Ano passado eu morri

Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte… Foto: Reprodução / TV Globo

Cresci ouvindo minha mãe cantarolar trechos de músicas de muita gente boa enquanto realizava tarefas domésticas, e eu me via em frente à televisão assistindo a qualquer desenho animado que povoa nosso imaginário de criança. Elis Regina e Rita Lee são dois exemplos de quem conheço demais a obra por herança materna.

E Belchior também ocupou o Olimpo musical de minha mãe em algum dia distante quando ela conversava comigo e meu pai sobre ter viajado apenas de ônibus ou carro, quando ele, zoando, cantou um trecho de Medo de Avião, um clássico popularizado, mas nem de longe sua melhor música.

Sua aparência com um bigode característico e cabelos grandes era a síntese de suas letras e reclusão nos últimos anos de vida, motivo até de matérias em programas como o Fantástico, que em 2009 foi em busca dele no Uruguai. Era uma espécie de anti-fama, um tipo que remava contra a maré da mediocridade atrás de cliques. Seu estilo notoriamente valorizava muito mais a essência do que a estética, e deve tê-lo impulsionado a preferir o isolamento a ter que lidar com a época digital em que o narcisismo renasce como o sol pela manhã a cada selfie em busca do número máximo de curtidas.

Voltei a escutá-lo justamente nessa época em que aplicativos como o Spotify nos permitem escutar CDs antiquíssimos sem a necessidade de uma busca insana em sebos e lojas especializadas. O álbum Alucinação é de deixar qualquer ouvinte catatônico e não foram poucas as vezes em que tive a vã esperança de dormir hipnotizado pelo seu som, mas tal transe apenas me deixou preso a cada letra tão bem escrita por um dos grandes da verdadeira Música Popular Brasileira (MPB).

Sua delicadeza é perfeitamente vista nesse vídeo em que trata das músicas de grande sucesso a cada verão, mas que vão seguir efêmeras e esquecidas por nós no ano seguinte.

Há quem diga que ele tenha dado dicas e pistas de seu anonimato por livre e espontânea vontade nas próprias letras monumentais de uma obra monstruosa que deixou para todos nós.

Pessoas mais introspectivas, que não se adequam ao sistema predominante desse mundo caótico e à sociedade do espetáculo são comuns entre seus fãs.

Essa espécie de caminhada num rumo sem rumo, numa rota apenas de ida em que não é procurado um sentido da vida em nenhum símbolo influenciou diretamente meu estilo literário, minha forma de pensar e agir, sem me dar conta disso. Gosto de pertencer a esse grupo de admiradores deste que se foi.

Por algum motivo que apenas os deuses do destino seriam capazes de explicar, na última semana falei muito de Belchior e sua obra para um grupo seleto de pessoas muito queridas por mim. Foi uma delas que me avisou sobre a passagem de um dos maiores artistas da música nacional, menos falado do que merecia, talvez seguindo sua própria vontade de ficar ali no canto da festa, observando tudo e produzindo eternidade por meio de músicas.

Sua morte foi daquelas notícias inacreditáveis, na qual procuramos em todos os portais de notícias possíveis uma errata, um desmentido, alguém aos berros criticando a falta de responsabilidade de publicar um absurdo daqueles e sua imagem diante de um microfone brincando: “estou vivo, eu acho”.

Quando a notícia era mais do que confirmada, a vã esperança era a de que ele pudesse driblar o Destino como tanto fez em suas composições. De qualquer forma, nunca vou acreditar na morte de quem se faz eterno além das playlists e dos sucessos que vem e vão. Belchior é daqueles que fica.

Eu, que sou apenas um rapaz latino-americano que te ouve agora, me considero um sujeito de sorte por ter tido o privilégio de conhecer sua obra e perceber que viver é melhor que sonhar, Belchior. Precisamos todos rejuvenescer com a mesma qualidade que você imprimiu numa obra eterna de quem vai deixar saudades.

Vá em paz, muita luz.


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