é o meu estilo.

Seus leitores contam com a possibilidade de conteúdo exclusivo, por meio de uma assinatura em seu site. Como surgiu a ideia de enviar esse conteúdo e como você gerencia essas assinaturas?

Essa ideia partiu do grupo que estava gerenciando as vendas online. Estavam eles responsáveis por gerenciar a entrega do material que eu apenas lhes enviava: declamações, explicação de textos, vídeos inéditos, o grupo VIP tinha como propósito oferecer algo que o assinante da página não tinha. Contudo, agora estou trocando de equipe e ainda não decidi se manterei o grupo VIP. Mas vem novidade por aí.

Sabemos que você é professor e que o ensino no Brasil possui deficiências em todas as áreas. Em relação ao ensino de literatura, o que você acha que poderia melhorar? E, para você, qual a importância de se ensinar literatura no nosso país?

Além das deficiências óbvias de que todos temos conhecimento, no que se refere ao valor que se dá à profissão de professor no Brasil, penso que ensinar Literatura para realizar uma prova, um exame nacional, desembeleza muito o seu aprendizado. Desembeleza porque formata e engessa algo que foi feito para ser apreciado, porque é arte, e não para ser um instrumento de punição e classificação. A Literatura é importante porque é a história da nossa língua contata através do tempo de nossa própria história. Artisticamente!