Como essa gente dorme?

Leandro Marçal
Aug 23, 2017 · 3 min read
Acervo do Google.

A conversa com o travesseiro antes de entrar no transe profundo do sono pode durar mais tempo do que o desejado, a depender do que lembro ao fim do dia. Não foram poucas as vezes em que um deslize ou uma expectativa me deixou reflexivo demais e me fez dormir de menos.

Como nas vésperas de grandes eventos ou entrevistas de emprego. Quando mais novo, ficava projetando e imaginando como iria ser, o que me tirava o sono. Agora, procuro nem pensar em como vai ser, que me leva automaticamente a pensar em como vai ser, que me leva a tentar ignorar a expectativa de como vai ser, que me leva a ficar frustrado por não conseguir deixar de pensar em como vai ser, o que também me tira o sono.

Manias de ansioso, esse estranho clube do qual sou associado já há alguns anos. Antes era mais frequente, mas ainda guardo certa nostalgia de sentir a mente trabalhando sem parar, incapaz de um descanso. Na piscina desse clube cada vez mais frequentado, supero o trauma de grande concentração de água e mergulho profundamente quando estou com roupas de banho.

A consciência pesada é outro fator gritante a me impedir de desfrutar o único momento de total liberdade humana. Pois só durante esse transe é que criamos nosso mundo, com nossas regras, ainda que não tenhamos total consciência de que ali tudo podemos. Sim, eu vi aquele filme do DiCaprio e também acho ótimo e complicado, como é dormir nos dias insones.

Basta dar uma resposta meio atravessada para alguém próximo e pronto: será que peguei pesado? Eu deveria falar assim? “Preciso pedir desculpas assim que acordar”, penso. Só não o faço porque mal durmo quando chego a esse ponto. Educação, autocontrole, decência, me cobro, sem olhar nos olhos do travesseiro para não fitar o chão e adiar ainda mais o sono.

Cheguei ao ponto de mal dormir também no dia da visita de uma prima minha, de 13 anos. Ela convive comigo desde bem nova, é quase irmã. Mesmo sem vontade alguma de ter filhos, reconheço a responsabilidade de cada um de nós na criação de melhores seres humanos para tentar inutilmente deixar algo de melhor para o mundo — pelo menos para não ficar com a consciência pesada e dormir bem à noite, sem ouvir sermões do travesseiro.

Ao responder sobre as novidades da escola desde a última visita, ela falou com naturalidade das duas professoras indo até o mercado mais próximo da instituição estadual para comprar mistura para as crianças. Ninguém aguentava mais uma semana de salsicha na merenda para quem passa oito horas no colégio. Houve até quem optasse por levar marmita. Ouvi e pensei em ficar acordado pelo resto da vida.

Marcha nazista, marcação na mão para não repetir merenda, falta de merenda, roubo de verba para merenda. Demais para mim. Hospitais jogados às traças, florestas sumindo do mapa, gente morrendo de fome e de sede e de frio e de tiros e de descaso. Como ainda dormimos depois de ouvir sobre racismo, homofobia, xenofobia, trabalho escravo e tanta opressão em plena Era das mensagens instantâneas?

Poderia ter a casa mais linda e a mulher mais formosa, que me proporcionasse uma noite de sexo dessas de esgotar todas as forças possíveis do fundo da alma. Meu sono não seria capaz de bater à porta do quarto e carregar toda essa culpa, enquanto descansasse em sonhos burgueses, ao causar essas tragédias diárias vestindo ternos riscados e assinando desesperança ao assinar papeis cheirosos com canetas caríssimas.

Se há quem inveje essa casta do andar de cima, responsável por tanta miséria causadora de absurdos nesse lugar estranho, gigante, bonito e sofrido onde moro, só consigo perguntar ao meu travesseiro, nos meus últimos suspiros noturnos: como essa gente dorme?

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Leandro Marçal

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Um escritor careca e ansioso. Autor de “De Letra: o futebol é só um detalhe” e “No caminho do nada”. Cronista no Tirei da Gaveta (www.tireidagaveta.com.br).

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