“A redoma de vidro” e as dores do crescimento | #LeiaComASubjetiva

Foto: Carol Vidal

Ser e estar no mundo não é uma tarefa fácil. São muitas pressões, cobranças e expectativas depositadas no que acredita-se ser o ideal. Papéis sociais são definidos com base no que espera-se de homens e mulheres, sem levar em conta a individualidade e os desejos de cada um. Se falarmos, então, em uma sociedade pré-revolução sexual feminina, a coisa é muito mais grave.

É nesse contexto que acontece a história de Esther Greenwood, protagonista do livro “A redoma de vidro”, único romance publicado pela poeta Sylvia Plath. A obra foi lançada originalmente em 1963 e a edição brasileira mais recente é de 2014, da Biblioteca Azul, com tradução de Chico Mattoso.

Esther é uma jovem de 19 anos, universitária dedicada aos estudos e premiada por sua produção, que consegue um estágio em uma revista feminina em Nova York durante as férias de verão. Em meio a eventos sociais e muito glamour, uma crise se avizinha e a moça acaba em uma clínica psiquiátrica.

Apesar de já estar explícito na sinopse do livro, a internação da protagonista só acontece na segunda metade do livro, dando tempo para que a história seja desenvolvida com calma. Narrada em primeira pessoa, a trama alterna entre acontecimentos do presente e lembranças do passado. Não há um gatilho claro para a crise depressiva da personagem, uma vez que ela vai sendo construída nos detalhes. Enquanto conhecemos mais da personalidade de Esther e sua maneira de ver o mundo, vai ficando clara a dificuldade que a personagem tem de se relacionar verdadeiramente com o ambiente que a cerca. Conforme avançamos na leitura, ficam claras duas questões que são primordiais para a protagonista: a pureza e o futuro.

“Me sentia muito calma e muito vazia, do jeito que o olho de um tornado deve se sentir, movendo-se pacatamente em meio ao turbilhão que o rodeia.”

Como dito acima, o livro se passa em uma época pré-revolução sexual, o que deixa ainda mais evidente a valorização do ideal da mulher pura, virgem, intocada. Esther, por isso, narra as dificuldades que enfrenta de “aproveitar a vida”. É como se ela sempre precisasse “se limpar” das “sujeiras do mundo” para se manter pura, mas, ao fazer isso, sobra apenas o vazio e o silêncio. Em diversas passagens do livro, a personagem se mostra incomodada por achar que não está aproveitando tudo o que poderia da oportunidade de estar em Nova York, um grande feito para uma moça criada no interior de Boston.

Outro tema trazido pelas divagações da protagonista é o papel que a mulher deve exercer. Esther é inteligente, tem ideias e parecia certa de que queria ser uma escritora. Porém, ao ser questionada por sua chefe o que espera do futuro depois de terminar a faculdade, sua resposta resume-se em duas palavras que a surpreendem ao serem proferidas sem nem pestanejar: “não sei”. Ao mesmo tempo em que ela rejeita um futuro que envolva casamento, filhos e cuidar da casa, a personagem não tem mais convicção do que pretende fazer da vida, dúvida que surge de forma mais profunda quando ela, ao voltar pra casa depois do fim do estágio, descobre que não foi aceita na oficina de escrita que havia feito inscrição.

Ao longo da história, fica claro que Esther quer mais, quer ir além, o que gera angústia. No entanto, o mais interessante desse livro é que ele não dá respostas ou chega a conclusões, mas apresenta as informações para que o leitor ligue os pontos e entenda de forma particular os motivos que levaram à crise da protagonista. Isso fica ainda mais evidente quando a autora toma a decisão de não voltar a narrativa ao passado a partir do momento que Esther volta para casa, tenta o suicídio e é internada. Os fatos foram apresentados e cabe a cada um tirar as próprias conclusões.

A parte do livro que narra a crise depressiva é bem angustiante e eu demorei um tempo para digerir e conseguir retomar a leitura. Não há meias palavras: está ali escancarado tudo o que se passa na cabeça da protagonista. E, como boa parte da obra se passa dentro de clínicas psiquiátricas, temos a visão do tratamento precário da época para doenças mentais, que consistia em longos períodos de internação e terapia de choque. Em diversas passagens, fica claro o tratamento desumano que as internas recebem, especialmente nas clínicas públicas.

“Eu não tinha certeza de nada. Como eu poderia saber se um dia — na faculdade, na Europa, em algum lugar, em qualquer lugar — a redoma de vidro não desceria novamente sobre mim, com suas distorções sufocantes?”

O final aberto foi uma decisão acertada, uma vez que a vida, muitas vezes, é uma incógnita. Não sabemos, como diz Esther, quando a redoma de vida que nos isola do mundo nos sufocará a ponto de não conseguirmos ver nada além. A história termina antes que Esther tenha alta da clínica, e o que se segue fica a cargo da imaginação de cada um.

“A redoma de vidro” traz à tona discussões importantes sobre as dores do amadurecimento. As escolhas que precisamos tomar já são difíceis por si só, mas podem piorar quando vivemos em uma sociedade que quer enquadrar as mulheres em um modelo imutável, como se só existisse um futuro possível. Porém, o livro vem nos lembrar que, apesar das dúvidas, há experiências além da nossa redoma e não precisamos nos privar delas em nome de um ideal imposto.