Bohemian Rhapsody: A emoção e a manipulação

Carlos Massari
Nov 29, 2018 · 6 min read

Esse texto contém spoilers sobre o filme Bohemian Rhapsody.

Contar histórias reais ou fazer biografias no cinema é uma tarefa complicada. Personagens precisam ser gostáveis ou detestáveis para gerar uma reação emocional no público. Para alcançar esse efeito, não é suficiente que eles sejam retratados como muito bons ou muito ruins: isso acaba não surtindo efeito porque não é como nós, seres humanos, somos na maioria esmagadora dos casos. Somos multidimensionais, temos virtudes e defeitos. Para que a identificação e, com isso, a emoção venha, é necessário que haja justamente o retrato de todas essas ambiguidades.

Por isso, é comum vermos um grande número de manipulações históricas. Às vezes, elas são sutis, pouco percebidas. Outras vezes, são exageradas e chegam a beirar o ridículo. O segundo caso costuma acontecer bastante nos filmes oscar bait, aqueles feitos diretamente para as premiações norte-americanas. O exemplo mais recente disso é o terrível O Destino de uma Nação, sobre Winston Churchill.

Como fazer o público gostar da pessoa Churchill? Mostrando que ele era gente como a gente. Só que não era. E aí nós temos uma das cenas mais grotescas da cinematografia recente — o primeiro ministro britânico andando de metrô e perguntando para os populares quais as decisões que ele deveria tomar em relação aos soldados britânicos presos na França e à iminente invasão alemã.

Esse tipo de manipulação histórica de baixíssimo nível é comum, e eu resolvi apelidá-la de Churchill no metrô. Sempre que uma cinebiografia recorre a um efeito desses para gerar identificação ou comoção, não há outro nome que eu possa usar.

Chegamos, então, a Bohemian Rhapshody. O tema central é Freddie Mercury, o vocalista do Queen, uma das maiores bandas do século XX, dona de músicas que são verdadeiros hinos — principalmente, a que dá título ao filme. Várias escolhas de caminhos poderiam ser feitas na condução desse filme, e o que aconteceu foi um mix de algumas muito boas e outras muito ruins.

Vamos começar pelo lado bom: um filme sobre um personagem que é tão conhecido e tem tantas obras que moram na cabeça e no coração de tantas pessoas tem uma solução fácil e óbvia — fazer uso dessas obras. Por isso, Bohemian Rhapsody acertadamente se enche de canções e shows, de momentos no palco, de gravações e encenações. Cada grande hit do Queen está presente em alguma parte dos 132 minutos de obra. O efeito? Pura emoção. Emoção genuína, por mérito da banda, é claro, mas que funciona como um trem desgovernado.

E o enredo? Bom, a vida de Freddie Mercury tem assunto demais: um rockstar gay em uma época que era ainda mais difícil ser gay, um homem de personalidade fortíssima, cheio de energia, que sucumbiu ao terrível drama da AIDS. Falar sobre o cantor, com um roteiro bem amarrado e o uso correto das músicas, deveria dar quase que automaticamente em um bom filme.

Isso, claro, com o elemento final: um excelente ator vivendo Mercury. E Bohemian Rhapsody acerta em cheio com Rami Malek. O ator entrega uma das melhores performances dos últimos tempos e merece demais vencer todo tipo de prêmio nas cerimônias que virão em breve.

Figura já conhecida e amada pelo público? Check. Acerto no uso das músicas como motor do filme? Check. Atuação de excelente nível? Check. Bohemian Rhapsody é, então, um filmaço? Infelizmente, não. O filme não conseguiu, mesmo sem ter nenhuma necessidade disso, escapar do efeito Churchill no metrô.

A quantidade de manipulação histórica na história real de Freddie Mercury que o filme traz é de doer. E o pior, são manipulações ardilosas, com ideias bem definidas. Os roteiristas sabem o que estão fazendo e porque estão fazendo: gerar mais emoção, mais lágrimas, mais reação do público.

No filme, a construção do personagem Mercury é feita da seguinte forma: jovem amável, impetuoso e ultra talentoso entra numa banda de rock e a leva ao estrelato. Continua sendo próximo de pessoas que eram a ele importantes, mas aos poucos, com a fama, se afasta delas, torna-se até mesmo escroto em vários momentos. Há um mergulho nas características clichês de um rockstar, o abuso de drogas, sexo e prazeres mundanos (não que a vida de Mercury não tivesse esses abusos: tinha muito mais que no filme. Mas isso não precisa ser, necessariamente, tratado como característica de uma pessoa ruim) o tornam uma caricatura indesejável. No final, descobre a doença mortal que possui, se arrepende, se reaproxima de todo mundo e morre em paz.

Existem alguns manuais de roteiro que são muito usados no que se tange ao cinema, especialmente ao cinema hollywoodiano. O mais célebre é o de Syd Field. Nele, a necessidade é que haja dois plot points (ou “virada de trama”), um com cerca de 25% e outro com cerca de 75% de filme, para manter a atenção do público. Bohemian Rhapsody usa a fama do Queen e a AIDS como suas duas grandes viradas.

Syd Field funciona, fato, e em pleno 2018 muitos roteiristas ainda fazem uso de seu manual. Por si só, esse não é um enorme defeito. Os reais problemas moram em: primeiro, o quanto é abjeto usar a AIDS como plot point dessa maneira escancarada, segundo, usar a figura de Freddie como uma pessoa ruim durante o trecho do meio do filme, sendo que a história desmente isso, para gerar uma redenção através dessa virada, e terceiro, manipular a história real de uma maneira torta para gerar efeitos emocionais em um filme que não precisava disso.

Freddie Mercury sempre foi uma pessoa multidimensional, gente como a gente, cheio de virtudes e defeitos. Como nos mostra o History vs. Hollywood, o Queen nunca se separou oficialmente, houve uma decisão mútua de dar um tempo e buscar projetos pessoais. A fama nunca gerou um afastamento em relação a Mary Austin. Todo o desconhecimento em relação ao Live Aid devido à má influência do agente/namorado da época nunca aconteceu.

Essas manipulações do roteiro são imperceptíveis para o público, mas têm esse tom ardiloso de construir um Freddie Mercury para o cinema, um Freddie Mercury que se distancia de sua figura real em nome de gerar ainda mais emoção do que a música do Queen, a história real e a atuação de Rami Malek já eram capazes de gerar, um Freddie Mercury que é Churchill no metrô.

E assim, Bohemian Rhapsody é um filme com pontos altos muito altos e pontos baixos muito baixos. Um filme que emociona, sem dúvidas, mas que perde a mão na tentativa de ir ainda mais longe nesse aspecto. Um filme com uma tremenda atuação e uso excepcional da música, mas um roteiro de baixíssimo nível. Um filme que gera sensações excepcionais em sua casca, mas que não resiste a uma análise de seu interior.

É talvez o melhor filme que não é bom lançado nos últimos anos.


Gostou? Clique nos aplausos — eles vão de 1 a 50 — e deixe seu comentário!

Não perca nada: Facebook | Instagram | Twitter | YouTube

Participe do nosso grupo no Facebook e divulgue seus textos por lá!

Saiba como não perder nenhum texto através do aplicativo do Medium.

Clique aqui e saiba como fazer parte do nosso time!

Revista Subjetiva

Tudo aquilo que você não encontra na grande mídia.

Carlos Massari

Written by

Jornalista, roteirista, escritor. Falo aqui sobre cinema e os esportes que não falo em outros lugares.

Revista Subjetiva

Tudo aquilo que você não encontra na grande mídia.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade