Cinco violências no Conto de Aia que foram inspirados em violências contra mulheres na vida real

Observações:

  1. Somente serão mencionadas violências dirigidas a mulheres, mas certamente há violências apresentadas em Conto de Aia que são dirigidas a homens também.
  2. Haverá spoilers.

Introdução — Conto de Aia, distopia feminista

O Conto de Aia é a série do momento desde 2017 e a mesma é baseada no livro de mesmo nome escrito por Margaret Atwood em 1985.

A série e o livro são impressionantes pois contam a história de uma distopia feminista, em que retrata em um futuro próximo que há um golpe de Estado e mulheres perdem todos os direitos e são agora julgadas e tratadas conforme sua posição (Esposas, Aias, Martas, Tias ou ainda Econoesposas).

Na obra, devido a subjugação total de mulheres aos homens, ocorre uma série de violências contra as mulheres ali presentes. Todas as violências são assustadoras e terríveis, mas o mais impressionante é que todas ocorreram em algum momento da história contra mulheres.

Atwood já falou em algumas entrevistas que

“quando eu escrevi [o livro] eu estava tendo certeza de que não estava colocando nada na história que seres humanos já não tivessem feito em algum lugar em algum momento”.

Muito se fala sobre o medo do Conto de Aia e o controle do corpo feminino se tornar real — e o medo é real mesmo — mas esquecemos que muitas dessas violências estão ocorrendo ou já ocorreram há poucos anos atrás em vários locais.

No presente texto será apresentado cinco violências contra mulheres que aparecem no livro ou na série e os ligar a uma violência real que o “inspirou”.

1) Mutilação Genital Feminina

Uma das personagens, Emily, tem seu clitóris removido, uma situação que simboliza mutilação genital feminina.

Mutilação genital feminina é a remoção parcial ou total de órgãos sexuais femininos. A idade em que a mutilação ocorre depende do país, variando de dias após nascimento a puberdade.

A parcial corresponde a remoção do clitóris e do prepúcio clitoriano e o total, a remoção dos grandes e pequenos lábios e fechamento da vulva. No fechamento da vulva, um procedimento denominado infibulação, deixa-se um orifício para urina e sangue da menstruação. A OMS o classifica em quatro tipos.

Esse tipo de prática é em si uma violência contra direitos humanos mas, além disso, afeta a saúde de modo a causar infecções, dor crônica, dificuldade em urinar, cistos, infertilidade, complicações ao parto e hemorragias.

Comumente, mutilação genital feminina é feita por razões de aceitação social, religião, higiene, preservação da virgindade, aumento da possibilidade de casamento e aumento do prazer sexual masculino.

O Fundo de População da ONU (UNFPA) estima que cerca de 68 milhões de meninas e mulheres sofrerão mutilação genital até 2030; e que se nada for feito para deter a mutilação genital feminina, as 3,9 milhões de meninas mutiladas por ano se tornarão 4,6 milhões de meninas mutiladas por ano.

Mais especificamente a situação apresentada da série em que uma personagem lésbica sendo punida por ser uma “traidora de gênero” (termo utilizado pelo programa) faz uma conexão direta a época em que clitoridectomia (uma das espécies de mutilação genital feminina) e a retirada de ovários eram praticadas para curar melancolia, ninfomania, histeria, masturbação, epilepsia e lesbianismo.

2) Cultura do estupro (e a culpabilização de vítimas)

Há uma cena em que Janine está rodeada das demais aias no Centro Vermelho e após relatar que foi estuprada, Tia Lydia questiona “E de quem foi a culpa?” e as aias apontam a Janine e respondem “Sua culpa” algumas vezes.

Essa culpabilização da vítima sexual faz parte da chamada cultura do estupro, assim como a objetificação sexual de mulheres, a negação de estupros, a normalização de comportamentos violentos no sexo e mitos de estupro.

Cultura do estupro indica que a sociedade vê comportamentos sexuais violentos e indesejáveis como normais, justificando as ações de agressores como “instinto animal” enquanto responsabiliza vítimas pela violência que sofreram. Afinal, cultura não significa apenas coisas bonitas e artísticas, mas sim o comportamento de determinada sociedade naquele período de tempo.

Inclusive, Furiosa traça uma conexão da cultura do estupro ao patriarcado:

“A cultura do estupro só é possível porque existe a hierarquia entre os sexos e porque atrelada a essa hierarquia estão papéis sociais. E ambos — a hierarquia e os papéis sociais — se prestam a manter, a reproduzir e a alimentar a estrutura em que estão inseridos: o patriarcado.”

A culpabilização da vítima implica que a vítima é, na verdade, a responsável por aquilo que sofreu, questionando-se se ela se comportou de determinada forma, se vestiu de certa forma, se falou alguma coisa que abriria possibilidade para isso.

Acontece que: a pessoa que foi estuprada não é a responsável pelo que lhe aconteceu — em nenhuma situação, de forma alguma. Não foram suas ações que deram causa ao estupro, mas sim do estuprador. A culpa é do estuprador — inteiramente dele.

Inclusive, vamos enfatizar aqui algo que já falei anteriormente:

“Se estupro fosse sobre quão reveladoras as roupas são; os números de estupro aumentariam exponencialmente no verão. Mas isso não acontece. Se estupro fosse sobre quanto sexo ou quão ‘rodada’ você é, virgens não seriam estupradas. Mas, infelizmente, são. Se estupro fosse sobre quão atraente alguém é, então só pessoas tipicamente bonitas seriam estupradas. Mas, isso não é verdade. Se estupro fosse sobre quão bêbado ou drogado alguém esteja, então sóbrios não seriam estuprados. Mas, infelizmente, eles são. E o que isso te diz? Não sei você, mas isso me diz que não é culpa de quem sofreu estupro.”

Os dados no Brasil mostram que 1 mulher a cada 11 minutos é vítima de violência sexual. Isso são 130 mulheres diariamente. Isso são 47.450 mulheres anualmente.

Falo mulheres, pois elas costumam ser as vítimas. E cerca de 70% dos estupros é cometido por um conhecido que mora com a vítima.

Menciono dados do Brasil, porém a violência sexual não se limita a apenas o Brasil; ela ocorre em todo o mundo.

3) Pena de morte a lésbicas

No universo de Gilead, homens e mulheres homossexuais são considerados “traidores de gênero”; os homens gays e algumas mulheres lésbicas são executadas, pois ser homossexual é um crime capital.

Emily e Moira, personagens lésbicas da série/livro, não são mortas porque elas são férteis e, portanto, são perdoadas de seus pecados ao servirem como aias.

Segundo a Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexuais, um total de 72 países veem como crime o relacionamento entre homossexuais, em que 8 países preveem pena de morte para LGBTs.

Dentre esses países, os 8 em que o relacionamento com pessoas do mesmo sexo podem resultar em pena de morte são Irã, Arábia Saudita, Iêmen, Sudão, em partes da Somália, em partes da Nigéria, Síria e Iraque.

Ainda há cinco países — Paquistão, Afeganistão, Emirados Árabes Unidos, Catar e Mauritânia — em que a pena de morte é permitida por uma interpretação da lei islâmica.

Nos demais países que criminalizam a homossexualidade, a pena é o encarceramento.

Relatório Anual da ILGA de 2017

4) “Noivas infantis” e casamento infantil

A cena acima é quando há uma reunião de pessoas para observar “bons homens” se casarem com meninas que foram dadas em casamento para eles. Fica bem claro, desde o início, que as meninas são muito novas, devido aos comentários das demais mulheres.

O casamento infantil atinge 20 mil meninas diariamente; meninas antes dos 18 anos que são obrigadas a se casarem com homens bem mais velhos. Segundo os dados da Unicef: 7,5 milhões de meninas se casam anualmente antes de atingirem 18 anos, algumas delas após atingir 10 anos.

O casamento infantil é uma violação aos direitos das crianças e adolescentes.

O casamento infantil é preocupante pois aumenta as chances dessas meninas serem vítimas de violência doméstica, estupro marital, mortalidade materna e infantil, além de corresponder a 30% da evasão escolar de meninas mundialmente, o que leva a meninas terem rendas inferiores quando adultas.

Segundo o Banco Mundial, o Brasil é o quarto país com mais casamentos infantis no mundo e o país com mais casamentos infantis na América Latina. Inclusive, 36% da população feminina é casada antes dos 18 anos.

É recomendado que a legislação apenas permita casamentos após ambas as partes atingirem 18 anos. No entanto, há legislações que permitem exceções em que os pais ou juízes deem o consentimento para o casamento antes da maioridade, deixando cerca de 96 milhões de meninas vulneráreis.

A legislação no Brasil é uma das legislações que permite o casamento de alguém com 16 anos, desde que com o consentimento dos pais ou a qualquer idade em caso de gravidez. E o mais assustador de todos, até 2005 era permitido o casamento de alguém a qualquer idade para “reparar” o dano em caso de estupro; tal dispositivo foi eliminado do Código Penal, mas ainda existe no Código Civil.

Além de haver exceções, não há previsão de punições para quem permita e quem se case com meninas. Na verdade, esse tipo de dispositivo legal só existe em 7 países da América Latina (Chile, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela).

5) Proibição da educação a meninas e mulheres e Malala Yousafzai

No universo de Gilead, mulheres não são permitidas a ler e ter qualquer tipo de acesso à educação. Assim que o golpe no Estado é executado, acadêmicos e cientistas são assassinados. A partir daquele momento, somente alguns homens de classes altas são permitidos de ter acesso à educação; de modo que, mulheres e meninas que sejam vistas lendo algo são gravemente punidas.

A proibição de ler é tão grande que as mulheres fazem compras com senhas com desenhos do que irão comprar; nunca palavras.

Não é novidade alguma que conhecimento é poder; conhecimento é uma das poucas formas de ascender socialmente. Afinal, conhecimento implica em saber que há opções. Logo, uma forma de reduzir direitos das mulheres e meninas é comprometer a educação destas.

E por mais que há avanços atualmente, ainda há regiões do mundo em que meninas e mulheres são privadas de terem acesso ao conhecimento. Falar nisso, nos leva a Malala.

Malala Yousafzai nasceu no Paquistão, mais especificamente na província de Khyber Pakhtunkhwa, e que por insistir em frequentar a escola, talibãs atiraram três vezes em sua cabeça quando ela tinha 15 anos. Uma das balas atingiu o lado esquerdo da testa e percorreu a pele, ao longo do rosto até o ombro.

A tentativa de assassinato recebeu atenção mundial, a ponto de que a ONU peticionasse em nome de Malala a exigência de que todas as crianças estivessem inscritas em escolas até 2015. Tal petição levou a primeira lei de direito à educação no Paquistão. Malala, e o slogan I am Malala, se tornou o rosto do movimento em defesa do direito a educação.

Considerações finais — há mais paralelos possíveis

Infelizmente, a história das mulheres é cercada de violência dirigida a elas. Sendo algumas violências apagadas, simplesmente por não termos acesso a toda história das mulheres e outras vezes porque essas violências são naturalizadas e justificadas por questões culturais e/ou religiosas.

É triste o quanto de violência foi e ainda é dirigido a mulheres, mas não esqueçam: NOLITE TE BASTARDES CARBORUNDORUM [que em português seria “Não permita que os bastardos reduzam você a cinzas”]

Por haver mais paralelos possíveis, a parte dois desse texto trará mais violências contra mulheres que inspiraram Conto de Aia.