
Degradado — parte 2
Caso você ainda não tenha lido a parte 1, aqui está o link direto
A cidade estava movimentada. Com o horário já se aproximando das 8 da manhã, o centro urbano ditava o início do dia, e as pessoas que chegavam traziam vida à paisagem acinzentada da urbanização. Sentiu seu coração saltar cada vez mais agressivamente em seu peito, enquanto andava a ligeiros passos em direção à Avenida Sete de Setembro. O coração pulsava forte o bastante para ser percebido mesmo quando Rafael estava distraído, provavelmente um resultado das duas xícaras de café que tomou há uma hora atrás, um reflexo da ansiedade, uma reação natural do corpo ao andar rapidamente na rua ou, quem sabe, os três ao mesmo tempo. Era impossível saber ao certo.
Sentia-se preso ao trabalho, não gostava do que fazia, mas era necessário para manter sua vida nos eixos, afinal, era a melhor opção que tinha no momento. Mas não só o trabalho o incomodava no momento, a inquietude do centro da cidade, a agitação das pessoas chegando, o trânsito, os comércios abrindo as portas e as empresas começando a funcionar o faziam repensar todo o seu sentimento. Era como se a organização social em torno da avenida e do centro fosse mecânico, infalível, e simultaneamente orgânico. Lembrou-se da descrição do Cortiço da obra de Aluísio Azevedo, na sua visão contemporânea. A respiração do centro comercial, a transpiração da cidade, a atmosfera densa e o mormaço, acordando e se espreguiçando para o começo de mais um dia de trabalho — como um só ser em ascensão.
Chegou aos pés do prédio da empresa em que trabalhava. Não por acaso acinzentado, alto e imponente. Olhando dessa perspectiva, podia até ser um irmão gêmeo do Ministério do Amor, moldado nas guerras do Velho Mundo, que veio “fazer a América”, acompanhado de outros milhares de imigrantes europeus do século XIX. O número 1822, com adereços dourados, empoeirados e nitidamente desgastados com o tempo, estampava a entrada do edifício, que tinha cerca de 30 andares.
Entrou, bateu o ponto e começou a trabalhar. Péssima ideia, ser contador em uma multinacional, simplesmente pela necessidade de manter um padrão de vida, que nem tinha sido idealizado por ele mesmo. O calor não ajudava, também. O setor de Rafael tinha ficado sem ar condicionado há alguns dias, bem no começo do verão. Terminou seus relatórios e tirou um tempo para descansar. Foi na cozinha, em outro andar, e tomou mais uma xícara de café. Podia ficar o dia todo na cozinha, pelo menos naquele andar o sistema de ar condicionado estava funcionando.
Nem conseguiu tomar seu café, uma pena, pois enquanto bebia, seu chefe entrou na cozinha. Rafael já havia terminado os relatórios, mas ainda não havia enviado para Alberto, seu chefe. Não estava pronto para ouvir quinze minutos de cobranças e comentários sobre como seu trabalho não têm rendido, não tem resultado, ou sobre como ele têm sido improdutivo nos últimos meses. De qualquer forma, era inevitável. “Inevitável”, pensou Rafael, e enquanto seu chefe reclamava, se pôs a refletir sobre situações inevitáveis. A próxima crise econômica, o desemprego, a catástrofe climática, o próximo conflito diplomático ou armado entre países do ocidente e do oriente, países pobres e ricos, países cristãos e muçulmanos, países produtores e países consumidores…
Colocou a xícara na pia, tinha um semblante reflexivo, o olhar compenetrado em um imã da geladeira. “O melhor está por vir”. Não, não estava. Rafael percebeu que o sermão de seu chefe já havia acabado, e que Alberto não estava mais na cozinha. Saiu dali e voltou para o seu andar, sem ar condicionado e tendo que enviar os relatórios para Alberto com um pedido de desculpas pelo atraso. O pedido de desculpas era inevitável. Se pôs a pensar novamente, “a crise econômica, o desemprego, a catástrofe climática, os conflitos…”. Enviou o e-mail e conferiu o relógio, apenas cinco minutos para o meio-dia, era hora de almoçar.
Desceu pelo elevador, saiu do prédio e foi em direção ao restaurante. O calor estava insuportável, e o restaurante não tinha um ventilador sequer, Sentou em uma das mesas e esperou o garçom atende-lo. Falando no garçom, coitado, estava suando, cansado e estressado, Rafael quase deu seus sentimentos ao pobre moço antes de pedir um prato feito e uma água com gelo. Enquanto esperava seu prato, observou à sua volta. Apesar de estar quase vazio, algo além do mormaço do meio-dia incomodava Rafael. Era a TV, que preenchia todo o espaço vazio produzido pela falta de pessoas no estabelecimento. Impressionante, o jornal do meio-dia noticiava sempre a mesma coisa, “a inflação, a crise política, as guerras no oriente médio, os problemas de migração…”
A notícia da vez era a intensa guerra comercial que se criava entre Estados Unidos e China. O pujante crescimento chinês espanta o maior mercado consumidor do mundo, o estadunidense, que se esforça cada vez mais para impor barreiras aos produtos chineses que querem entrar em seu território. “O Brasil já se beneficiou do crescimento chinês na última década”, pensou Rafael, enquanto a âncora do programa noticiava mais uma tarifa criada sobre a importação de smartphones.
Rafael saiu da mesa e foi lavar o rosto no banheiro, não conseguia entender porquê era tão difícil se privar de pensar por um segundo sequer. Nem um momento de suposta tranquilidade — o seu almoço — era pacífico. Jogou a água em seu rosto e respirou fundo, nem a água da torneira fugia do intenso calor do dia. Secou o rosto e tentou limpar sua mente dos pensamentos, apoiando os braços na pia molhada. O banheiro estava mais quente do que o próprio salão. Era impossível, não conseguia parar de pensar.
A filosofia, base da educação grega, criada e desenvolvida nas civilizações da antiguidade para a ascensão do pensamento crítico e científico, pode ser considerada uma dádiva, um fator insubstituível na evolução e manutenção da raça humana e das diferentes sociedades. Para Rafael, passava a ser uma desgraça, ao não conseguir parar de pensar em todo e qualquer estímulo externo que seu corpo tinha acesso, se perguntava inúmeras vezes sobre muitas coisas.

