Arquivo pessoal

Acordou, era madrugada. Teve paz apenas por alguns milésimos de segundo, até abrir seus olhos e se deparar com a mórbida percepção da realidade através de seus sentidos táteis e visuais, já desgastados com a constante sobrecarga. Olhou para a janela à sua esquerda e percebeu que não entrava luz. Foi tempo suficiente para a sua mente sair do suposto estado pesado de repouso do sono, e acelerar bruscamente em direção a todo e qualquer tipo de pensamento que pudesse atropelar no seu íntimo caminho psíquico, o qual já conhecia muito bem, por exaustivamente percorrer durante seus momentos conscientes. Não só enquanto consciente, pois nem em seus sonhos Rafael conseguia escapar completamente da angústia e do desespero esmagador de simplesmente pensar. Pegou seu celular na cabeceira da cama, e a tela de bloqueio apontava o horário, 5:17 da manhã. Conferiu suas mensagens, mas não se preocupou nem um pouco em respondê-las, enquanto teve um leve sentimento de deja vu. Lembrou-se de ter acordado durante a noite, preocupado, apenas para conferir se havia novas mensagens, e agora as reconheceu.

Não se levantou, era cedo demais pra sair, porém, já havia saído da cama em seus pensamentos, percorreu todo o caminho que já conhecia e trilhava durante o dia. Pensou no seu banho, no que comeria no café da manhã, no atraso e na correria para pegar o ônibus e, finalmente, chegar atrasado no trabalho. O atraso não era, necessariamente, uma regra, mas era recorrente. O suficiente para fazer parte de sua rotina, e, aparentemente, até de seus pensamentos sobre sua rotina.

Um velho conhecido seu costumava dizer que ninguém se atrasa quando há planejamento. Eu discordo dessa afirmação. Coitado, morreu antes de saber que é possível se atrasar por planejar demais. Levantar da cama e se arrumar para o trabalho é rotineiro, simples, quase que mecânico, não deveria ser um obstáculo. Bom, pelo menos, não na realidade. Em pensamento, por outro lado, torna-se repetitivo, exaustivo e, às vezes, fisicamente doloroso.

Ainda era cedo demais, rolou para um lado e para o outro incontáveis vezes, tentando dormir. E por pensar demais em tentar dormir, não conseguiu. “Eu tenho que dormir”, pensou. “Posso sentir sono no trabalho, e acabar tomando muito café. O café só tende a piorar a minha gastrite”. Virou para o outro lado. “Uma gastrite pode resultar em uma úlcera. Acho que ouvi dizer que meu tio Roberto morreu por conta de uma úlcera no estômago”. Em poucos instantes, alguns minutos a menos de sono em um dia qualquer, haviam se transformado em uma desagradável e, possivelmente fatal, úlcera no estômago.

Olhou novamente em direção a janela, para ver se havia amanhecido por completo. Sem sucesso, ainda estava escuro. Tinha que chegar logo no trabalho, e o maldito tempo não colaborava com a situação. Se comprometeu em entregar algumas laudas em relatórios contábeis para seu chefe, e havia marcado uma reunião com o RH pra depois do almoço.

Mas o que iria comer no almoço? Era o que começava a se questionar agora. O restaurante do quarteirão ao lado do prédio em que trabalhava era bom, porém, muito caro. Se gastasse demais com comida, teria problemas com o aluguel no final do mês. Não tinha preparado nada na noite anterior, e apesar de ser cedo demais pra se arrumar, era tarde demais pra cozinhar qualquer coisa. “E se eu ficar sem almoço?”, pensou. “Posso passar mal de fraqueza até o final do dia, não posso ficar sem comer, ainda mais num calor desses”. Decidiu almoçar no restaurante, e, apesar de ainda estar na primeira semana do mês, o pensamento de não conseguir pagar o aluguel já estava o corroendo por dentro.

Pegou mais uma vez o celular na cabeceira da cama para ver o horário, 5:22. Apenas cinco minutos haviam se passado, e já havia sido capaz de pensar em todo o seu dia e suas responsabilidades, cansativas e repetitivas vezes. O começo do dia estava pacífico e tranquilo, límpido e fresco, como qualquer madrugada de verão do norte do estado de São Paulo. Seu quarto estava lentamente sendo iluminado pela tonalidade cerúlea do céu ainda sem sol, do começo das manhãs. Era possível ouvir, mesmo que a distância, o canto de alguns pássaros. Rafael morava em uma cidade interiorana, com isso, ganhou alguns privilégios, como a tranquilidade da manhã, que vinha com o canto dos pássaros. O contraste era bonito, dicotômico, infalível. A tonalidade de uma manhã interiorana e arborizada, de um quarto silencioso e sombreado, contrastando com a prematura, perturbadora e densa agitação psíquica de Rafael.

Decidiu se levantar as 5:30 para se arrumar. Tomou seu tradicional e amargo café preto para se livrar do sono persistente, que provavelmente era herança de mais uma noite mal dormida, enquanto comia algumas torradas com manteiga. Tomou banho e vestiu sua batida roupa social para o trabalho. Não gostava de ser funcionário em uma multinacional. Desde pequeno teve seus pais e irmãos como guias, e adquiriu deles a crença de que uma graduação e um emprego estável seriam solução para todos problemas que pudesse encontrar. Era impossível não pensar nos malditos relatórios e na reunião da tarde. Ninguém avisou Rafael que o tão almejado emprego estável poderia ser uma semente fértil e próspera para todos os seus problemas da idade adulta.

Saiu de casa e foi em direção ao ponto de ônibus que religiosamente frequenta, esperando o transporte para chegar à avenida do prédio em que trabalha. Desta vez, não estava atrasado, mas o seu alívio momentâneo durou pouco. Percebeu que pegaria o mesmo ônibus que o vendedor ambulante do seu bairro, um homem ligeiro, de baixa estatura e de voz aguda, irritante. Respirou fundo e tentou se acalmar. “É inacreditável, um sujeito vendendo chocolate às 7 da manhã num ônibus”. Enquanto o ônibus não passava, Rafael antecipou o sofrimento da viagem se perguntando se dessa vez o vendedor estaria anunciando Chokito ou Sonho de Valsa, e se a promoção da vez seria dois chocolates por cinco reais, ou cinco por dez. Não demoraria muito para descobrir, o ônibus chegou no ponto às 7:15, e Rafael já sabia que teria, pelo menos, vinte minutos de anúncios aos gritos de “chocolates para adoçar sua vida amarga” até chegar ao trabalho. “Minha vida não é amarga”, refletiu. E foi só um pretexto pra começar uma profunda análise interna sobre a provável amargura de sua própria existência, ao som vívido, agudo e excessivamente energético dos anúncios do homem.

Passou a olhar a sua volta, e percebeu que só ele se mostrava claramente irritado com a situação. Todas as outras pessoas no ônibus estavam usando fones de ouvido, ninguém parecia ouvir o que o homem estava anunciando, independentemente do volume da sua voz. Ninguém consegue abaixar o volume dos próprios pensamentos, ou da voz dos outros, mas, veja, a tecnologia também têm suas maravilhas e seus méritos. Criaram artefatos que permitem o impensável bloqueio parcial e, às vezes, até total das influências externas. E, mesmo quando não se consegue sobrepor totalmente o volume anárquico dos pensamentos internos, pelo menos, o foco acaba voltando para apenas uma fonte de estímulo psíquico, e não várias, como ocorre dentro de nossas cabeças diariamente.

Por não suportar mais os gritos agudos do homem, necessidade de um esforço extra ao andar para acordar, ou por pura e simples ansiedade, Rafael saiu do ônibus adiantado, duas paradas antes da avenida em que trabalhava.

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Pedro Vinicius Paliares de Freitas

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Estudante de Ciências Sociais na Unicamp. Leitor de Filosofia, Sociologia, História e Romances. Interessado em política.

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