Ande com os anjos

Talita Dantas
Jul 20, 2017 · 5 min read

Alguém no mundo do coaching disse uns tempos desses que somos a média das cinco pessoas com quem mais convivemos (a frase é amplamente atribuída a Jim Rohn). Parece que isso deu um certo rebuliço, mas eu não sei bem por que. Há um tempão (uns milhares de anos talvez), alguém disse “diga-me com quem andas e eu te direi quem és”. Eu cresci ouvindo isso e, essencialmente, não vejo muita novidade nessa média.

Há uma professora que amo ouvir, Lúcia Helena. Desconfio que ela seja um anjo. Eu acredito em anjos.

Jesus dizia a Pedro que ora era Deus, ora não, quem falava pela boca dele. Isso me fez crescer muito atenta não a quem, mas ao que se diz, já que se Pedro, o escolhido para ser a pedra fundamental da igreja de Cristo, podia ser a expressão de Deus, mas também podia não ser, qualquer um está sujeito a isso.

Nesse contexto, os anjos são aqueles a quem nunca ouvi escapar da boca algo que não soasse divino. Talvez tenham nascido anjos. Talvez a prática diuturna, a vigilância incessante de si mesmos, a proximidade com a humildade, a compaixão e o amor, traduzidos mais em seus atos que em suas palavras, os tenham feito assim. Talvez não sejam de fato anjos e, nalguns momentos (que eu não vejo), sejam como eu ou como Pedro, que ora nos permitimos ser instrumentos de um Deus amoroso e misericordioso, ora somos expressão do nosso egoísmo, raiva, medo e afins. Mas eu ainda prefiro vê-los como anjos. Me sinto bem com a ideia (e não me venha perturbar com a ênclise obrigatória. Não combina. E se você não entendeu essa parte, pode pular esse parêntese — não faz a menor diferença, juro).

Talvez se eu praticar bastante, se eu empreender um certo esforço, possa também ser anjo um dia. Na verdade, nem me importo se eu chegarei a ser ou não, me importo mesmo é em tentar. Se há algo de que com certeza eu me arrependeria, certamente seria morrer sem ter tentado ser um pouquinho melhor a cada dia. É por isso que eu recomeço a cada tombo, que eu me levanto a cada tropeço, porque embora não tenha o dever de conseguir, eu tenho o de tentar.

Tentar ser anjo ou talvez cisne. Às vezes, os vejo como cisnes também. Daqueles da história do patinho feio. Gosto particularmente da versão contida no livro de Clarissa Pinkola Estés, Mulheres que correm com os lobos. Nela, o patinho-cisne já se lascou tanto que demora a se tocar de que é cisne também, quando encontra os seus. Talvez um dia, de muito praticar, eu me descubra cisne. Ou não. Não tem problema! Já me satisfaço em ser uma contadora de histórias que anda na companhia de cisnes-anjos, de anjos-cisnes. No fim das contas, acabo tendo na minha média um pouquinho deles também.

É bem verdade que muito dos meus anjos nem sabem que eu existo, mas isso tampouco importa, porque como diria a minha anja nº 1, a Prof. Lúcia (e essa sabe da minha existência), nessa conta entra quem eu ouço, quem eu leio, quem me inspira, quem me toca, quem me afeta. Dessa maneira, dá até para andar na companhia de quem já não está na Terra de corpo presente, mas cujas palavras ainda ecoam na humanidade. Dá pra tomar um café com Nietzsche e jantar na companhia de Jesus. Dá pra almoçar com Buda e se inspirar em Trimegistro.

Mas é bom ter anjo de carne e osso. Todos os dias, eu procuro me encontrar com um logo pela manhã. Acordo, escolho o anjo do dia e vou caminhar na companhia dele. Acredito verdadeiramente que anjo não tem religião, porque num dia ouço Pe. Fábio de Melo. No outro, a Lúcia, que é filósofa, mas não ateísta. No outro, Clóvis de Barros Filho, que é ateu assumido. Ouço a Dra. Ana Quintana, que é médica e, desconfio eu, espiritualista. Ouço a Monja Coen, que é budista e ouço o Sri Prem Baba.

Honestamente, não os vejo falar de coisas diferentes, mas usarem palavras distintas para se referirem à mesma coisa. Do amor, da justiça, do respeito, da compreensão — é disso que os ouço falar e é essa a verdadeira religião dos anjos — do fazer certo porque é o certo a ser feito e não para barganhar com o Universo (com Deus ou como você preferir chamar). Ouço-os falarem de uma relação com o todo no qual estamos inseridos, a qual envolve harmonia e autenticidade, coragem e sabedoria. É isso o que me inspira a ser a melhor versão de mim mesma. A continuar buscando esse eu melhorado, não obstante os desafios que surgem no caminho. E, quando estou perdida, é o caminho dos anjos que ilumina o meu. Olho seus passo. Por onde andaram? O que fizeram? Que valores e princípios usaram para tomar suas decisões?

Quando adolescente, eu me apegava muito a uma frase supostamente de Graham Bell, “nunca ande pelo caminho traçado, pois ele conduz somente até onde os outros já foram”. Eu a usava para justificar que não seguiria determinados caminhos tidos socialmente como de sucesso. Só me esquecia de observar os caminhos não tão bem-sucedidos assim, a fim de verificar se também não haviam passado pelo rumo que eu estava tomando. Descobri, depois de uns muitos tombos, que a frase de Graham Bell funcionava também de um outro modo. Se você quer chegar aonde os outros chegaram, basta andar pela trilha já traçada.

Isso é o que, em coaching, chamamos de modelagem, escolher alguém que tenha as forças que desejo desenvolver em mim e observá-lo. Se possível, conversar com a pessoa a respeito. Do contrário, procurar livros, filmes, documentários. Tudo com o objetivo de identificar como nossos modelos vencem seus desafios, como aplicam suas forças de caráter, suas virtudes; quanto nós mesmos já temos desse comportamento; e que comportamentos dos nossos modelos queremos reproduzir para expressar as forças desejadas.

No teatro, ao estudarmos o método Stanislawski, chamamos a isso de “o mágico se fosse”. Eu não sou aquela estudante aplicada, mas, se eu fosse, o que eu faria? Não sou médica, não sou assassina de tragédia grega, mas se eu fosse… Em linhas gerais a modelagem consiste exatamente em aplicar o raciocínio que empregam os atores na construção de personagens. Não foi a toa que as coaches Belle Linda Halpern e Katty Lubar, co-fundadoras do The Ariel Coach Group, elaboraram o livro Leadership Presence, recheados de técnicas dramáticas para elevação da performance de grandes líderes que precisam conquistar sua audiência.

A essa altura, eu espero, você já deve estar repensando em como anda a sua própria média, não só no que se refere a seus amigos, mas a seus livros, suas músicas, seus filmes… O que, dentre tudo isso em que você anda investindo tempo e energia, é efetivamente nutritivo pra você? Pare um instante. Pense a respeito. E abra mão do que tiver de ir.


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