Descoberta

Estou aprendendo a ser completa. Gostar dos meus dedos do pé, da minha cara às seis da manhã de um domingo. Ouvir a voz da Gal Costa e me permitir pensar em tudo que me faz vibrar. E o toque não parece mais um eco no escuro, já que tenho me ouvido bastante. Dito alto que o amor flutua meu peito e mora aos arredores de mim. Mesmo quando eu digo que não e me escondo no quarto um pouco para respirar. Eu estou bem. Quero dizer, as entranhas nunca estiveram tão expostas, mas eu também nunca fui tão forte.

Desço as escadas pulando uns degraus e decido deixar o cabelo crescer um pouco. Assisto uma vizinha me olhar com ar de julgamento enquanto mordo o lábio. Eu diria oi tudo bem como você está, mas o que eu quero dizer agora é foda-se. Eu sou a moça que ajuda a velhinha a atravessar a rua, mas eu também sou a mulher contra aquela parede gemendo sem voz. Eu agradeço pela comida, pelo sol, por toda beleza contida na vida, mas eu também praguejo contra a imensidão em dias vazios. E eu não sou menor quando faço isso. Nem no meio da noite, nem no corpo igual ao meu que me excita, me liberta, me incendeia. Nem quando não digo nada e fico ali, encarando a vizinha.

Eu sou o incêndio todo e a água que escorre no final. Paladar de café com suco de frutas vermelhas e uma bolacha da Nestlé. Posso xingar o carinha que me atira pedra sem dizer nada, porque eu não sou obrigada a ficar calada. Nem o silêncio maldoso é tolerável, já que o que eu faço com meu mundo cabe somente a mim. Não está nos olhos dela me encarando pós-coito, nem na mansidão de uma igreja vazia. Eu moro no que deixo e marco, mas principalmente no que permito.

A liberdade está no momento em que a vizinha sacode os ombros e sai com cara de quem vai contar para todo mundo da rua que eu não tenho educação. Essa coisa engraçada que a gente finge que sente e que só é para que ninguém se incomode.

Eu decidi quando ela abriu o portão que eu adoro o incômodo se ele está atrelado ao que eu sinto que sou agora. Esse ar pautado de loucura e bondade, bagunça e solidão. Essa ardência de procurar destinos quando finalmente encontrei uma estrada para seguir.

Afinal, eu também tenho direito a dizer não.


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