Ansiedade quando não estamos em crise

ilustração de Marina Papi

Aprendi, um dia, que não temos ansiedade, nós estamos com ansiedade. Então, se não estou com ansiedade estou como? Ansiosa em potencial? Estou normal?

Penso na ansiedade até quando não estou em crise. Às vezes acho que tenho pequenos surtos passageiros, com coisinhas bobas do cotidiano, como não encontrar na mesma hora um objeto que procuro na bolsa. Nesses segundos de desespero onde procuro o objeto e penso em mil lugares onde poderia tê-lo perdido: aí eu fico nervosa e tiro tudo da bolsa, e lá está o bendito. Fiquei nervosa a toa: nada de novo sob o sol. Já passou.

Esse evento não é uma crise: eu não passei mal, os efeitos físicos não apareceram, só uma pequena parte dos psicológicos. Pra mim, vem o nervosismo, a preocupação e a enxurrada de pensamentos de possibilidades que não precisam existir (e não existem) porque o objeto está na bolsa, exatamente onde eu sabia que estaria.

Mas está ali da mesma forma.

Ansiedade é excesso de lucidez

Pensar demais nas coisas, sabe? Se preocupar demais, ter medo demais. É o exagero da realidade, porque a mente começa criar várias situações para você se preocupar se a realidade estiver bem.

Não é nossa culpa e a gente precisa que as pessoas entendam isso. A gente tenta ficar tudo bem, mas tem hora que a gente não tem força nem pra tentar nada. Aí vem unhas roídas, vem um pouco de isolamento, cansaço, medo…

Sem a crise você vive nessa linha tênue. Não significa que vai pensar na ansiedade todo o tempo… tem hora que a gente até esquece esse nomezinho ruim. Não significa que quando acontecer algo ruim você vai ter um surto e ficar mal pelo resto do dia. Tem coisa que é possível olhar e deixar pra lá, tem hora que a gente consegue ser forte, porque, cara, ter ansiedade é ser forte pra cacete, então a gente consegue.

Temos momentos. Às vezes passa a impressão que com ansiedade uma pessoa não aproveita a vida, nem os eventos, nem as pessoas, porque dentro dela tem tanta coisa acontecendo. Mas aproveita sim. Pelo menos eu me cobro ainda mais para aproveitar, dar valor a atenção que me dão quando não estou bem (mas peço respeito e paciência quando tem dias que não dá). Temos dias de tranquilidade, sem nem precisar lembrar da ansiedade. Nós ficamos bem, ansiedade não nos define. É importante ir se conhecendo, lidando consigo mesmo e ter pessoas ao lado, abertas a nos entender.

É isso. Um dia de cada vez, um passo depois do outro e a gente vai indo, vai tentando. Aprendendo formas novas de lidar com o que somos, formas de aliviar a tensão e o medo, mecanismos paliativos para segurarmos a barra.

Mas sempre sendo forte para mais um dia, pra ser forte mais uma vez.

Com ou sem ansiedade somos o que somos e nada é melhor do que a liberdade pra ser quem se é.



Clique no ❤ e deixe o seu comentário. Se quiser mais privacidade, nos mande um e-mail para rsubjetiva@gmail.com

Segue a gente no Facebook|Twitter|Instagram.

Temos um grupo para nossos leitores e autores, entre aqui.

Receba textos exclusivos e 1 e-mail por semana com tudo que rolou clicando aqui e se inscrevendo na nossa newsletter.