Bondade colateral

Você também pode ser uma Madre Teresa involuntária.

Dona Pomba queria apenas voar, porém acabou provocando a paz mundial.

Segundo uma frase feita mais usada que blusa branca no ano novo, de boas intenções o inferno está cheio. Mas se é possível mirar em um aparato que voa e acabar gerando um jeito excelente de jogar bomba em civis, será que o contrário também não acontece? Será que em algum lugar não tem alguém tentando criar veneno de barata e acabar dando ao mundo sabor artificial de panetone?

Estava conversando sobre isso com um amigo no bar, algum tempo atrás. A bondade colateral: boas ações que acontecem meio sem querer, quando você estava fazendo coisas de gosto moral duvidoso.

É mais raro do que tentar ser legal e acabar fazendo várias merdas, claro, mas acontece. Como nessa história que rolou com um amigo.

Estava o dito cujo em um daqueles festivais de música. Você sabe, aqueles em que juntam um line-up incrível do qual você só queria ver duas bandas (que vão fazer show em dias separados). Aqueles em que o ingresso custa um rim e um fígado e a pista premium o restante dos órgãos. No dia, ele conheceu um broto (estou contando essa história na perspectiva de um homem de 60 anos, me deixa). Sarro vai, sarro vem, ele vão buscar uma cerveja e quando vê, a boneca entra no espaço VIP. Fazendo um sinalzinho de vem-querido.

Pois então. Amor impossível. Ele não tinha pulserinha pra entrar ali. Ela era uma Montéquio da pista VIP e ele, um Capuleto da geral. Como bom romântico (ou talvez a banda que estava tocando no momento não merecia muita atenção), não poderia deixar a história acabar ali.

Ia dar um jeito de entrar na área VIP. Olha em torno e vê… um cadeirante. O rapaz não tem dúvidas. Aborda o cidadão. Como a música estava muito alta, o diálogo original se perdeu, mas imagino que tenha se passado assim:

— Meu deus, que absurdo! Você tá conseguindo enxergar alguma coisa?

— Mais ou menos.

— Isso é uma vergonha! Você devia ter assento preferencial. Você tem direitos! Você devia estar na área VIP. Quer saber? Vou colocar você na área VIP.

— Deixa para lá, cara… — (sendo arrasado) — não precisa…

E assim foi. O rapaz levou o cadeirante até o segurança, deu uma bela lição de moral (lição de amoral?) e ainda entrou de acompanhante, provando que o amor — ou o tesão por pessoas que você acaba de conhecer em shows — sempre vence.

O cadeirante viu o resto do festival numa boa. O garoto provavelmente não viu mas banda nenhuma pois estava beijando na boca. Conquistou um lugar na lista VIP e, sem querer, que sabe, uma pulseirinha de acesso para um camarote ali no céu.

Que lição podemos tirar disso tudo? Simples. Continue sendo egoísta. Pode estar fazendo um bem enorme.


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