Contos de enfado

Cecilia Santos
Aug 9 · 3 min read

Conte histórias infantis. Inocentes e cândidas como as crianças. Veja que belíssima a cena do lobo devorando uma avó inocente. Imagine como é puro do olhar infantil que imagina o caçador abrindo a barriga do lobo com sua faca afiada. Será que aquela bela cabecinha consegue imaginar tanto sangue? Quanto sofrimento há na beleza destes contos? A jovem Cinderela que é tratada como empregada, desprezada e humilhada, para, por mágica, encontrar um pouco de paz. E a fúria da madrasta má que manda matar a afilhada que, se vendo obrigada a fugir, vai se refugiar junto a sete homens em uma floresta (bem sugestivo não?). A princesa amaldiçoada a dormir eternamente, a sereia que se vê obrigada a trocar sua bela voz por um par de pernas para tentar encontrar o seu amor. Nas histórias infantis toda felicidade é permitida em troca de resignação, magia e dor. E as nossas crianças, será que elas crescem esperando uma fada madrinha para resolver seus próprios problemas? Por que os contos não são revolucionários? Pensemos em versões diferentes.

Desta vez a avó, que mora sozinha na floresta, guarda uma carabina atrás da porta e ameaça o lobo antes que ele a ataque. Este foge amedrontado e encontra a menina de capuz vermelho vindo pelo caminho, ela sente medo, mas, corajosamente, o ataca com a cesta de frutas e foge, não restando ao lobo nada mais que se esconder na floresta. E o caçador, bem ele está um pouco velho e gordo demais de tanto tomar chá à tarde na casa da vovó…

E a bela Cinderela acaba de receber a notícia do novo casamento do seu pai, espera desconfiada a chegada daquela que tomaria lugar da sua mãe e de suas novas irmãs. Quando a madrasta chega e começa a tentar humilhá-la, se queixa ao pai, e como este não reage às suas reclamações ela adere ao boicote pacífico, não faz nada do que lhe ordenam e se tentam castigá-la mais duramente desaparece, indo para as ruas onde faz pequenos serviços. Soube do grande baile, mas nunca conheceu o príncipe porque se diverte mais passando as noites na taverna bebendo e tramando contra o rei. Sua fada madrinha nunca apareceu, e nem ela espera que um dia apareça, pois prefere dançar nua na floresta em entusiásticos sabás. Odeia ratos e abóboras e não usa saltos altos.

Branca de Neve, após a morte do pai, começa a sofrer retaliações da sua madrasta por conta de sua grande beleza. Promete um condado a um jovem arqueiro para que ele assassine a rainha, sua madrasta. O arqueiro seduzido pela beleza da princesa e por suas promessas de riqueza acerta uma flecha certeira no coração da malévola. Branca de Neve se torna rainha, desposa o príncipe herdeiro do reinado vizinho aumentando ainda mais o seu domínio. O arqueiro recebe as terras que lhe foram prometidas, se torna chefe da cavalaria real, fiel protetor da rainha e seu amante. Os anões estão tendo que trabalhar em dobro porque a rainha Branca de Neve aumentou o imposto para exploração da mina de diamantes que fica em suas terras. Neste reino não se plantam maçãs e o espelho mágico foi vendido antes da morte da madrasta para um grupo de ciganos itinerantes.

A Bela Adormecida nunca adormeceu porque as fadas e as bruxas haviam sido queimadas na fogueira, e ela se casou com um homem quarenta anos mais velho num acordo do seu pai com um reinado próspero. Dias após o seu casamento ela envenenou o próprio marido e governou sozinha, enfrentando diversas guerras numa disputa sucessória. Alice, depois do seu sonho com o país das maravilhas parou de usar LSD, e a Sereiazinha encantava marinheiros com seu canto até que foi atravessada por um arpão de pesca.

Rapunzel cortou ela mesma suas tranças e desceu pela torre assim que teve chance e logo depois se apaixonou por uma aldeã. E a Bela recusou-se a ceder à chantagem da Fera para libertar o seu pai, que teve que encontrar outros meios de negociar sua liberdade enquanto Bela tornava-se a primeira inventora daquela região.

Tantos destinos possíveis quando mulheres resistem ao feliz para sempre e são enfim felizes para sempre.

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Cecilia Santos

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degustadora de palavras. com mel. com cachaça. com pimenta.

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