‘A sombra do Pai’: A masculinidade e o Medo

Em seu segundo longa a diretora Gabriela Amaral Almeida explora os medos da perda e da paternidade.

Fernanda Maria
Jun 6, 2019 · 4 min read

A diretora já vem deixando sua marca no ‘terror’ contemporâneo brasileiro. Com um estilo bastante único como em seus curta metragens ‘A mão que Afaga’ e ‘Estátua’, e seu primeiro longa ‘O Animal Cordial’. Ela apresenta uma nova forma de experimentar o medo no cinema.

‘A sombra do Pai’

Neste filme conta a história de um pai e uma filha que não conseguem lidar com a morte da mãe. Dalva (Nina Medeiros) tem 9 anos vê seu pai, o pedreiro Jorge (Júlio Machado), ser consumido pela tristeza. Ela acredita ter poderes sobrenaturais e ser capaz de trazer e quer com isso trazer a mãe de volta à vida.

A grande tragédia do filme, a morte da mãe, desencadeia uma série de eventos. Mais ligados a forma de enfrentarem o ocorrido do que o fato em si. A mulher da casa morre e outra a substitui, na figra da irmã de Júlio, Cristina (Luciana Paes). Até que ela se casa e vai embora e a partir dali mais problemas surgem. Um dos grandes medos do filme pode ser atribuído ao pai e sua falta de habilidade com o luto da sua família. Ele não consegue viver totalmente a tristeza de sua perda, que interfere em como vê e trata a da filha. Fazendo com que os dois mesmo vivendo a mesma dor, se sintam isolados.

À medida que pai se torna mais distante — e eventualmente perigoso –, a filha se vê mais sozinha sem saber como superar a perda da mãe. Durante todo o longa vemos o roteiro flertar com o místico. Nos dando indícios de que o sobrenatural está presente e rondando os personagens. Ao mesmo tempo que eles se agarram a esses elementos como forma de lidar com os desafios que enfrentam.

Um dos temas apontados pelo próprio ator e diretora em entrevistas de divulgação do filme é a masculinidade tóxica. O termo pode ser definido como: uma descrição estreita e repressiva da masculinidade que a designa como definida por violência, sexo, status e agressão, é o ideal cultural da masculinidade, onde a força é tudo, enquanto as emoções são uma fraqueza; sexo e brutalidade são padrões pelos quais os homens são avaliados, enquanto traços supostamente “femininos” — que podem variar de vulnerabilidade emocional a simplesmente não serem hipersexuais — são os meios pelos quais seu status como “homem” pode ser removido. Alguns do efeitos da masculinidade tóxica estão a supressão de sentimentos, encorajamento da violência, falta de incentivo em procurar ajuda, perpetuação da cultura do estupro, homofobia, misoginia. racismo e machismo.

Vamos acompanhando o pai lutar fisica e psicologicamente contra sua dor. Quando ele sofre um acidente de trabalho prefere não procurar tratamento médico, por exemplo. E a filha por mais que tente ajudar ainda é uma criança e não consegue fazer muito. Esse é o grande dilema entre os dois. A total falta de um lugar de cuidado em comum. Ambos precisam e querem se ajudar. Porém pra isso o pai deve se abrir para um lado seu o qual ele não se sente confortável. A fragilidade é vista por ele como algo distante que não consegue alcançar.

Dalva (Nina Medeiros) e Cristina (Luciana Paes)

A feminilidade, o místico e oculto estão juntos no enredo. Não é incomum ver essa associação do feminino com o sagrado. Em muitas famílias é a mãe que está mais próxima da religião e do culto e com isso incentiva a família. Aqui é na figura da tia que vemos esse arquétipo. Ela tem em si não apenas a religiosidade, mas também a superstição e não apenas acredita dos ‘poderes’ da menina como pede para usar eles quando precisa. Podemos ver isso como uma representação de seu lugar como mulher e sua feminilidade. E a forma como é negado pelo pai, com sua falta de habilidade para lidar com isso. Ele tem medo dos poderes dela e nega eles violentamente. Assim como nega seu sofrimento e prefere esconder e reprimir o que sente. E com isso toda a sua figura acaba sendo algo quase como um ser de outro mundo pra filha. Em ótimas cenas onde ela assiste filmes de terror na televisão sozinha ou com a tia, vamos entendendo que seu repertório de vida está muito mais ligado a fantasia do que a realidade.

Foi o jornalista Steven Rose no The Guardian que passou a usar o termo ‘Pós terror ‘ pra designar os filmes que veem subvertendo o gênero. Ao invés de ‘jump scares’ e criaturas assustadoras com um narrativa que segue um plano linear expositivo. O que temos visto são vários filmes que usam o terror como gênero ‘guarda-chuva’ para tratar de diferentes temas. Geralmente com o medo sendo mostrado de forma bem mais atmosférica com elementos mais subjetivos, e uma construção mais psicológica dos fatos.

Dalva (Nina Medeiros) e Jorge (Júlio Machado)

A fantasia pode ser uma ótima maneira de repensar a realidade. E olhando por essa perspectiva o terror parece uma progressão natural para a discussão de assuntos que ainda causam desconforto. Se avançamos em questões de feminismo, por exemplo, ainda é bastante desafiador definir nossas barreiras de gênero. Nada melhor então do que explorar esses conceitos através da arte de sentir medo.

Fernanda Maria

Written by

https://www.instagram.com/notasexpressas/

Revista Subjetiva

Tudo aquilo que você não encontra na grande mídia.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade