A pimenta e o refresco

Qual nome você dá ao seu preconceito?

Mercado de esclavos con el busto de Voltaire desapariciendo — Salvador Dalí (1940)

A cápsula hipócrita e fraudulenta: Faça o que eu digo e não faça o que eu faço.


Pregar um mundo mais bonito, mais florido, cheio de margaridas e onde todos nos aceitamos com nossas diferenças que culturalmente só podem agregar conhecimento, do jeito que der e do jeito que vier, é muito bom e eu faço todo dia. Prego. Nem sempre aplico.

A generalização superficial e o esteriótipo institucionalizado, que traz consigo o desconforto de um piso em falso, sem muletas para se agarrar, é tido como verdade inefável e absoluta. A ética, ensina que o preconceito não passa de um erro que mora dentro do domínio da crença e não do conhecimento. Ou seja, sua base é irracional e por isso, pouco se fundamenta em algum argumento plausível.

Então, me pergunto: Nós, seres inteligentes, homo sapiens sapiens, dotados da suprema e inabalável capacidade da racionalização, enfim, conscientes de tal ato estapafúrdio, por que não simplesmente mandamos essa miserável crença pra casa do caralho, com neandertal pra bater com a cabeça? Era a evolução!

Cheguei à conclusão de que a onda da desconstrução é pra surfista que realmente se amarra nessa praia, vive a própria vibe, e não pra quem só toma caldo. Eu mesma, vira e mexe me esqueço como é que se sobe nessa prancha. Meio perdida e meio afogada, sigo pagando mico no mundo globalizado. Meu novo debate, é com os meus preconceitos e começa a partir do momento no qual, eles se apresentam como intolerância camuflada e podem facilmente passar despercebidos, sem sinal de alerta. Ladeira abaixo pra que as ofensas dominem o jogo. Cara, é difícil a beça se desprender dos ideais formatados, mesmo aqueles que não tem nada a ver com sociedade ou cultura, provém da minha própria esquisitice. Acho que não tô sozinha nessa onda.

Talvez eu tenha passado mais tempo no meu mundo encantado, do que inserida no mundo real. Talvez, e não há nenhum mérito em reconhecer, nem sempre eu consigo aceitar as pessoas como elas são. Talvez eu tenha sido mesmo abduzida pelo algoritmo da bolha, onde o outsider não tem vez. A lobotomia do século: De longe, o que é me é diferente traduz a própria beleza. De perto, feio me parece ser.

Minha terapeuta (quando eu tinha uma) sempre me dizia que, quando nos deparamos com alguém que nos incomoda muito, é porque estamos também nos deparando com um lado nosso que não queremos ver. Uma parada de reflexo, saca? É tipo aquele garoto que você diz que nunca se apaixonaria e acaba morrendo de amores. Tipo aquela fruta que sua mãe insistia pra você provar e de tanto revirar o estômago, você gostou. Tipo a música que não sai do rádio e mesmo tapando os ouvidos, você se pega cantando. Tipo a moda que você diz que não vai entrar, tipo o jeans que você diz que não vai usar. E de repente tá lá, no meio da arquibancada. O jamais, também conhecido como “Deus me livre”, que passa a pode ser e de repente é.

Só que esse tal de cuspir pra cima pra cair na testa, pode muito bem ser aquele cara lá, o preconceito camuflado, ou mascarado, ou só travestido sem nem um pouco de Glitter. Não cola mais disfarçar intolerância com ponto de vista. Não é uma questão de opinião e não tá tudo bem. Não rola né, parceiro?!

Hoje, mais do que nunca, a palavra é empatia e deveria ser a nova tatuagem que todos querem ter, pra ver se gruda de vez inclusive na minha própria cabeça. Falta a inocência de abrir a porta e enxergar sem medo do confronto com a nudez mútua. Falta levantar a bandeira de verdade e deixar a armadura de lado, junto com a espada e o olho clínico do julgamento, sabe?

Eu aprendi com as manas o que é sororidade. Vi o arco-íris ter visibilidade em seriado de conexão mundial. Vejo todo dia, apesar de todo o auê, da cara feia e das hipocrisias nonsense, as minorias ganhando cada vez mais voz. E quando, meio sem querer e querendo partir pro outro plano, eu me pego sentenciando alguém, só porque não é da minha trupe, nessa hora, é da pimenta e do refresco que eu me lembro, junto com toda essa galera aí de cima. O mundo dos diversos tem espaço pra todo mundo se encontrar, só não tem espaço pra turminha cagona e segregadora. O outro sempre tem algo a oferecer e não dá pra jogar no alguém no vácuo, só por ser diferente.

Adeusinho, paradigma. Nesse corpo você não gruda mais.


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