Cristão armamentista na verdade é anticristo
O triunfo dos cristãos armamentistas — caso Bolsonaro chegue ao poder — é o triunfo de qualquer coisa avessa a Cristo

Olha só como é destoante a minha noção sobre duas coisas fundamentais: perante a vida, a vida total, sou um profundo entusiasta. Não há nada na natureza que me desagrade, que me desanime, que me cause repulsa. Penso, sem muita dificuldade, que terremotos, ciclones, tsunamis e todo tipo de tragédia natural têm suas razões de ser. Nunca me angustiei sobre a verdade inexorável de que a sobrevivência das espécies depende do crudelíssimo fator de que as mais fortes literalmente comam, a sangue quente, as mais fracas. E acho que até os vermes são louváveis. Ao contrário do que costuma ser, a crueza, a violência imanente e a explosão exuberante de acontecimentos caóticos da biologia me fascinam desde menino.
Enfim, sobre tudo que é natureza, até nos seus mais complexos e dramáticos processos, eu tenho a maior facilidade de entender e aceitar. Entendo e me conformo com tudo, sim; menos com o humano. Ao contrário da minha visão sobre a vida, sob essa perspectiva voltada estritamente a nós, não sou capaz de assimilar, nem mediante a mais elevada empatia, as nossas torpezas, as nossas violentas contradições.
Uma vez disse a um amigo que somos máquinas de distorces as grandes visões. De tempos em tempos aparece alguém esclarecido, de luz própria, cheio de alegria, e nos deixa um punhado de mensagens e conselhos. Mas, antes que possam findar em paz suas jornadas na terra, envenenamos, crucificamos, enforcamos e metemos uma bala na cabeça de todas essas pessoas. Depois de algum tempo, como que arrependidos, porém sem o “mérito” da culpa, louvamos e idolatramos esses seres excepcionais. Só depois de mortos, enfim, é que se tornam genuínos, sábios e santos. E, no louvor e na idolatria de quem nós assassinamos, pior de tudo é que também distorcemos as mensagens, os conselhos e ensinamentos dos quais nos foram deixados.
Por isso digo que não preciso de muito para acreditar que o ser humano é e sempre será essa anomalia nociva, essa morbidez sombria e perversa.
Para deixar mais claro o que quero dizer, me basta citar um único fator, um único, exclusivo, histórico e atualíssimo fator que legitima meu pessimismo profundo sobre a perspectiva estritamente humana. E esse fator simples e pontual é que ainda há toda uma horda de milhões e milhões de pessoas que se dizem cristãs e, ao mesmo tempo, armamentistas.
Vou repetir e não é preciso qualquer explicação — a torpeza está implícita na própria expressão: cristãos armamentistas. Pronto. Isso basta: se há todo um mundo cristão que defende armas, guerras, mortes etc, apenas isso já me é suficiente para validar todo o meu sentimento de derrota sobre a nossa condição. (Pois, evidente, não é apenas o cristianismo: verdade é que, ao longo da história, temos cometido genocídios e genocídios em nome das grandes visões, sejam elas religiosas, filosóficas, sociais e/ou políticas. Cristianismo, islamismo, comunismo, capitalismo e segue a extensa lista.)
Imagine que para o cristão ter sincretizado armas de fogo com os Evangelhos é a mesma coisa que tornar digno e comum, daqui um tempo, se definir como vegetariano, mas que também é carnívoro e defensor da indústria da carne.
É dificílimo engolir o fato de que há um número imenso de pessoas que têm fetiches por instrumentos letais, pessoas que veneram a violência e o assassinato de determinada parte da população e que buscam validar seus intentos facínoras na religião que nasceu das ideias e da história de um homem que ousou defender exatamente essa mesma parte da população que, hoje, querem assassinar. Ou seja, é uma equação ininteligível ser carregado dessa sinistra pulsão de morte e, ao mesmo tempo, venerar e idolatrar Jesus, aquele que, dentre tantas coisas, foi executado porque, a fim de legitimar sua doutrina pacifista, não apresentou a menor das resistências e deu a própria vida como exemplo de seus ensinamentos de não violência.
Essa torpeza, apesar de tão viva atualmente, tão viva no Brasil de deus e da família tradicional que está do lado de Bolsonaro, tem sua herança nos primórdios do cristianismo. É toda uma tradição medonha que dura mais de dois mil anos. Pois bastou Cristo morrer na cruz para que a deturpação em seu nome começasse a se proliferar.
Disse Leandro Karnal, no seu brilhante “Pecar e perdoar”, mais ou menos o seguinte: de que a vitória do cristianismo tinha sido não a vitória de Cristo, mas a vitória dos fariseus. O triunfo da lei sobre o amor — nada de revolucionário; e que manteve o status quo do qual o Nazareno tanto quis subverter.
Pois bem: o triunfo dos cristãos armamentistas — caso Bolsonaro chegue ao poder — é o triunfo do anticristo. Se você vai votar em Bolsonaro principalmente por motivos religiosos, tenha a certeza de que esses tais motivos podem ser de princípios de qualquer coisa combatente, bélica e facínora; mas não é, por hipótese alguma, pelos princípios da religião de Cristo.
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