Amora: amor, paixão e descoberta nas relações entre mulheres

Thaís Campolina
Aug 31 · 4 min read
Acervo pessoal

Quando falamos de histórias de amor, pensamos em príncipes e princesas, reis e rainhas, pais e mães, Romeu e Julieta, Bentinho e Capitu, Elizabeth e Mr. Darcy e vários outros casais, compostos por um homem e uma mulher, que protagonizam novelas, filmes, livros, peças de teatro, séries e até pinturas. Crescemos com essas referências de amor, paixão e relacionamento. Elas nos cercam desde muito jovens e, de alguma forma, nos ensinam sobre o mundo, nossa cultura e as relações e sentimentos humanos.

Nessa vasta lista de histórias de amor famosas, não há um casal composto somente por mulheres ou somente por homens. Não há nenhum relacionamento aberto, nenhum trisal, nada que fuja do casal homem e mulher “tradicional”. Mas há, em várias casos, ciúme doentio, controle obsessivo, um certo grau perseguição e insistências que, quando feitas por homens, são quase sempre colocadas como atos de romantismo. O que isso nos ensina sobre amor, paixão e relações humanas?

Com base nessas histórias que nos cercam, dá para gente pensar que homens têm tendência natural a trair e mulheres a se sacrificar e que o amor tem arranjos fixos e é uma exclusividade heterossexual e até branca. Afinal, quantos casais negros ou de brancos com negros vimos em filmes, novelas e livros? Muito poucos, não é mesmo? Só que amor não é isso, pelo menos não necessariamente, e o “natural” e o “comum” são construções culturais que influenciam como percebemos e vivemos o sentimento mais falado pela humanidade.

Em Amora, livro de contos escrito por Natalia Borges Polesso e premiado com o Jabuti, as histórias de amor contadas são várias, algumas também apresentam traições, términos e mágoas, outras são de descoberta, família, desafios, rotina e amor de uma vida toda. A ligação entre elas está no fato de todos os contos falarem sobre as relações amorosas entre mulheres ou na reação que essas relações causam ao redor das personagens ou nelas mesmas, ainda que não haja um relacionamento particular em destaque.

Os encontros, permanências e desencontros entre as personagens permitem que a autora discorra sobre a condição humana, lembrando a quem lê que a vida das mulheres que se relacionam com mulheres é comum como a dos heterossexuais que tanto vemos na literatura, no cinema e outras mídias. Com exceção, claro, das experiências específicas relacionadas à vivência da discriminação e preconceito, como o estupro corretivo, que é assunto de um único conto da obra.

A velhice, o medo de morrer, o cotidiano, os traumas de relacionamentos passados, os conflitos familiares, o cuidado, a dor da rejeição, a doença, o estranhamento, a insegurança, a descoberta, a vontade de fugir, o sexo e o amor perpassam pelos contos em diferentes formas, ritmos e estruturas, mostrando o quanto tudo isso e mais um pouco são questões comuns a todos nós, ao menos em algum nível.

Em “Vó, a senhora é lésbica?”, conto que foi tema de questão de Enem e de um curta-metragem, se une, numa mesma história, questões como a invisibilidade lésbica, idosas que se relacionam entre si, família, omissão e a descoberta, ainda cheia de receio, de uma personagem jovem sobre sua própria sexualidade. O amor e a paixão estão presentes, como também estariam numa história sobre relações heterossexuais, mas há questões que surgem na trama justamente porque apenas um formato específico de casal é encarado como correto em nossa sociedade.

A sexualidade lésbica ou bissexual é tratada de forma natural pela autora, que aborda algumas dificuldades específicas de quem vivencia o amor entre mulheres numa sociedade ainda tão preconceituosa, mas também conta histórias que não tratam necessariamente de lesbofobia.

Os relacionamentos abordados em Amora não são perfeitos. São humanos em tudo, inclusive nas falhas e nos prazeres, e às vezes reproduzem até certas lógicas problemáticas comuns ao padrão dos relacionamentos heterossexuais, como a de chamar outra mulher de vadia devido ao comportamento sexual que ela tem. Isso dá um ar muito verossímil e comum ao que é contado, mostrando o quão complexas são as relações humanas, independente da sexualidade dos envolvidos.

Durante a leitura, sentimos que todas aquelas narrações poderiam ser casos que chegam aos nossos ouvidos por uma das partes ativas da história e o poder desse livro está justamente nisso. Tudo ali parece próximo demais e é humano demais, apesar do mundo ainda insistir em excluir esses casais. Nessa obra, a heterossexualidade não é a dona do amor, da paixão e dos relacionamentos amorosos. Ela está em segundo plano. O que foge totalmente do que vemos cotidianamente quando falamos sobre isso. Diante desse contexto, a literatura de Amora também serve como uma ferramenta dialógica e de enfrentamento.


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Thaís Campolina

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Pró pijama e pró feminismo. 30 anos, contadora de casos, louca de papelaria e fã de jogos e livros. Me acompanhe em: https://www.facebook.com/thaisescreve/

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