Afrofuturismo, Cyberfunk, Steamfunk, Sword & Soul: novos rótulos para velhas questões

Ou: um textão não-solicitado sobre rótulos e “cultura negra”

“Sword & Soul” — sim, é esse o nome dessa ilustração! by Mshindo Kuumba

A ideia de escrever este textão (kkkkkk) bateu quando fui marcado no post de um colega de profissão cuja dedicação ao ofício de escritor eu admiro bastante. No post, ele expressa sua admiração por esses novos rótulos e convoca outros colegas para debaterem sobre. E eu estava justamente num conflito pessoal com a rotulação sistemática que venho assistindo nos últimos tempos.

Rótulos em profusão. Rótulos rótulos rótulos…

Rótulos direcionam. Fazem compreender. Rótulos atraem. Você olha o rótulo num pote e já sabe do que se trata. Cria-se, constrói-se e se consome a partir do rótulo. A partir das fórmulas. Jogou na “mídia”, apareceu na rede social, todo mundo quer saber, quer conhecer, quer comprar, quer consumir o que todo mundo tá falando…

O que eu quero é uma outra coisa.

A tal “cultura negra” tá na moda! Teve série do Luke Cage, agora tá vindo filme do Pantera Negra. Série da Netflix com mulher preta protagonista. Um monte de gente falando de Orixá em rede social. Casal Lázaro Ramos & Taís Araújo sendo exaltados, capa de revistas. Aqui e ali, todo mundo falando que o “diferencial” deste e/ou daquele produto é a tal da “cultura negra”…

Nada mudou, na verdade.

Eu quero é várias cidades de Wakanda.

Os rótulos que dão nome a este texto: Afrofuturismo, Cyberfunk, Steamfunk, Sword & Soul. Parecem ser novos rótulos que vem despertando interessante nos amantes das literaturas fantásticas. Com a propagação e crescimento das pautas sociais nas mídias sociais — e a crescente polarização das posições políticas — a tal “cultura negra” vai despertando mais e mais interesse… para o bem ou para o mal. O “pessoal desconstruído” adora, o pessoal “cidadão de bem” parece detestar; enquanto aqueles procuram se sensibilizar com a “questão do negro”, estes proclamam que a “esquerda” quer criar “divisão entre as raças”.

Tudo muda, para que tudo permaneça como está… esses dois lados me irritam de forma igual, pois ambos contribuem para que a supremacia se perpetue…

Imagem muito bonita, porém que me remete demais a uma cristandade que não é africana.

Posso estar errado — não pretendo ser dono de verdade alguma além da minha própria. Mas a tamanha fascinação das pessoas brancas por esses rótulos me parece muito aquela lógica de zoológico, de rato de laboratório: “oh, nossa, olha esses pretinhos lindinhos nessa selva, olha essa cultura, é tudo tão exótico, olha que bonita essa espiritualidade, olha, olha…

Afrofuturismo, Cyberfunk, Steamfunk e Sword & Soul são rótulos cuja pretensão é uma releitura dos gêneros eurocêntricos equivalentes — (euro)futurismo, cyberpunk, steampunk e sword & sorcery — para uma leitura do ponto de vista das pessoas pretas, do ponto de vista das muitas culturas africanas espalhadas pelo mundo; a pretensão é estimular o fomento e criação de obras ficcionais e universos nos quais as pessoas pretas são o destaque, juntamente com as cosmologias, espiritualidades e imaginários de inspiração africana.

Pode ser. Pode ser o que você quiser.

“Querem criar divisões entre as raças!”; “Já tem heróis pretos por aí!”; “Somos todos iguais!”; blá blá blá etc.

É tudo muito lindo no papel; no entanto, é preciso ir além.

Sim, somos todos iguais. Sim, somos todos seres humanos. Um homem zulu pode ser mais próximo geneticamente de um homem nórdico do que de seus parentes de pele escura. Etc etc. Porém. Raça é um construto social. Etc. Porém. A noção fenotípica de raça continua perpetuando desigualdades e violências até hoje. Raça continua sendo o fator determinante de todas as relações humanas até hoje, superando gênero, sexualidade e tudo mais — e raça é justamente o menos discutido, é sempre a questão menos valorizada, sempre a mais minimizada. Então… somos seres humanos sim, ao mesmo tempo em que somos seres humanos negros, seres humanos brancos, amarelos, etc. E isso faz diferença sim. É necessário compreender e levar em consideração as implicações sociais e históricas do quesito raça sim.

Tudo isso já foi dito em textos anteriores deste perfil, blá blá blá.

Várias coisas que falo aqui já falei em outros textos, então fiquem com essas flores na cabeça.

Eu não gosto dos rótulos. Eu não gosto desses rótulos. Eu não gosto como a tal “cultura negra” é folclorizada. Eu não gosto como folclorizam os meus Orixás, como tratam o meu Candomblé e as demais religiões de matriz africana como “coisa menor” — quando, na verdade, se tratam de sistemas complexos e sofisticados que existiam antes da grécia, antes mesmo do Egito, e já explicavam os fundamentos e o funcionamento do próprio universo.

Eu não vejo com bons olhos esse fascínio pela tal “cultura negra” por parte de quem não é negro porque me parece algo que perpetua essa folclorização.

Minha base é Orixá, Minha base é o Candomblé. Minha base é a Teoria Afrocêntrica. Acima de tudo, minha base é a minha própria existência como homem negro neste mundo.

A vivência no Candomblé é o que há de mais africano no Brasil.

Blá blá blá etc não devia misturar religião com ciência blá blá na africanidade antiga jamais se desassociou religião de ciência — até porque, para mim, Candomblé é muito mais que uma religião, é um caminho de vida.

Na guerra das ideologias, na qual eu não me envolvo — cada um segue o que quer — eu sigo a Afrocentricidade. Eu sigo, pesquiso, questiono e pratico o que aprendi em casa, o que aprendo no Candomblé, o que aprendo nos livros que leio e pesquiso, e não o que está escrito em textão de Facebook. A Afrocentricidade que eu acredito e aprendo é anti-racista, anti-machista, anti-homofobia. Raça primeiro. Para mim, não faz sentido se não for de outra forma… mas cada um segue o que quiser — e deve ser respeitado por essa escolha.

Por que “cultura negra” está entre aspas? Porque essa porcaria não existe. Quando eu digo “porcaria” digo no sentido porco que vejo como é utilizado em muitos sites. Por exemplo: quando na época da estréia da série “Luke Cage” na Netflix, a maioria dos sites — resenhas de pessoas brancas — dizia que o “diferencial” da série era a “cultura negra”. Esse uso do termo me irritou bastante e se repetiu em muitas resenhas, todas feitas por pessoas brancas.

Alguém fala “cultura branca” na mesma proporção? Não. Se se dão ao trabalho de falarem “cultura celta”, “cultura nórdica”, “cultura grega”, por que vocês reduzem a “cultura negra”? O que é essa tal “cultura negra”?? Só porque aparecem um monte de pretos vocês chamam de “cultura negra”??

“Ain, sabe, o diferencial daquela série é a ‘cultura negra”…

Eu não sou uma cultura, eu não sou um diferencial. Eu sou um ser humano. Eu sou eu mesmo. Ao mesmo tempo, eu sou um homem negro, que entende a dimensão de ser uma pessoa negra neste mundo. Eu sou um homem negro que sempre esteve e segue em busca de suas raízes ancestrais, em busca das culturas criadas pelos meus antepassados.

Então, não é “cultura negra”; é cultura iorubá, cultura fon, cultura núbia, cultura kemética, cultura tchokwe, cultura luba, cultura zulu, trocentas culturas de um continente imenso, de pessoas de pele escura e traços negroides que são as pioneiras do mundo, as pessoas pretas que criaram os primeiros sistemas sofisticados de pensamento, de sociedade, de filosofia, de arte, de ciência. Então, podem imaginar meu descontentamento quando vejo reduzindo tudo isso ao nome de “cultura negra” porque a pessoa não-negra não está acostumada a ver, mas que é pertinente e naturalmente familiar para pessoas pretas que nem eu.

Por isso, eu sou Afrofuturismo, eu sou Cyberfunk, eu sou Steamfunk, eu sou Sword & Soul. Porque eu sempre li e vivi esses gêneros, desde moleque, aqui com os meus trocentos livros de RPG, gibis, games e livros de literatura fantástica. Eu sempre consumi tudo — e continuo consumindo, a lista de gibis, games e RPGs nunca deixou de crescer aqui — através da minha lente de garoto preto filho de pais militantes, que sempre me ensinaram o que é ser negro no Brasil, além do véu mentiroso de “democracia racial”. Eu sou esses rótulos antes mesmo de saber que existiam, antes mesmo de serem nomeados.

Meu bebê mais novo! Se interessou, adquira clicando aqui.

Eu escrevo romances. Eu escrevo romances fantásticos. Adoro. Eu me realizo quando crio novas realidades, novos mundos, por meio da minha escrita. Porque a realidade em que vivemos muitas vezes me causa tristeza imensa. Porque a realidade que nos foi imposta busca negar constantemente o que os meus antepassados criaram e conquistaram. Eu vivo sob a lógica do herói de rosto africano que existe dentro de mim, existe dentro de cada pessoa preta neste mundo. Eu não escrevo sob a lógica do rótulo. Eu escrevo o que eu naturalmente desejo, eu escrevo que eu vivo, eu escrevo tudo que li, estudei e vivenciei em todos estes anos. E sempre, sempre irei escrever sob a lógica dos poderes ancestrais que governam o mundo e os infinitos mundos dentro de mim.

Blá blá blá subjetividades. Mas é isso aí.

Eu não sou contra os rótulos. Eu entendo a necessidade do rótulo. Uma das definições possíveis para a palavra rótulo: “Designação ou característica definidora, geralmente de caráter redutor, atribuída a algo ou alguém.” Rótulos, apesar de serem redutores, são necessários. O que me incomoda é ser rotulado por uma pessoa branca como se eu e tudo que me representa fosse algo exótico; o que me incomoda é esse fascínio, como se fôssemos animais num zoológico.

“Ah tá exagerando vocês enxergam racismo em tudo” blá blá blá…

Eu seguirei escrevendo e criando, independentemente dos rótulos. Ao mesmo tempo, eu me aproprio de todos esses rótulos que me dizem respeito, porque, como disse lá em cima, rótulos direcionam, rótulos fazem compreender, rótulos atraem.

Eu admito que esse rótulo “Sword & Soul” realmente está me atraindo — e me inspirando.

Então, por mais que eu não goste e não aceite me limitar a um rótulo, farei uso deste com o intuito de direcionar, fazer compreender e atrair o meu pessoal preto para essas minhas narrativas cuja pretensão é apresentar um universo de inspiração africana, de base afrocêntrica, de espiritualidade de matriz africana, um universo cuja pretensão é ir além da “representatividade” e “diversidade” — outros rótulos que me parecem desgastados, banalizados, mas ainda assim importam muito e seguem pertinentes. Porque, na minha ótica, colocar as pessoas pretas em destaque é realmente criar universos em que a metafísica, a lógica e o imaginário africanos são uma realidade, em vez desta eurocentricidade a que somos submetidos e que é considerada “padrão” e “universal”.

Eu uso o rótulo então para deixar bem nítido para o nosso pessoal preto que o que eu escrevo em romances de ficção é realmente pensando em nós — além de entregar boas histórias, que é o que realmente importa, independentemente das pretensões do autor.

Vai muito além de colocar um protagonista preto no novo Guerra nas Estrelas — colocar um pretinho aqui e ali nos imaginários de lógica europeia, enquanto a supremacia se perpetua…

Meu sonho são cada vez mais mundos que nem este — ilustração interna do meu livro “O Caçador Cibernético da Rua 13”, arte do Rodrigo Cândido.

“Ah que chato falando que nem esses militontos!” — pior que eu nem me considero militante ou ativista, nunca me considerei; eu apenas sou eu mesmo e escrevo o que eu acredito.

Não quero convencer ninguém de nada, não sou contra ninguém, tampouco quero criar divisão alguma; sou a favor do meu pessoal preto. Apenas isso. Dessa forma, hoje, eu não tenho vontade alguma de explicar “os aspectos do negro” para qualquer colega que não seja negro, nem tenho qualquer interesse em discutir “nuances do racismo” e etc. Não tenho mais paciência pra ficar pedindo inclusão, quero eu mesmo fazer. Eu quero só escrever histórias. E todo mundo pode ler essas histórias, seja preto ou não, pois, afinal, não somos todos seres humanos? O que eu escrevo, independentemente da minha orientação e objetivos, é para o deleite de todos os seres humanos — seja preto, seja branco, seja esquerda, seja direita, seja cristão, seja o que for. Essa é a minha pretensão.

É só escrever, é só desenhar, é só incluir. É bem simples, na verdade…

Meu sonho é que todos nós, pessoas pretas, pessoas sim, seres humanos sim, possamos despertar e descobrir as reais potencialidades dos ancestrais que vivem dentro de nós, e criar nós mesmos os mundos imaginários e as ficções que desejamos, sempre sob a nossa própria ótica.


Gostou? Clique nos aplausos — eles vão de 1 a 50 — e deixe o seu comentário!❤

Nos siga no Facebook, Instagram e Twitter.

Saiba como publicar seus textos conosco clicando aqui.

Assine a nossa newsletter clicando aqui e receba textos em primeira mão!❤

Leia a nossa revista digital clicando aqui.❤

Participe do nosso grupo oficial, compartilhe seus textos e adicione os amigos!