Apenas você!

Vó, hoje que eu descobri o porquê da senhora vidrar na TV pelo comercial do supermercado. Mal sabia eu como fora dormir sem saber se o dinheiro daria para comprar o pão para o café da manhã, em tempos que a inflação fez correr do país qualquer bruxa ou diabo, porque era caro demais viver aqui; me perdoe por pensar comigo que era mania de velho, mas o fato da senhora sempre o fazer sempre mais me espantava por ser algo sem contexto do que me indignar por ser “coisa de gente velha”.

Vó, estou escrevendo este texto, por um rio de mea-culpa por nunca ter lhe escrito e publicado nada sobre você. Já escrevi tantas coisas, sobre tantas pessoas… alguns textos de importância até duvidável, mesmo sendo úteis de alguma forma. Escrevo mais ainda pelo oceano de gratidão, de amor e do medo de perder você de alguma forma — esse é um mal irrenunciável do amor.

Esse domingo é dia das mães, e escrevo justamente por isso, não pelo clichê de que vó é mãe duas vezes, porque vó é um infinito particular e mãe é outro infinito particular de uma poesia secreta.

Vó, não tenho ideia do quanto doeu ser vó. Da expectativa frustrada, da pirraça porque como a senhora gosta de dizer “a gente gosta da fuzarca”. Ninguém nasce vó, a senhora não foi exceção. Mesmo que a senhora não tenha percebido, eu aprendi por sua causa que vocação não vem escrita na certidão. Ela está nos gestos, nas palavras, nas lutas e dores… que surgem com o tamanho da nossa alma, ao ponto dos outros nos chamarem e nós atendermos pela função como se fosse o nosso próprio nome.

Ultimamente, vocação é um problema, já a queremos saber como milagre, tem tanta vó mesmo que perdeu o caminho ou foi caminhar na hora errada, e esquece o presente certo, esquece que por lei toda vó precisa advogar em favor dos netos só para “estragá-los”, esquece de puxar a orelha dos pais porque são “injustos” conosco. O problema está grande, vó. Estamos acreditando que podemos ser tudo o que quisermos na hora que bate o desejo e isso nos encanta, porém muitas coisas costumam não ter o tamanho da nossa alma, espero lembrar do exemplo da senhora: sempre fazer melhor, o melhor que me melhora.

Hoje é domingo e não terei seu bolo durante a semana para tomar café antes de sair de casa, por isso comprei um bolo da padaria, mas esse bolo eu não fiquei na saia da senhora pela raspa da massa e ficou um bolo apenas com gosto de bolo.

Lembrei que pelo menos uns 4 anos seguidos no dia das mães, te dei potes de guardar comida, jarras para suco, etc… Nunca perguntei se tinha um sonho não realizado, ou, as coisas que fazem bem quando contamos para os outros, esse texto mesmo nem perguntei se gostaria de ouvi-lo.

Por precaução, me perdoe.



Clique no ❤ e ajude esse texto chegar a outras pessoas!

Deixe o seu comentário ou nos mande um e-mail para rsubjetiva@gmail.com

Também estamos no Facebook, Twitter e Instagram. Segue a gente!

Quer conhecer nossos autores/as? Entre aqui.

Quer escrever conosco? Entre aqui.