“As Viúvas” empolga e instiga, mas perde a mão por querer demais

Imagine que você é esposa de um homem que ganha a vida roubando dinheiro (e estamos falando aqui de MUITO dinheiro) dos outros, mas faz o que pode para não se envolver nesses negócios e não pensar a respeito. Não é tão difícil assim não se concentrar nesses dilemas, uma vez que você tem que se ocupar em cuidar das suas próprias questões, e elas não são exatamente fáceis de se lidar. Às vezes você tem um novo bebê em casa, que precisa cuidar. Em outros casos é dona de uma loja, e ainda divide a atenção com a criação de duas crianças. Em alguns casos você está convivendo todos os dias com a violência doméstica e não sabe muito bem o que fazer a respeito. Também pode estar demasiadamente mergulhada no luto pela perda do único filho, e tudo mais fica para escanteio.

De repente seu marido morre inesperadamente, e você se vê sem nada. Sem a grana que ajudava a custear a sua sobrevivência (e os seus sonhos) e sem aquele homem que parecia poder dar conta de tudo com facilidade, permitindo que você vivesse um dia a dia sem tantas preocupações. Pior: você descobre que seu esposo se foi, mas tem uma série de dívidas não pagas, e agora os credores querem cobrar de você. O que fazer? Em “As Viúvas”, o novo longa do incrível Steve McQueen, roteirizado pela soberba Gillian Flynn a mulherada resolve se unir e ir a luta, seguindo o exemplo de seus próprios companheiros, mas com uma união muito maior e muito mais sincera. É a força feminina dando o que falar na tela do cinema! Eu tive a alegria de fazer a cabine desse thriller há algumas semanas e conto agora para vocês o que eu achei! Vem conferir!

“As Viúvas” combina o melhor de Steve McQueen e de Gillian Flynn, mas peca pelo exagero de subplots

O que poderia dar errado quando você une um diretor do calibre de McQueen, uma roteirista impetuosa como a Flynn e atores de altíssimo nível, como Viola Davis, Daniel Kaluuya e Liam Neeson? Em sucesso, certo? Bem, de fato, sim! Vai ser difícil essa obra não bombar nas salas de cinema, porque ela tem tudo que empolga grande parte dos espectadores desses artistas. Além disso, é um suspense bem desenvolvido e bem montado, não dá para negar, que possui méritos técnicos (os planos sequência são de tirar o fôlego) e emocionais (o arco de algumas protagonistas é muito interessante).

O problema está, talvez, no exagero de temas abordados, que acaba tirando a atenção do principal plot do filme, que teria muito mais peso se ao mesmo tempo a obra não tentasse tratar com seriedade assuntos envolvendo marginalidade, privilégios, corrupção, traição, perda, racismo, política e machismo, tudo de uma só vez e claro, sem a devida profundidade, porque simplesmente não há tempo hábil.

Não que essas questões não se conectem em algum grau, porque de fato isso ocorre. A combinação delas na trama desenvolvida por McQueen e Flynn faz sentido, e boa parte do elenco compra a briga e faz acontecer, deixando claro o tempo todo que esse é um filme de muitas camadas. Ainda assim, falta espaço para que esses assuntos sejam desenvolvidos com mais clareza e com a seriedade que eles merecem, porque são todos muito caros e importantes.

Com isso, a grande revelação que deveria chocar e atabalhoar os espectadores mais distraídos não provoca em quem assiste aquela surpresa e aquela satisfação, porque parece mais uma coluna entre outras várias que sustentam a película, sem receber o seu devido valor e a sua devida importância.

Parte do elenco está inspirada, e os detalhes técnicos dão um show

Isso não torna o filme uma obra sem emoção e sem graça. Você que for assisti-lo no cinema com certeza vai se engajar e vai se empolgar. A sensação que fica para boa parte da crítica (e me incluo nessa massa) é que se trata de um longa que podia muito mais, e não aconteceu não por falta de talento e de competência dos seus colaboradores, mas por um desejo muito grande de fazer demais. Na maioria dos casos quando fazemos “menos” fazemos mais bem feito, e essa máxima se aplica nesse caso específico, com toda a certeza.

O fato de “As Viúvas” contar com colaboradores tão preparados e capacitados acaba sendo, portanto, o seu ponto forte, uma vez que a trama em si não consegue abalar tanto assim, ainda que divirta.

Vemos Viola Davis aqui forte como sempre, mostrando todo o seu poder na tela, mas também as suas fragilidades e os seus medos. Robert Duvall e Colin Farrel fazem uma dobradinha e tanto, vivendo uma relação de pai e de filho que diverte por ser absurdamente desprezível, com direito a disputa de egos constante e uma briga ferrenha para ver qual dos dois é o mais asqueroso e arrogante. Daniel Kaluuya mete medo logo que aparece como um capanga contido, mas impiedoso, que não tem nenhum pudor em torturar e matar, e inclusive se diverte bastante no processo. Por fim, temos Elizabeth Debicki no arco mais instigante entre todos os coadjuvantes, mostrando a fragilidade de uma mulher abusada, que pode diante do trauma se reconstruir e se reencontrar, se for apoiada e se de fato se permitir.

As Viúvas” com certeza não é um filme ruim, e está longe de ser um desperdício de tempo e de dinheiro de ingresso. Ele vai te animar e vai te interessar do início ao fim, e isso é um fato. O problema dele provavelmente está no fato de ser realizado por tanta gente incrível e esmerada, que por cobiça acaba querendo demais e fazendo de menos! Ainda assim, merece ser assistido, nem que seja para pensarmos juntos como ele poderia ser ainda mais maravilhoso!

NOTA: 8,0


Gostou? Clique nos aplausos — eles vão de 1 a 50 — e deixe seu comentário!

Não perca nada: Facebook | Instagram | Twitter | YouTube

Participe do nosso grupo no Facebook e divulgue seus textos por lá!

Saiba como não perder nenhum texto através do aplicativo do Medium.

Clique aqui e saiba como fazer parte do nosso time!