Corrupção policial, um ônibus sequestrado e a luta pela sobrevivência

Resenha do livro “Cela Sem Portas”, de Marcel Trigueiro

Lucas Machado
Oct 12, 2017 · 5 min read

Informações

Autor: Marcel Trigueiro

Editora: Freeze Shadow Editora

Ano de Lançamento: 2017

N° de Páginas: 311

Disponível em: https://goo.gl/68JcFV

Sinopse

“Portador de uma forma rara de esclerose, Miguel consegue mover apenas os olhos, pálpebras e parte da mão direita, o que lhe permite ter um mínimo de independência para portar-se normalmente no mundo cibernético e sair-se relativamente bem na escola. Como ontem foi dia dos professores, Miguel redigiu e sua mãe transcreveu de próprio punho uma pequena carta que pretendem entregar à professora preferida dele, numa singela homenagem, assim que ela chegar para dar aula.

Nessa mesma manhã excepcionalmente quente de primavera, pouco mais de quinze pessoas são feitas reféns por dois homens armados dentro de um ônibus próximo à Lagoa Rodrigo de Freitas. Tirar as vítimas das garras daqueles sequestradores deveria ser competência exclusiva das forças policiais cariocas. Entretanto, depois que a Polícia Civil começa a agir e a imprensa monta seu aparato para que todo o país fique ciente do que está acontecendo, uma fatalidade faz com que o agente federal de Inteligência Matheus Erming entre na operação. A partir daí, a situação vai ficando cada vez mais desesperadora para todos os que acompanham o sequestro.

Para Miguel e sua mãe, que assistem a tudo na escola, o desespero e a sensação de impotência são amplificados quando se deparam com uma dura realidade e uma possibilidade talvez não tão remota. A realidade: a professora não chegará a tempo para a aula. A possibilidade: que aquela carta jamais seja lida.”

Resenha

A história se passa na cidade do Rio de Janeiro, sendo o sequestro de um ônibus feito em frente ao Clube da Marinha na Lagoa Rodrigo de Freitas, o autor utiliza na narrativa elementos que são comuns aos brasileiros, como por exemplo a corrupção policial, que é estrutural e retratada no livro mostrando que a trama não é sobre policial bons X bandidos ruins, mas sim entre policiais bons X policiais ruins X bandidos ruins, mostrando que não há um lado certo e um errado, mas várias formas de se posicionar frente a este acontecimento.

O sequestro do ônibus 174 é algo que fica presente na mente dos policiais ali presentes, como um episódio que manchou a corporação e que não pode se repetir, mas será que eles vão conseguir?

O livro se divide em 6 arcos principais:

O primeiro arco principal é o de Miguel, um jovem que possui uma forma rara de esclerose e consegue apenas movimentar a pálpebra, mas o mesmo, apesar de possuir tal doença, consegue fazer proezas durante o livro que são fundamentais para o desenvolvimento da história, sem ele talvez o final não fosse o mesmo. O segundo arco é o de Cristina, uma policial que negocia diretamente com os dois sequestradores do ônibus, ela se mostra uma mulher forte e determinada, que utiliza técnicas — bem descritas pelo autor — para tentar controlar a situação, por mais que a mesma saia do controle por motivos externos.

O terceiro arco é o de Matheus, um Agente de Inteligência da Polícia Federal, o protagonista da história, que se mostra muito mais do que apenas um simples hacker durante a trama. O quarto arco é o de Macedo, um coronel da PM que lida diariamente com seus problemas familiares, o autor tenta humanizar os policiais de uma forma não-romântica, o que considero algo positivo, retratando que os mesmos para além da farda possuem problemas que julgaríamos simples, mas que podem ser cruciais no final da história. A filha de Macedo protesta contra a violência policial, enquanto o pai se insere em caminhos obscuros.

O quinto arco é o de Ângela, a professora de física da escola de Miguel, uma jovem simples que se encontra no ônibus sequestrado, que luta durante a trama contra seu próprio nervosismo, a personagem divide suas emoções com a “Ângela real”, que não possui controle emocional da situação, e com a “Ângela perfeita”, que se mantém firme e forte mesmo durante as agressões físicas e verbais dos dois sequestradores. O sexto arco é o de um empresário milionário, dono de uma prestadora de serviços para o governo, que se envolve em um esquema de corrupção, o livro chama a operação de “Lava-Louças”, fazendo uma alusão a operação “Lava-Jato”, protagonizada no livro pelo Juiz Washington e na vida real pelo dúbio Moro.

O desenvolvimento da história envolve muitas reviravoltas, sendo difícil prever o possível final do livro, além de que ele possui uma variedade grande de problemáticas que são atuais e relevantes, como o movimento hacker, por exemplo, o dia-a-dia da família de uma pessoa com deficiência, o fundamental papel da educação especial, dentre outros que são abordados.

Em um primeiro momento, acreditei que o livro tivesse muito haver apenas com o sequestro do ônibus 174, mas ele vai muito além, digamos que o sequestro do ônibus é apenas a ponta do iceberg, durante o desenvolver do livro é possível perceber que há coisas sentenças muito mais complexas e difíceis de serem resolvidas. O final do livro é surpreendente, se você gosta de plot twist e conto policial, esse é o livro certo para você.

Prós

  • O livro consegue abordar temas que são caros aos cariocas de uma forma clara e limpa, inserindo tais temas como pano de fundo para a trama.

Contras

  • A separação do livro em horas pode ser confuso para um leitor mais desatento, talvez funcionasse melhor colocando o nome dos personagens em cada capítulo.

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Lucas Machado

Written by

Cientista social, professor de Sociologia, criador da Revista Subjetiva e debatendo sobre masculinidades no podcast Homem Também Chora.

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