“Amigos para a vida”: está tudo bem ser diferente

Foto: Carol Vidal

Eu sou o tipo de leitora que gosta de histórias com premissas simples que vão se aprofundando conforme o livro avança. Aqueles livros que começam despretenciosos e, quando percebo, já estou imersa em uma trama muito mais complexa do que poderia imaginar. Quando chega nesse ponto, já era: fui conquistada pelos personagens e seguirei com eles até o fim.

“Amigos para a vida”, de Andrew Noriss (lançado pela Editora Valentina com tradução de Roberto Muggiati), encaixa-se perfeitamente nessa categoria de história. A sinopse é muito simples: o livro conta a história de Francis, um menino solitário de 12 anos que conhece Jéssica, uma menina comum mais ou menos de sua idade, com o porém de que ela já morreu, e antes de Francis, ninguém havia conseguido vê-la ou conversar com ela.

De cara, não parece nenhuma história memorável, mas me interessei pela leitura por conta da temática da amizade e das dificuldades de se sentir diferente e de gostar de coisas que meninos da idade de Francis não costumam gostar: moda e costura. No início, parece que o livro será somente isso. Só que os personagens são tão cativantes e bem construídos desde o primeiro momento que, mesmo que a trama parasse por aí, ainda teria a chance de ser uma leitura interessante. No entanto, conforme o livro avança, novas camadas vão sendo acrescentadas, até que, lá pelo meio do livro, percebo que tenho em minhas mãos uma história importante para os dias de hoje .

O bullying e a desvalorização de tudo o que é diferente são pautas sempre em voga e precisam mesmo ser discutidas. É cada vez mais urgente superar essa sociedade intolerante em que vivemos, e isso deve começar desde cedo. Ninguém deve experimentar insegurança ou medo de ser quem é. Empatia é um sentimento que anda em falta quando o desrespeito pela existência do outro ganha força.

Esses ideais de justiça, igualdade e fraternidade permeiam por toda a trama e o fato curioso de existir uma fantasma na história é apenas o pontapé para o livro ir além. Quando Andi, uma garota que enfrenta dificuldades de lidar com as emoções, muda-se para a casa ao lado de Francis, o menino descobre que ela também consegue ver Jéssica, e uma amizade nasce entre os três. O mesmo acontece com Roland, um garoto que sofre com o isolamento na escola por ser gordo.

A partir desse momento, o que era para ser apenas a história de um menino e de uma fantasma, transforma-se no nascimento da amizade entre três jovens solitários. Francis, Andi e Roland são muito diferentes entre si, mas têm em comum o fato de todos saberem o peso de fugirem à norma. Nesse ponto, a trama já tem o primeiro aprofundamento ao passar a narrar a jornada de amadurecimento dos três.

E quando parece que a história não tem mais para onde inovar, entendemos o papel de Jéssica na trama, que vai além de ser o fato curioso que uniu Francis, Andi e Roland. Conforme estreitam os laços, descobrem mais sentimentos em comum, bem como a causa da morte de Jéssica — a qual ela não lembra no início do livro — e a missão dela antes de poder “descansar em paz”. Esse mergulho final é muito interessante e fecha um importante ciclo na vida dos personagens, dando a eles a oportunidade da mudança de pensamentos e da forma de enxergar a vida.

O que faz com que todos esses elementos narrativos sejam eficientes é que o autor não perde tempo com o que não importa. Tudo o que é contado no livro faz diferença para o desenrolar da história e acrescenta complexidade. A linguagem é fluida, o que permite uma leitura rápida e prazerosa — eu terminei o livro em poucas horas.

“Amigos para a vida” é um livro endossado pela Anistia Internacional do Reino Unido por conta dos valores que ele promove. Essa é uma obra que merece estar em todas as escolas e ser usada para gerar debates importantes sobre respeito às diferenças.

E, para quem sofre das mesmas questões que os personagens, o livro passa uma mensagem de esperança, mostrando que é possível enxergar a vida de uma outra perspectiva quando se tem empatia e pessoas com quem contar. Ninguém precisa estar só.