‘Assunto de Família’, questiona o que é o amor familiar

Ganhador da Palma de Ouro de Cannes em 2018, o filme com direção e roteiro de Hirokazu Koreeda nos fala de afeto e família em um Japão marginalizado.

Fernanda Maria
Mar 26, 2019 · 6 min read
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Na primeira cena do filme vemos um garoto furtar uma loja com a ajuda de um homem. Quando saem de lá compram comida e depois lembram que deveriam ter “pego” um shampoo, que outra pessoa havia pedido. Perto de casa veem uma garotinha, em torno de quatro ou cinco anos, sozinha na porta de casa e aparentemente com fome. Eles decidem então levar ela pra jantar na casa deles. Lá moram mais três mulheres. Uma adolescente e uma mulher adulta, e uma senhora que eles chamam de avó. E são esses personagens que formam uma família.

https://www.youtube.com/watch?v=PsSQaoGs-6s

O título original é 万引き家族 (Manbiki Kazoku), literalmente Família de Ladrões, em inglês foi traduzido para Shoplifters, termo usado para designar uma pessoa que rouba mercadorias de uma loja enquanto finge ser um cliente, e no Brasil o título ficou como em “Assuntos de Família”. Seja focando no fato de que são uma família, ladrões ou os dois, esses são dois temas usados pra discutir as relações entre os personagens. Falo como temas, porque seus relacionamentos não se limitam a isso. E na verdade, quando se trata de relacionamentos humanos, como limitar não é mesmo?

Se você for procurar a sinopse do filme no google vai achar seus personagens sendo descritos como “´pai”, “filho”, mas quando assistimos essas palavras não são colocadas lá. Lembro de ficar bastante tempo tentando entender a relação de parentesco entre eles. Até chegar um momento que percebi que esse não era o ponto. A principal ligação entre os personagens não é descrita através de uma hierarquia familiar mas de afeto.

Shota (Jyo Kairi) é o garoto que vemos na primeira cena, e boa parte das ações que movem o enredo estão ligadas a ele. Seja seu relacionamento com os outros personagens ou sua origem. É notável desde o começo que ele vê a figura de Osamu como um pai. A forma como ele o trata e sua preocupação com ele são constantes. Espera ele chegar do trabalho, se preocupa quando demora, está sempre buscando sua atenção e aprovação. Enquanto isso, Osamu realmente o trata como filho, ensinando o que sabe, o que inclui, mas não se limita, a furtar. O garoto não frequenta a escola, porque disseram a ele que só crianças que não podem estudar em casa que vão pra escola. Aos poucos vamos entendendo o motivo disso. Mas até lá vemos como sua ligação embora intensa seja muito respaldada em acaso e necessidade.

Osamu (Lily Franky), é o único homem da família. Ele tem uma relação com Nobuyo (Sakura Ando), que ambos descrevem como algo que vai além da ligação física, “é algo de alma” dizem. Nas cenas entre os dois pouco vemos demonstrações físicas de carinho. O modo como se tratam é bastante “doméstico”, se preocupam um com o outro, e agem como um casal que está casado a bastante tempo. Onde as ações são muito mais ligadas ao cuidado mútuo do que um amor romântico. Pouco se sabe sobre como se conheceram ou mesmo a natureza do relacionamento deles, que é colocada aos poucos, e questionada até pelos outros personagens.

Na casa ainda moram a avó e matriarca da família, Hatsue Shibata (Kirin Kiki, que faleceu em setembro de 2018) e Aki Shibata (Mayu Matsuoka), que trabalha numa casa de peep shows (casa de strip-tease, com um palco cercado de cabines fechadas onde homens, depois de depositarem uma ficha, veem a tela de cristal se abrir à sua frente e do outro lado uma mulher faz strip tease).

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Hatsue vive de uma pensão, e recebe visitas de agentes do governo para garantir que mora sozinha e assim receber o benefício. Nessas horas os outros membros da família se escondem. Ela também é constantemente assediada por agentes imobiliários que tentam a persuadir a deixar sua casa e ir morar em um asilo, sem saber que na verdade não mora sozinha. Aki é quem constantemente busca o carinho e atenção da avó. Ela vive de forma solitária, mesmo em uma casa apertada e em seu trabalho onde constantemente tem que interagir com estranhos.

Todos esses dramas são vividos em uma pequena casa de cômodos mal separados. Onde o pouco é partilhado por todos, e cada um a sua maneira tentam se ajudar. É assim que acolhem Yuri, que depois de ficar pra jantar no primeiro dia, acaba ficando depois de notaram marcas pelo corpo da menina. Ao perceberem que ela é vítima de abuso decidem tomar conta dela. Em uma das cenas mais emocionantes do filme Nobuyo explica a menina, o que é amor. E é esse carinho e cuidado em torno dela que acaba os unindo mais ainda.

É na relação das duas crianças, Yuri e Shota, que vemos o principal abalo nas relações da família. O garoto tenta ensinar a ela a furtar, assim como aprendeu. Mas acaba percebendo que não é esse destino que quer pra irmã. E aí que entra um dos principais conflitos quanto a forma que a dinâmica deles funcionava até então. O que não é muito diferente de qualquer outra família, onde os filhos a medida que conhecem mais do mundo passam a questionar os valores passados até então pra eles como verdades absolutas por seus pais.

O roteiro trabalha muito bem os conflitos pessoais de cada personagem. E como isso afeta a vida conjunta deles. Assim como, apesar de seu amor um pelo outro, não podem fugir da realidade. E eventualmente precisam enfrentar as consequências de suas ações em uma sociedade em que se encontram a margem.

A pobreza, a negligência do Estado e o abuso são temas que perpassam toda a história. Mas seu principal tema é o amor e as relações que estabelecemos baseadas nele. Até que ponto somos capazes de realmente sermos justos e agir de forma coerente quando se trata de quem amamos? E como podemos definir o que forma uma família?

As relações que construímos ao decorrer da nossa vida são muito mais pautadas em regras e normas do que gostaríamos de admitir. E é aqui que esse delicado filme vai nos deixar pensando sobre onde cabe a justiça em meio ao afeto.


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