Alegoria do fundo da Piscina

Divagações sobre como, na maioria das vezes, não enxergamos o que está próximo

Eu, para quem não sabe, faço natação duas vezes na semana, o motivo é simples: não sei nadar. Por mais que tenha 21 anos, nunca tive a oportunidade de aprender a nadar por condições financeiras ou estruturais — nunca tive uma piscina em casa. Mas, após relutar e perder o medo, finalmente entrei para a natação em um clube próximo a minha casa. A estrutura é excelente, possui até holofotes que propiciam uma grande iluminação para a piscina, este, nesta Alegoria, é o X da questão.

Quem já teve a oportunidade de nadar em um clube com uma boa estrutura, sabe que a noite é mais difícil nadar caso não hajam bons holofotes para iluminar o fundo de piscina. Um certo dia, fiquei até mais tarde na natação e pude ter a oportunidade de vislumbrar o fundo da piscina iluminado, isto mesmo, por mais que seja meio embaçado durante o dia, a partir do momento em que o professor de natação ligou os holofotes, tudo mudou. Fiquei fascinado com tamanha beleza das correntes da água e com a possibilidade de ver cada detalhe dos ladrilhos fixados ao chão. Mas, você deve estar se perguntando, porque isto é uma Alegoria?

Bom, primeiro, vamos lembrar sobre a Alegoria da Caverna de Platão, que seria a abstração da forma como construímos e vemos a nossa realidade. A caverna seria basicamente o que nos impede de ver as coisas como elas são; as sombras seriam um pedaço dessa realidade que conseguimos ver de relance, mas não interpretar totalmente; as pessoas presas a caverna somos nós. O local rochoso em si remete a algo sólido, a piscina, como em meu exemplo, em algo liquido. A abstração pode ser muita, mas observemos as duas rupturas culturais: A caverna seria a modernidade, algo mais ligado a ordem; a piscina com seus milhares de litros de água, seria a pós-modernidade, algo mais ligado a liberdade individual.

Para conseguir chegar até o momento em que pude visualizar o fundo da piscina completamente, eu demorei cerca de 2 meses, pois nunca havia tido a oportunidade de ficar no horário certo. Percebem onde quero chegar? Por mais que tenhamos saído da caverna de Platão — ou da modernidade — , ainda estamos perdidos em meio a liquidez da água representada no recipiente da piscina — ou da pós-modernidade. Os ambientes mudaram, mas os meios para construirmos a nossa própria realidade continuam difíceis de se alcançar. Na Alegoria da Caverna, os filósofos seriam responsáveis por tirarem os indivíduos da caverna para ver a realidade e a “verdade” em si. Na minha Alegoria, meu professor de natação foi responsável por baixar a alavanca e iluminar o fundo da piscina para que tudo ficasse mais evidente.

Assim, a questão cultural e estrutural pode ter mudado, mas o fim continua sendo o mesmo: chegar a tal ponto em que poderemos construir nossa liberdade livre de amarras. Portanto, a Alegoria do fundo de Piscina que acabo de lhes contar é uma tentativa de mostrar como que por mais que as coisas pareçam mais fáceis de serem interpretas e de tirar uma opinião dali, muitas vezes somos levados apenas a reproduzir e não enxergar o que de fato está em nossa frente. Podemos levar isto a um nível maior de discussão se enxergarmos a caverna e a piscina enquanto estruturas, portanto, a nossa dificuldade em chegar a certo ponto de lucidez pode estar ligada a algo proposital, ou seja, a quem está em uma posição de poder, no caso da caverna de Platão, os sofistas; no caso da piscina, o professor detentor da alavanca que permite que “haja luz” ou não.

Concluo dizendo que não nos deixemos abalar pelas estruturas que nos são oferecidas, o fundo há de se iluminar e poderemos então vislumbrar as maravilhas da vida. Evidente que enxergar o fundo da piscina iluminado como algo incrível é uma questão de perspectiva, por isso preserve a sua subjetividade e não tenha medo em questionar o que é dado como objetivo, até porque não há como chegar ao fundo da piscina iluminado sem mexer nas estruturas, ou como diria Dory do filme Procurando Nemo:

Continue a nadar.

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