Cristão armamentista na verdade é anticristo

O triunfo dos cristãos armamentistas — caso Bolsonaro chegue ao poder — é o triunfo de qualquer coisa avessa a Cristo

Felipe Moreno
Aug 31, 2018 · 4 min read
( Marcos Alves/Agência O Globo)

Olha só como é destoante a minha noção sobre duas coisas fundamentais: perante a vida, a vida total, sou um profundo entusiasta. Não há nada na natureza que me desagrade, que me desanime, que me cause repulsa. Penso, sem muita dificuldade, que terremotos, ciclones, tsunamis e todo tipo de tragédia natural têm suas razões de ser. Nunca me angustiei sobre a verdade inexorável de que a sobrevivência das espécies depende do crudelíssimo fator de que as mais fortes literalmente comam, a sangue quente, as mais fracas. E acho que até os vermes são louváveis. Ao contrário do que costuma ser, a crueza, a violência imanente e a explosão exuberante de acontecimentos caóticos da biologia me fascinam desde menino.

Enfim, sobre tudo que é natureza, até nos seus mais complexos e dramáticos processos, eu tenho a maior facilidade de entender e aceitar. Entendo e me conformo com tudo, sim; menos com o humano. Ao contrário da minha visão sobre a vida, sob essa perspectiva voltada estritamente a nós, não sou capaz de assimilar, nem mediante a mais elevada empatia, as nossas torpezas, as nossas violentas contradições.

Uma vez disse a um amigo que somos máquinas de distorces as grandes visões. De tempos em tempos aparece alguém esclarecido, de luz própria, cheio de alegria, e nos deixa um punhado de mensagens e conselhos. Mas, antes que possam findar em paz suas jornadas na terra, envenenamos, crucificamos, enforcamos e metemos uma bala na cabeça de todas essas pessoas. Depois de algum tempo, como que arrependidos, porém sem o “mérito” da culpa, louvamos e idolatramos esses seres excepcionais. Só depois de mortos, enfim, é que se tornam genuínos, sábios e santos. E, no louvor e na idolatria de quem nós assassinamos, pior de tudo é que também distorcemos as mensagens, os conselhos e ensinamentos dos quais nos foram deixados.

Por isso digo que não preciso de muito para acreditar que o ser humano é e sempre será essa anomalia nociva, essa morbidez sombria e perversa.

Para deixar mais claro o que quero dizer, me basta citar um único fator, um único, exclusivo, histórico e atualíssimo fator que legitima meu pessimismo profundo sobre a perspectiva estritamente humana. E esse fator simples e pontual é que ainda há toda uma horda de milhões e milhões de pessoas que se dizem cristãs e, ao mesmo tempo, armamentistas.

Vou repetir e não é preciso qualquer explicação — a torpeza está implícita na própria expressão: cristãos armamentistas. Pronto. Isso basta: se há todo um mundo cristão que defende armas, guerras, mortes etc, apenas isso já me é suficiente para validar todo o meu sentimento de derrota sobre a nossa condição. (Pois, evidente, não é apenas o cristianismo: verdade é que, ao longo da história, temos cometido genocídios e genocídios em nome das grandes visões, sejam elas religiosas, filosóficas, sociais e/ou políticas. Cristianismo, islamismo, comunismo, capitalismo e segue a extensa lista.)

Imagine que para o cristão ter sincretizado armas de fogo com os Evangelhos é a mesma coisa que tornar digno e comum, daqui um tempo, se definir como vegetariano, mas que também é carnívoro e defensor da indústria da carne.

É dificílimo engolir o fato de que há um número imenso de pessoas que têm fetiches por instrumentos letais, pessoas que veneram a violência e o assassinato de determinada parte da população e que buscam validar seus intentos facínoras na religião que nasceu das ideias e da história de um homem que ousou defender exatamente essa mesma parte da população que, hoje, querem assassinar. Ou seja, é uma equação ininteligível ser carregado dessa sinistra pulsão de morte e, ao mesmo tempo, venerar e idolatrar Jesus, aquele que, dentre tantas coisas, foi executado porque, a fim de legitimar sua doutrina pacifista, não apresentou a menor das resistências e deu a própria vida como exemplo de seus ensinamentos de não violência.

Essa torpeza, apesar de tão viva atualmente, tão viva no Brasil de deus e da família tradicional que está do lado de Bolsonaro, tem sua herança nos primórdios do cristianismo. É toda uma tradição medonha que dura mais de dois mil anos. Pois bastou Cristo morrer na cruz para que a deturpação em seu nome começasse a se proliferar.

Disse Leandro Karnal, no seu brilhante “Pecar e perdoar”, mais ou menos o seguinte: de que a vitória do cristianismo tinha sido não a vitória de Cristo, mas a vitória dos fariseus. O triunfo da lei sobre o amor — nada de revolucionário; e que manteve o status quo do qual o Nazareno tanto quis subverter.

Pois bem: o triunfo dos cristãos armamentistas — caso Bolsonaro chegue ao poder — é o triunfo do anticristo. Se você vai votar em Bolsonaro principalmente por motivos religiosos, tenha a certeza de que esses tais motivos podem ser de princípios de qualquer coisa combatente, bélica e facínora; mas não é, por hipótese alguma, pelos princípios da religião de Cristo.


Gostou? Clique nos aplausos — eles vão de 1 a 50 — e deixe seu comentário!

Siga nossas redes sociais: Facebook | Twitter | Instagram

Se inscreva em nosso canal no YouTube!

Divulgue seus textos e participe do nosso grupo oficial no Facebook

Conheça nossas revistas digitais!

Revista Subjetiva

Felipe Moreno

Written by

Rebaixar ao nível do sublime; elevar ao nível do ridículo.

Revista Subjetiva

Tudo aquilo que você não encontra na grande mídia.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade