Bohemian Rhapsody: A emoção e a manipulação

Esse texto contém spoilers sobre o filme Bohemian Rhapsody.

Contar histórias reais ou fazer biografias no cinema é uma tarefa complicada. Personagens precisam ser gostáveis ou detestáveis para gerar uma reação emocional no público. Para alcançar esse efeito, não é suficiente que eles sejam retratados como muito bons ou muito ruins: isso acaba não surtindo efeito porque não é como nós, seres humanos, somos na maioria esmagadora dos casos. Somos multidimensionais, temos virtudes e defeitos. Para que a identificação e, com isso, a emoção venha, é necessário que haja justamente o retrato de todas essas ambiguidades.

Por isso, é comum vermos um grande número de manipulações históricas. Às vezes, elas são sutis, pouco percebidas. Outras vezes, são exageradas e chegam a beirar o ridículo. O segundo caso costuma acontecer bastante nos filmes oscar bait, aqueles feitos diretamente para as premiações norte-americanas. O exemplo mais recente disso é o terrível O Destino de uma Nação, sobre Winston Churchill.

Como fazer o público gostar da pessoa Churchill? Mostrando que ele era gente como a gente. Só que não era. E aí nós temos uma das cenas mais grotescas da cinematografia recente — o primeiro ministro britânico andando de metrô e perguntando para os populares quais as decisões que ele deveria tomar em relação aos soldados britânicos presos na França e à iminente invasão alemã.

Esse tipo de manipulação histórica de baixíssimo nível é comum, e eu resolvi apelidá-la de Churchill no metrô. Sempre que uma cinebiografia recorre a um efeito desses para gerar identificação ou comoção, não há outro nome que eu possa usar.

Chegamos, então, a Bohemian Rhapshody. O tema central é Freddie Mercury, o vocalista do Queen, uma das maiores bandas do século XX, dona de músicas que são verdadeiros hinos — principalmente, a que dá título ao filme. Várias escolhas de caminhos poderiam ser feitas na condução desse filme, e o que aconteceu foi um mix de algumas muito boas e outras muito ruins.

Vamos começar pelo lado bom: um filme sobre um personagem que é tão conhecido e tem tantas obras que moram na cabeça e no coração de tantas pessoas tem uma solução fácil e óbvia — fazer uso dessas obras. Por isso, Bohemian Rhapsody acertadamente se enche de canções e shows, de momentos no palco, de gravações e encenações. Cada grande hit do Queen está presente em alguma parte dos 132 minutos de obra. O efeito? Pura emoção. Emoção genuína, por mérito da banda, é claro, mas que funciona como um trem desgovernado.

E o enredo? Bom, a vida de Freddie Mercury tem assunto demais: um rockstar gay em uma época que era ainda mais difícil ser gay, um homem de personalidade fortíssima, cheio de energia, que sucumbiu ao terrível drama da AIDS. Falar sobre o cantor, com um roteiro bem amarrado e o uso correto das músicas, deveria dar quase que automaticamente em um bom filme.

Isso, claro, com o elemento final: um excelente ator vivendo Mercury. E Bohemian Rhapsody acerta em cheio com Rami Malek. O ator entrega uma das melhores performances dos últimos tempos e merece demais vencer todo tipo de prêmio nas cerimônias que virão em breve.

Figura já conhecida e amada pelo público? Check. Acerto no uso das músicas como motor do filme? Check. Atuação de excelente nível? Check. Bohemian Rhapsody é, então, um filmaço? Infelizmente, não. O filme não conseguiu, mesmo sem ter nenhuma necessidade disso, escapar do efeito Churchill no metrô.

A quantidade de manipulação histórica na história real de Freddie Mercury que o filme traz é de doer. E o pior, são manipulações ardilosas, com ideias bem definidas. Os roteiristas sabem o que estão fazendo e porque estão fazendo: gerar mais emoção, mais lágrimas, mais reação do público.

No filme, a construção do personagem Mercury é feita da seguinte forma: jovem amável, impetuoso e ultra talentoso entra numa banda de rock e a leva ao estrelato. Continua sendo próximo de pessoas que eram a ele importantes, mas aos poucos, com a fama, se afasta delas, torna-se até mesmo escroto em vários momentos. Há um mergulho nas características clichês de um rockstar, o abuso de drogas, sexo e prazeres mundanos (não que a vida de Mercury não tivesse esses abusos: tinha muito mais que no filme. Mas isso não precisa ser, necessariamente, tratado como característica de uma pessoa ruim) o tornam uma caricatura indesejável. No final, descobre a doença mortal que possui, se arrepende, se reaproxima de todo mundo e morre em paz.

Existem alguns manuais de roteiro que são muito usados no que se tange ao cinema, especialmente ao cinema hollywoodiano. O mais célebre é o de Syd Field. Nele, a necessidade é que haja dois plot points (ou “virada de trama”), um com cerca de 25% e outro com cerca de 75% de filme, para manter a atenção do público. Bohemian Rhapsody usa a fama do Queen e a AIDS como suas duas grandes viradas.

Syd Field funciona, fato, e em pleno 2018 muitos roteiristas ainda fazem uso de seu manual. Por si só, esse não é um enorme defeito. Os reais problemas moram em: primeiro, o quanto é abjeto usar a AIDS como plot point dessa maneira escancarada, segundo, usar a figura de Freddie como uma pessoa ruim durante o trecho do meio do filme, sendo que a história desmente isso, para gerar uma redenção através dessa virada, e terceiro, manipular a história real de uma maneira torta para gerar efeitos emocionais em um filme que não precisava disso.

Freddie Mercury sempre foi uma pessoa multidimensional, gente como a gente, cheio de virtudes e defeitos. Como nos mostra o History vs. Hollywood, o Queen nunca se separou oficialmente, houve uma decisão mútua de dar um tempo e buscar projetos pessoais. A fama nunca gerou um afastamento em relação a Mary Austin. Todo o desconhecimento em relação ao Live Aid devido à má influência do agente/namorado da época nunca aconteceu.

Essas manipulações do roteiro são imperceptíveis para o público, mas têm esse tom ardiloso de construir um Freddie Mercury para o cinema, um Freddie Mercury que se distancia de sua figura real em nome de gerar ainda mais emoção do que a música do Queen, a história real e a atuação de Rami Malek já eram capazes de gerar, um Freddie Mercury que é Churchill no metrô.

E assim, Bohemian Rhapsody é um filme com pontos altos muito altos e pontos baixos muito baixos. Um filme que emociona, sem dúvidas, mas que perde a mão na tentativa de ir ainda mais longe nesse aspecto. Um filme com uma tremenda atuação e uso excepcional da música, mas um roteiro de baixíssimo nível. Um filme que gera sensações excepcionais em sua casca, mas que não resiste a uma análise de seu interior.

É talvez o melhor filme que não é bom lançado nos últimos anos.


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