Anedotas sobre ser mulher nas cidades

Em Julho viajei com minha família e conheci algumas cidades. Inevitavelmente, fui mulher em todas elas. E fui tratada, por ser mulher, diferente em cada uma.

Baseadas em fatos reais, mas não muito.

Estocolmo

Há quatro dias em Estocolmo, há quatro dias sem ver um banheiro identificado por gênero. Nos primeiros encontros com portas que indicam, na mesma placa, um homem e uma mulher, aquela hesitação. Olho em volta, buscando aprovação de algum local. Queria ver um “Sim, é aí mesmo que você deve entrar” no olhar de alguma garçonete. Nada. A impressão que dá é que nem sabem que em algum lugar do mundo os estabelecimentos tem dois banheiros, e que entrar no correspondente ao seu gênero é para sua segurança.

Sentada em uma praça com minha irmã, tomando uma casquinha de sorvete em silêncio, rápido, para não derreter. Passam por nós dois homens, de terno, cada um com sua casquinha — duas generosas bolas de sorvete vegano empilhadas — e sentam lada a lado em um banco. Eu fico fascinada por essa cena, sem entender o que me fascina. Aliviada por estarem em um ângulo que posso observar sem chamar atenção. Os dois homens conversam, dão risada, de alguma forma não sujam nada os seus ternos, nem um pingo. Acabam seus doces e seguem caminho, juntos. Encontro rotineiro, imagino, pela maestria com que dominaram o calor. Eu não sei se eram meramente colegas de trabalho, amigos, um casal. Paro para pensar, eu nunca, ou talvez pouquíssimas vezes, vi homens desconhecidos tomarem sorvete em público. Eu nem ao menos sei quando foi a última vez que tomei um sorvete na rua, sem me preocupar com o que vou ouvir de estranhos que acham que chupar um doce é um ato obsceno e, pior, um convite para expressar isso em voz alta.

Por todos os lugares homens passeiam com crianças. Homens trocam fraldas nos bancos de parques. Homens ajudando suas filhas pequenas no banheiro. Homens correndo atrás de crianças em praças. Me repreendi quando percebi que de início meu pensamento era: ah, que fofura. Ou pior: procurar com os olhos a mãe. Na Suécia homens e mulheres têm direito à licença paternidade e dividem tarefas domésticas e parentais igualmente. Foi triste perceber o quanto essas são cenas raras por aqui, e o quanto a diferença de tratamento dos pais com as crianças não passa despercebida por quem não está acostumado — mesmo que essa seja a luta da minha vida.

Street art Estocolmo (YASH; instagram: @linuslundin)

Berlim

Sábado, dez da noite, acaba de escurecer. Eu e minha irmã saímos a procura de um bar. É verão, ruas cheias de turistas e locais, grupos e duplas de pessoas caminham e conversam em voz alta. No metrô, muitos olhares. Desconforto. Vai melhorar quando sairmos daqui. Fila de um bar. Não precisamos entender alemão para saber o que aquele homem disse. Vamos para outro lugar. Assobio na rua. Metrô de novo. Muitos olhares. O que há com nossa roupa? Nada. Anos de feminismo indo por água abaixo: a gente devia ter vestido calça. Esse shorts tá curto. Minha irmã mantém a compostura: não é nossa culpa. Isso é um shorts normal. E mesmo que não fosse. Fico nervosa, quero pegar um táxi, fugir dali. Segundo bairro, segunda tentativa de bar. Dessa vez um grupo de turistas. Grupo de turista homem é sempre bom manter distância. Saindo da zona de conforto, tudo começa a parecer esquisito. Quero voltar para casa. Mais uma vez, e ainda bem, minha irmã é mais forte que eu: a gente merece essa cerveja. É verdade. O que está acontecendo? Essa não é a cidade mais descolada do mundo? Pelo jeito homem desconstruído que não respeita mulher é um problema mundial. Rimos. Vamos para uma área conhecida por ser queer. Pegamos um drink cada uma. Sentamos. Finalmente deixadas em paz. O nervosismo começa a passar. Há quanto tempo não passava por isso, o que aconteceu? Minha irmã, sempre muito sábia: lá em casa já aprendemos de onde desviar, como nos proteger. É verdade.

Street art em Berlim

São Paulo

Saindo do metrô tarde da noite, sigo o caminho de sempre com o medo de sempre. A bolsa atochada na axila, entre o busto e o braço direito. Músculos das costas contraídos, as espátulas pra fora. Posição de presa. O medo de sempre por ser de sempre divide espaço também. A cabeça lá na geladeira rememorando o que havia ainda de manhã pra aprontar pro jantar tardio, o cesto de roupa suja pra falar, será que aguenta até segunda, a prova de literatura semana que vem, onde arranjar tempo pra estudar com reunião já logo de manhã, preciso marcar médico, meditação aula de inglês acupuntura aquela reunião com os amigos do colégio toc toc toc o barulho interrompe o fluxo de pensamentos. Seguro a respiração tentando ouvir melhor: são passos, atrás de mim, e se aproximam. Aperto o passo, mais dois quarteirões e tenho que virar a esquina. Suor frio escorre pelas costas, umedece as mãos toc toc toc continuam. O olhar já busca pela portaria mais próxima, todos os estabelecimentos estão fechados, vou virar e jogar a bolsa, e se tiver uma faca, vou sair correndo agora mesmo, e se tiver armado. Será que entregar o celular vai bastar, eu não tenho dinheiro, será que pego as chaves da bolsa pra me defender. Medo de encostarem em mim. Medo de morrer. Arfando pela velocidade dos passos, crio coragem para olhar por cima do ombro e calcular a vantagem de distância que tenho toc toc toc são passos de salto batendo na calçada. Uma mulher caminha tão rápido quanto eu. Alívio. Diminuo a velocidade. Ela me alcança. Caminhamos juntas, sem falar palavra, até a esquina, quando preciso me separar e seguir sozinha novamente, trocamos um olhar: obrigada, cuidado.

Street art em São Paulo (arte e foto por Gabriela Sánchez; instagram: @emegabez)


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