Revista Subjetiva
Published in

Revista Subjetiva

Corpos são corpos

A beleza esconde infernos em nada diferentes daqueles expressos pela "feiúra"

uma época em que eu estava me achando bem "perfeita"

Eu também durante muito tempo achei que beleza traria amor. Pior: eu achava que quando eu estivesse “perfeita” — bonita e magra — o amor viria. Eu pensava: quando eu chegar “lá” alguém vai se apaixonar por mim.

Ontem terminei de ler o novo livro da Elena Ferrante, A Vida Mentirosa dos Adultos. Dá uma raiva dos adultos-padrão, uma vontade de nunca ser igual. Queria eu ter tido a inteligência e a presença de espírito da protagonista quando eu tinha a idade dela. Muita dor teria sido evitada. Mas enfim, o que eu queria dizer é que tem uma passagem em que Giannì se olha no espelho, reconhecendo-se ainda mais feia do que os outros dizem, ri, e conclui que “o erro foi ter feito disso uma tragédia”. “Se você olhar, mesmo que por um momento, para aqueles que têm o privilégio de um rosto belo e refinado, você descobrirá que ele esconde infernos em nada diferentes daqueles expressos por rostos feios e grosseiros. O esplendor de um rosto, mesmo realçado pela bondade, abrigava e prometia sofrimento ainda mais do que um rosto opaco”.

Lembro uma vez que eu estava “perfeita”: bonita, magra, bronzeada. Ia sair com um cara pela primeira vez, um cara com quem eu estava falando havia algumas semanas e que pela conversa parecia que estava bem a fim de mim. Me vesti toda linda e quando eu estava no ponto do ônibus ele me mandou uma mensagem cancelando.

Nunca. Nunca a perfeição — beleza, magreza — me trouxe amor. Não existe um lugar no qual a gente precisa chegar para ser merecedora de amor. Um lugar de adequação. Tipo “agora sim estou adequada” e digna de ser amada. O estado “perfeito” do meu corpo, além de não existir a não ser na minha cabeça, nunca fez ninguém se apaixonar por mim. “Não sou fotógrafo de moda. Corpos são corpos” — me disse um cara uma vez em que eu exprimi toda a minha insegurança perguntando por que ele tinha se atraído pelas minhas imperfeições.

Não é pelo corpo e pela beleza que alguém vai gostar de mim, por mais estranho que isso possa parecer pra quem cresceu acreditando que tinha que ser bonita e gostosa como Luíza Brunet e Monique Evans.

Ále Nahra mora atualmente na Guarda do Embaú, Santa Catarina. Acaba de lançar seu primeiro livro: O Chão que me Fez — uma jornada de agroecologia e autoconhecimento pela América Latina, que relata a viagem por cinco países das Américas do Norte e Central em busca de projetos de agricultura urbana e permacultura. Enquanto viajava, escrevia matérias para o site Herbívora e um diário de viagem no Medium. O Chão que me Fez reúne as duas narrativas e conta como a autora se deparou com a história da chegada dos europeus em Abya Yala, e suas consequências dolorosas que perduram e se reproduzem até hoje — e, ao mesmo tempo, se descobriu desejante mulher latinoamericana.

--

--

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store