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Ateísmo, preces e neurônios

Pode um ateu rezar? Como, por que e para quem?

Um dos “efeitos colaterais” de cursar Ciências Biológicas, para alguém que acredita em Deus, é deixar de acreditar. Não que isso necessariamente ocorra, mas no meu caso e de outros que conheci, foi o que se sucedeu (não vou entrar nos porquês, pois não é o foco desse texto). O que poucos sabem é que antes disso, eu era espírita. No espiritismo, eu aprendi a rezar, e me sentia muito bem em fazê-lo. Acreditava que algum espírito ouvia minhas preces (assim como Deus, que é onisciente). Com o tempo, deixei de acreditar em Deus e nos espíritos e, consequentemente, deixei de rezar. Sentia falta, sim, mas fazer o que? Não iria seguir rezando para um deus no qual eu não acreditava.

No entanto, um fato é inegável: eu tinha uma facilidade maior de me manter nos eixos quando eu rezava regularmente. E não era por medo de ir pro inferno ou algo assim, mas porque ao rezar, eu desenvolvia boas intenções. Claro que só a intenção não é suficiente, mas se ela for cultivada todos os dias, ela vai ficando gravada em algum lugar da sua mente. E esse processo todo é muito necessário. Porque nossa mente é como a nossa tão querida Dory dos filmes “Procurando Nemo” e “Procurando Dory”: nos distraímos e esquecemos o que estávamos pensando há um minuto atrás.

Citando Alain de Botton no livro “Religião para ateus”:

“Além de precisarem ser transmitidas de forma eloquente, as ideias também devem ser constantemente repetidas para nós. Três, cinco ou dez vezes por dia, precisamos ser lembrados à força de verdades que amamos mas que, de outro modo, não somos capazes de respeitar. O que lemos às nove horas teremos esquecido na hora do almoço e precisará ser relido ao final do dia. Nossa vida interior necessita de uma estrutura, e nossos melhores pensamentos precisam ser reforçados para neutralizar a força contínua de distrações e desintegrações.
(…)
As religiões compreendem o valor de exercitar a mente com um rigor que estamos acostumados a aplicar apenas ao treinamento do corpo. Elas nos apresentam uma gama de exercícios espirituais planejados para fortalecer a inclinação a pensamentos e padrões de comportamento virtuosos: nos colocam sentados em lugares não familiares, ajustam nossa postura, regulam o que comemos, nos dão roteiros que detalham o que deveríamos dizer uns aos outros e monitoram de maneira minuciosa os pensamentos que cruzam nossa consciência. Elas fazem isso não para nos negar liberdade, mas para pacificar ansiedades e flexionar nossas capacidades morais.”

Tá, e o que os neurônios tem a ver com isso?

Nosso cérebro evoluiu para selecionar o que realmente importa em meio a uma enxurrada de estímulos externos. Portanto, ele vai buscar manter apenas aquilo que é recorrente, aquilo que provavelmente vamos precisar lembrar num momento futuro. Dessa forma, o estímulo repetitivo pode reforçar determinadas sinapses, e consequentemente, reforçar uma determinada ideia ou padrão de comportamento. Vou tentar colocar em um exemplo: você lê um texto sobre como o ódio pode gerar inúmeros obstáculos na sua vida. Na hora que você lê, faz todo sentido, mas logo você esquece, pois começa a se engajar em outras atividades, que são muito mais corriqueiras do que pensar sobre o impacto do ódio na sua vida. Agora, vamos supor que todo dia, quando acorda, você reza algo assim: “que eu me lembre que o ódio é prejudicial e que agir a partir dele me traz complicações”. Aí você começa a ficar mais atento ao ódio ao longo do dia. Pode ser até que você tenha um surto de ódio eventualmente, e não consiga se conter. Só que você percebe uma diferença. Antes você até dava razão a sua reação: “surtei mesmo, não tinha como reagir de outra forma”. Mas agora, você começa a se questionar se não existe um caminho mais interessante, e novas formas de reagir começam a se tornar possíveis.

Então, voltando às perguntas iniciais.

  1. Um ateu pode rezar? Sim!
  2. Como/por que? Existe alguém que acompanha cada um de seus passos e esse alguém não é Deus: é você mesmo. Só que você é carregado por diferentes impulsos. Você não quer ser carregado por esses impulsos, então você reza para que em momentos futuros esteja mais atento à sua própria conduta. Basta refletir sobre quais aspectos da sua vida você gostaria de mudar, mas tem dificuldade de fazê-lo, e incluir esses aspectos na sua prece. Se “prece” te parece um termo religioso demais, chame de aspiração. Não vale pedir um carro novo, um aumento de salário ou coisas do gênero, a não ser que você esteja pensando em usar esses recursos para o benefício de outras pessoas, mas isso deve estar muito claro em sua mente.
  3. Para quem? Se você seguiu meu raciocínio na pergunta anterior chegará à conclusão: para você mesmo! Mas não exatamente. Porque você mesmo é um caos, mas você reza para esse “você” mais vigilante, que vai te impedir de fazer umas cagadas.

Sugiro que você experimente isso na sua vida. Talvez você tenha uma concepção (que eu também tinha no início de minha fase ateísta) de que a prece seja uma forma de transferir a responsabilidade pela sua vida para um ser superior. Mas essa concepção que estou apresentando é justamente o contrário: a responsabilidade está inteiramente em suas mãos. Mas não entenda isso como uma crítica à ideia de rezar para Deus. Ora, se você se dá conta de que certas coisas fogem ao seu controle, nada mais justo que pedir ajuda a Deus, caso você acredite nele. Meu ponto é que, se você não acredite nele, o recurso da prece está disponível para você também.

Por fim, a prece/aspiração é só um método possível. O importante é cultivar qualidades que você aprecia e quer desenvolver em si mesmo. As várias religiões do mundo desenvolveram seus próprios métodos, mas todas elas, em sua essência, apontam para as mesmas qualidades (amor, compaixão, humildade, etc), que independem de crença para serem desenvolvidas, e mais do que isso, são necessárias caso estejamos interessados em desenvolver relações mais saudáveis, em todos os âmbitos da nossa vida.


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