As angústias da vida em “No caminho do nada”

Foto: Carol Vidal
“É uma pena que meus olhos sejam ótimos para enxergar o mundo e péssimos para mirar dentro de mim. Por isso não tiro selfies, nem entendo tanto vazio aqui.”

A sociedade em que vivemos oferece a poderosa ferramenta da hiperconectividade, porém, o excesso de estímulos tende a mascarar a solidão. A todo momento mantemos a cabeça ocupada com questões irrelevantes que são usadas como válvulas de escape para não darmos atenção ao que se passa dentro de nós. Mas esse hábito cobra o seu preço.

Marcelo, protagonista e narrador do livro “No caminho do nada”, de Leandro Marçal, lançado pela Editora Kazuá, vive essa realidade. É um homem do nosso tempo, que passa por problemas com os quais cada leitor pode se identificar, em maior ou menor grau. Ele foi abandonado pelo pai, tem um relacionamento difícil com sua mãe, um trabalho do qual não gosta e um relacionamento recém-terminado, este último usado como mote para iniciar a narrativa.

De início, parece que acompanharemos a angústia do personagem por conta do fim de seu namoro com Milena. Porém, conforme a leitura avança, outros elementos vão sendo acrescentados à trama e passamos a conhecer mais profundamente os dramas de Marcelo enquanto vemos se desenvolverem crises de ansiedade e depressão, para as quais o protagonista parece não dar muita importância. A angústia de não saber para onde ir permeia a existência dele, seja no presente, seja na lembrança de acontecimentos passados.

Um elemento que chama a atenção na obra é que a história não é ambientada em uma cidade específica — apenas há indicações de que é uma cidade grande. Esse “não-lugar” combina com o clima do livro e do protagonista, que se sente perdido e sozinho, ao mesmo tempo em que gera a possibilidade de identificação com o leitor que comentei mais acima. A história pode se passar em qualquer lugar que o leitor imaginar, pois a vida de Marcelo pode ser a de qualquer um de nós. A prosa de Leandro Marçal tem o poder de ser tanto generalista, quanto permite uma identificação com o que é narrado.

Da forma como é estruturado, o livro assemelha-se a uma coletânea de contos, com a diferença que é sobre o mesmo personagem e os capítulos conversam entre si. Enquanto lemos, temos acesso a fragmentos da vida do protagonista, peças que vão se encaixando e permitem figurar o todo. Ao mesmo tempo, essa fragmentação é mais um elemento que reforça o estado de espírito do personagem, incompleto e inseguro.

A leitura flui sem maiores problemas e a linguagem é simples e direta, mesmo quando fala das questões mais íntimas. Inclusive, o autor não usa de meias palavras para descrever o sofrimento do protagonista. Algumas passagens se mostram mais confusas de entender e encaixar no todo, mas nada que prejudique a jornada de leitura.

“No caminho do nada”, ao fazer um pequeno recorte da vida do personagem, deixa no final apenas o indicativo de para onde ele vai caminhar, cabendo ao leitor preencher as lacunas. Essa é uma decisão narrativa que faz sentido, uma vez que nada é definitivo na vida, especialmente quando estamos falando da mente humana.


Gostou? Deixe seus aplausos — eles vão de 1 a 50 — e seu comentário!

Siga nossas redes sociais: Facebook— Instagram— Twitter

Divulgue seus textos e participe do nosso grupo no Facebook!

Leia a última edição da nossa revista digital!

Faça parte do time!